NIETZSCHE, Friedrich. Morgenröthe: Gedanken über die moralischen Vorurtheile. Chemnitz: Ernst Schmeitzner, 1881. / Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Prólogo
1. Um ser subterrâneo trabalha nas profundezas, perfurando, escavando e solapando com lentidão cautelosa e suavemente implacável, aparentemente contente com sua obscura tarefa, como se desejasse a própria treva por saber que lhe caberá também sua manhã, sua redenção e sua aurora, e ao retornar e tornar-se novamente homem dirá por si mesmo o que buscava lá embaixo, pois quem foi longamente toupeira solitária desaprende o silêncio.
2. A descida às profundezas, que não convém a qualquer um nem deve ser imitada, por ser caminho próprio e solitário em que ninguém ajuda a enfrentar perigos, acasos e maldades e nem os amigos sabem para onde se vai, consistiu em escavar o velho alicerce sobre o qual os filósofos construíram por milênios como sobre o fundamento mais seguro, apesar de todos os edifícios terem desmoronado: a confiança na moral.
3. Sobre o bem e o mal sempre se refletiu da pior maneira, porque a moral, avessa à crítica como toda autoridade, protege-se não só pelo terror, mas sobretudo pela arte da sedução, sendo a verdadeira Circe dos filósofos, e por isso todos os arquitetos filosóficos desde Platão construíram em vão, não por negligenciarem uma crítica da razão, como pretendeu Kant, mas por construírem sob a sedução da moral, inclusive o próprio Kant, que, mordido pela tarântula moral de Rousseau e pessimista diante da imoralidade da natureza e da história, precisou da crítica da razão pura para tornar o mundo moral inapreensível pela razão, numa lógica do crer apesar de, aparentada ao credo quia absurdum de Lutero e à dialética da contradição de Hegel, que faz dos alemães pessimistas até dentro da lógica.
4. Os juízos de valor lógicos não são os mais profundos, pois a confiança na razão é ela mesma um fenômeno moral, e o pessimismo alemão encontra seu último passo na retirada da confiança na moral por moralidade, já que os imoralistas e ateus ainda obedecem a um severo dever de consciência que os impede de voltar a ideais caducos como Deus, virtude, verdade, justiça e amor ao próximo e os torna hostis a toda fé, romantismo, patriotismo e idealismo, fazendo-os herdeiros da retidão e piedade alemãs e executores de uma vontade pessimista que nega a si mesma com prazer, de modo que neles se realiza a autossupressão da moral.
5. O que se é e se quer deve ser dito com frieza, distância e discrição, e sobretudo lentamente, como convém a um problema que não tem pressa e a quem foi filólogo, mestre da leitura lenta, pois a filologia, arte venerável que exige pôr-se de lado, dar-se tempo, silenciar e trabalhar como ourivesaria da palavra, é hoje mais necessária do que nunca numa época de pressa e sofreguidão, por ensinar a ler bem, lenta e profundamente, com segundas intenções e olhos delicados, a única leitura apropriada a quem exige leitores e filólogos perfeitos.