Genealogia da moral

NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral: Eine Streitschrift. Leipzig: C. G. Naumann, 1887. / NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

1. Os homens do conhecimento desconhecem a si mesmos, pois, voltados apenas para as colmeias do conhecimento onde está seu tesouro, permanecem ausentes das próprias vivências e só tardiamente perguntam o que viveram e quem realmente são, contando errado as batidas de sua vida, de modo que continuam necessariamente estranhos a si mesmos, cada qual o mais distante de si.

2. Os pensamentos sobre a origem dos preconceitos morais, expressos pela primeira vez de forma modesta e provisória em Humano, demasiado humano, iniciado em Sorrento no inverno de 1876-7, mantêm-se firmes e entrelaçados por brotarem de uma raiz comum, uma vontade fundamental de conhecimento, pois ao filósofo não cabe errar nem acertar isoladamente, mas gerar ideias e valores com a necessidade com que a árvore dá frutos, testemunhas de uma mesma vontade, saúde, terreno e sol.

3. Um escrúpulo precoce em relação à moral, quase um a priori imoralista, conduziu desde a adolescência ao problema da origem do bem e do mal, primeiro resolvido teologicamente fazendo de Deus o pai do mal, e depois, separado o preconceito teológico do moral e com auxílio da educação histórica e filológica e do senso psicológico, transformado na questão sobre as condições em que o homem inventou os juízos bom e mau e sobre o valor deles, se obstruem ou promovem o crescimento humano e se são sinal de degeneração ou de plenitude da vida, investigação que gerou um território próprio e silencioso como um jardim secreto.

4. O primeiro impulso para divulgar as hipóteses sobre a procedência da moral veio do livro A origem das impressões morais, de Paul Rée, de 1877, exemplo claro da hipótese genealógica inglesa a que se disse não frase por frase, não para refutá-lo, mas para substituir o improvável pelo mais provável, como se fez em Humano, demasiado humano e obras seguintes ao tratar da dupla pré-história do bem e do mal entre nobres e escravos, da moral ascética, da moralidade do costume, distinta da valoração altruísta, da justiça como acerto entre poderosos equivalentes e do castigo, ao qual a intimidação não é essencial.

5. Mais importante que as hipóteses sobre a origem da moral era a questão de seu valor, que exigia confrontar Schopenhauer e sua divinização do não-egoísmo, da compaixão, da abnegação e do sacrifício como valores em si fundamentos de seu não à vida, instintos nos quais se revela o maior perigo e sedução da humanidade, a vontade voltada contra a vida e a doença terminal da cultura europeia rumo a um novo budismo ou niilismo, tanto mais que filósofos tão diversos como Platão, Spinoza, La Rochefoucauld e Kant concordavam no pouco valor da compaixão.

6. O problema do valor da compaixão abre uma perspectiva vertiginosa que abala a crença em toda moral e impõe a exigência de uma crítica dos valores morais, em que o próprio valor desses valores seja questionado mediante o conhecimento, nunca antes buscado, das condições de seu nascimento e transformação, pois sempre se supôs sem dúvida que o bom vale mais que o mau, quando talvez o bom seja sintoma regressivo, veneno ou narcótico pelo qual o presente vive às custas do futuro, sendo a moral o perigo dos perigos que impede o tipo homem de alcançar sua máxima potência.

7. Percorrer a vasta região da moral efetivamente vivida com novas perguntas e novos olhos exige camaradas doutos e ousados e um genealogista atento ao cinza dos documentos, ao efetivamente havido e à longa escrita hieroglífica do passado moral, e não às hipóteses inglesas perdidas no azul, como as de Rée, em que a besta darwiniana se une ao fraco moral moderno com indolente pessimismo, quando nada merece mais ser levado a sério que os problemas morais, cuja recompensa é poder um dia tratá-los com jovialidade, gaia ciência que paga uma longa seriedade subterrânea e abre novas possibilidades ao drama dionisíaco do destino da alma.

8. A eventual incompreensibilidade deste escrito deve-se à falta de leitura aplicada das obras anteriores, pois só conhece Zaratustra quem foi ferido e encantado por cada palavra sua, e a forma aforística exige não apenas leitura, mas uma arte da interpretação, exemplificada na terceira dissertação como comentário de um aforismo, arte que requer algo esquecido pelo homem moderno e para o qual é preciso ser quase uma vaca: o ruminar.