1 Palavra interior

MAREJKO, Jan. Le Territoire métaphysique. Lausanne: L'Âge d'Homme, 1989. (372 p.).

1. Cada ser ao redor traz consigo um discurso dirigido a si mesmo que motiva seus gestos, comportamentos e angústias, como a mulher excessivamente maquiada que se julga feia e abandonada, o jovem aprendiz que lamenta ter interrompido os estudos, a jovem que proclama seu amor contra um mundo entediado ou o aluno silencioso cujo mundo interior permanece misterioso.

2. O mundo ressoa com discursos infinitamente diversos, otimistas ou pessimistas, que atravessam os rostos e se estendem ao passado e ao futuro.

3. Esses discursos voltam-se para o passado porque cada um remói em sua mente os acontecimentos vividos, às vezes em noites insones, inscrevendo-os numa certa perspectiva interpretativa.

4. Voltam-se também para o futuro porque a ruminação do passado determina os atos, como no caso da mulher que, de tanto remoer palavras ofensivas, passou a crer-se feia e a desconfiar do marido e dos filhos, entrando no inferno da suspeita que as páginas policiais completam diariamente com assassinatos, suicídios e abandonos.

5. Ninguém age segundo um programa ou instinto, pois quase tudo o que se faz é determinado pelo que aconteceu e pelo modo como foi compreendido nas ruminações interiores, sendo as palavras repetidas a si mesmo que fazem cada um ser o que é, sinal de uma consciência que se descola dos acontecimentos para julgá-los ou fazê-los julgar por Deus, como pensava Max Scheler, para quem os movimentos da consciência correspondem a uma linguagem natural que Deus dirige à alma e cuja unidade não subsiste separada dessa voz secreta.

6. Ao falar consigo mesmo, cada um parece colocar-se diante de alguém tomado como testemunha de sua desgraça ou felicidade e que o julga e repreende, como se houvesse em si um Outro e não apenas, como cria Rousseau, uma consciência individual do bem e do mal, de modo que a consciência, longe de ser um conjunto de princípios abstratos guardados como um frasco numa prateleira, é muito mais viva e afetada pelo que se faz.

7. Sócrates percebeu essa presença estranha no coração da consciência individual em seu demônio, que o retinha no caminho do mal e parecia brotar de fora dele, mas foi santo Agostinho quem melhor falou de Deus em nós, narrando apaixonadamente nas Confissões tudo o que lhe aconteceu e como encontrou Aquele diante de quem fazia esse relato.

8. Há em nós um Outro para nos levar mais longe, impedir-nos de chafurdar em nossos desamparos e elevar-nos acima de nós mesmos, razão pela qual Scheler fala de salvação, de um Outro que não nos abandona ao mundo e nos encoraja a transformá-lo para salvá-lo também.

9. O discurso dirigido a si mesmo não é mero retorno sobre o feito, mas promessa de certo poder sobre os acontecimentos futuros, pois compreender as palavras ruminadas permite agir melhor no dia seguinte, tornar-se melhor e mudar um pouco o mundo.

10. Ninguém está simplesmente posto no espaço como uma pedra ou um animal, pois cada um recorda, examina e retoma constantemente o que fez para discernir seu futuro, seus deveres e suas faltas, e se esse discurso se mantém diante de um juiz infinito que quer elevar-nos até ele, ele não tem termo e prossegue até a morte num reino em que as direções são dadas pelo sentido das palavras e pela esperança ou desespero que suscitam, como no grito de Agostinho pedindo a Deus que não o deixe ser apenas sua própria vida.

11. Ser apenas a própria vida significa recusar-se a escutar o Outro que vive em nós, e nada é mais eficaz para calá-lo do que entregar-se aos gozos da droga, do sexo, do poder e da guerra, como abundantemente mostra a literatura, colocando-se a questão de saber se é possível sufocar definitivamente essa voz e perder a capacidade de falar consigo mesmo, isto é, o pensamento.

12. Talvez existam seres em quem a palavra interior morreu, outrora chamados condenados por terem perdido a alma, expressão hoje melhor compreendida como extinção completa da palavra interior, que paradoxalmente pode coincidir com uma felicidade extática, como busca o drogado ao deslizar de êxtase em êxtase sem pensar, embora seja duvidoso que isso seja possível antes da morte, como duvidava Sartre ao descrever a impossibilidade de deter o pensamento pelo qual cada um se arranca do nada a que aspira.

13. Em Sartre, a desgraça de existir liga-se à impossibilidade de deter o fluxo das palavras interiores, o que remete à droga como meio de reduzir-se a um corpo que vive sem palavras, e há algo de estranho em arrancar-se a si mesmo do nada sem poder impedir-se de fazê-lo, de modo que talvez fosse mais prudente sugerir que, se não se tem poder sobre esse ato, é porque não é realmente o próprio sujeito que o realiza, mas um Outro em nós que nos arranca do nada.

14. Outrora não se pretendia saber com certeza quem havia perdido a alma e quem ganhava o Paraíso, o que só Deus, Senhor da palavra, sabia, mas hoje se hesita menos, como Sartre em A náusea, convicto de estar cercado de seres em quem a palavra estava morta, burgueses, canalhas ou seres reificados, que comem sérios como quem repara forças para sua tarefa e se julgam indispensáveis, sem perceber que existem.

