Montaigne

Michel de Montaigne (1533-1592)

Fausta GARAVINI. UNIVERSALIS.

Os Ensaios de Montaigne — livro único e misterioso, retomado e modificado incessantemente durante toda uma vida — apresentam-se como uma mistura de substâncias díspares e temas desacordados, cuja natureza permanece objeto de debate crítico.

A vida pública

Michel Eyquem nasceu no castelo de Montaigne, de família de nobreza recente, e foi criado segundo métodos pedagógicos liberais de que falará nos Ensaios — em especial no capítulo “Da instrução das crianças” (I, 26).

Ensaiar-se pela dúvida

Toda ocasião é boa para Montaigne colocar seu julgamento à prova, independentemente do objeto de que trate ou do resultado a que chegue — afirmação, dúvida ou recusa —, pois nunca pretende propor uma verdade assegurada, mas apenas um testemunho subjetivo.

Política e religião

Essa atitude recebe sua definição essencial no grande capítulo da Apologia de Raimundo Sebond — defesa pretensa do teólogo catalão cuja obra Montaigne havia traduzido —, que acaba por despedaçar o antropocentrismo do autor.

Da jurisprudência ao ensaio

A abordagem dubitativa e não resolutiva dos Ensaios — avatar da epoché pirrônica — deve sua estranheza radical, como mostra André Tournon, à cultura jurídica do autor e à sua experiência de magistrado.

O sujeito em questão

Moldado por sua atividade de magistrado, o homem que em 1571 se demite de seu cargo para se tornar escritor só pode se escrever de maneira problemática — antecipando as pesquisas atuais sobre a escrita.

O livro do luto

A fórmula “Não são meus gestos que escrevo, sou eu, é minha essência” não deve induzir em erro: o termo “essência” não funda de modo algum um eu transcendente.

Os monstros na biblioteca

Esse eu problemático e “melancólico” entra na escrita declarando-se “inteiramente desprovido e vazio de qualquer outra matéria” — apresentando-se a si mesmo como argumento e sujeito para “pôr em rol” as “quimeras e monstros fantásticos” que seu espírito engendra deixado “em plena ociosidade.”

O exemplum…

O grande número de citações e de exempla nos Ensaios levou muitos pesquisadores a aproximar a obra das coletâneas de “lições” que estavam na moda no Renascimento.

…e o fantasma

O sentido latente da escolha das anédotas não é sempre claramente entregue no texto — ao contrário, a maioria dos exemplos pode parecer perfeitamente opaca, e é justamente aí que eles revelam o sentido profundo que trabalha o sujeito.

O livro em devir

As adições ulteriores mudam o aspecto do livro: uma força obscura faz sangrar de novo as feridas não cicatrizadas, e algo empurra Montaigne a retornar incessantemente ao texto, a intervir em certos pontos mais do que em outros.