15. O ódio ao pequeno-burguês acomodado, que todos já sentiram em manhãs tristes, é presunçoso e fácil, pois ninguém pode dizer quem está espiritualmente morto ou vivo nem aceder ao tabernáculo interior em que cada um diz a si mesmo ou diante de Deus o que é, quer e espera, havendo sempre, sob as camadas de banalidades, palavras ainda vivas ou ao menos a capacidade de ser despertado por elas, de modo que o homem pode ser definido pela capacidade de esperar um Outro que o liberte de um discurso morto.

16. Por essa espera que habita a todos, ninguém está apenas onde está, localizado no espaço e nos instantes justapostos, mas adiante de si mesmo, projetado no futuro e voltado ao passado para articular melhor sua espera, estando mais no tempo, dimensão invisível, do que no espaço, em razão de uma palavra interior que nunca é perfeitamente viva, pois, se o fosse, nada mais se esperaria e o tempo não seria sentido como intervalo rumo ao que falta.

17. A extinção de toda palavra interior coincide também com a cessação da percepção do tempo, mas nesse caso o desaparecimento do tempo assinala não a realização de uma espera, e sim sua eliminação, como no drogado, ou sua ausência, como no animal, para quem a palavra interior não tem sentido.

18. Há três modos de ser diante do tempo: o do animal ou do drogado, que pela ausência ou supressão da palavra interior vivem a vida do corpo; o do homem, que, insatisfeito com o discurso que dirige a si mesmo, espera perpetuamente um novo discurso; e o de Deus, que também fala consigo mesmo e está no tempo, mas fora dele por não esperar uma palavra viva, sendo Ele mesmo essa palavra.

19. O caráter temporal humano é indissociável do caráter falante, e é pela falta de plenitude da palavra que se está no tempo, sem o que se seria como deuses ou animais, pois um ser que não fala consigo mesmo não vive no passado nem no futuro, apenas antecipa vagamente um prazer ou recorda um perigo, como os animais, cuja vida, programada pelo instinto, jamais é determinada pela ruminação interior do que lhes acontece, ausência de pensamento que implica ausência de temporalidade.

20. A palavra pensamento, como a palavra alma, perdeu seu antigo significado, pois no século XX muitos julgam que um computador pensa e mesmo os que escapam a essa aberração definem o pensamento como capacidade de receber, organizar e sintetizar informações, quando, se o pensamento é, como dizia Platão, a capacidade de manter um discurso consigo mesmo, nada tem a ver com as operações de um computador.

21. A palavra interior difere das operações de um computador por associar constantemente presente e passado e antecipar o futuro, por desenvolver-se de modo absolutamente singular em cada indivíduo e por conferir a cada um um destino único e imprevisível, como o da mulher maquiada que, outrora jovem cheia de entusiasmo e esperança, tornou-se como uma taça de absinto.

22. A distinção entre alma e pensamento não é fácil, já que perder a alma equivale a falar cada vez menos consigo mesmo e, portanto, a perder o pensamento, embora a alma seja associada a qualidades morais e o pensamento a uma atividade puramente intelectual.

23. O pensamento não pode ser concebido como uma máquina que funciona mais ou menos bem, como percebeu Hannah Arendt diante de Eichmann em Jerusalém, cuja ausência de moral, remorso ou pesar decorria menos de uma perversão da alma do que da incapacidade de pensar, pois, longe de ser estúpido e tendo organizado com grande inteligência o extermínio dos judeus, perdera a capacidade de dizer a si mesmo o que fizera, vivendo sua história como justaposição de instantes sem significado e aplicando a inteligência apenas aos meios e não aos fins, diante de um universo concentracionário feito, segundo David Rousset, de leis, escritórios e relatórios povoados por funcionários como máquinas de escrever humanas.

24. A morte do pensamento liga-se à recusa de considerar o sentido do universo oferecido, concentracionário ou não, recusa que coincide com uma complacência perversa na especialização, na eficácia técnica e no amor ao detalhe separado da totalidade, como mostra Rudolf Hoess, que, responsável pelo extermínio, matou um oficial por ter executado um deportado sem autorização, de modo que a incapacidade de dizer a si mesmo o que se faz predispõe mais ao crime do que uma alma negra ou uma perversão psíquica, como indica também Himmler, que, segundo Richard Rubenstein, não era sádico e se agitava ao assistir a execuções.

25. Trezentos anos de discursos sobre a voz da consciência e a bondade natural do homem obscureceram o papel do pensamento na realização do bem, fazendo crer que bastaria manter a alma boa, como qualidade inata a ser limpa todas as manhãs como quem engraxa os sapatos, para não sucumbir ao mal.

26. A bondade é inseparável do retorno sobre si, da reflexão sobre o mundo e do discurso interior sobre o que aconteceu e poderia acontecer, isto é, do pensamento, que não exige ser intelectual, pois o camponês, predisposto por seus trabalhos a ruminar o tempo decorrido, talvez o alcance melhor que o intelectual moderno, que, cheio de teorias e sistemas, já não fala consigo mesmo no silêncio e descobre, exausto, nada ter a dizer, com um interior deixado inculto por excesso de racionalismo, que pode ser o de um bom selvagem, mas também o de um bárbaro capaz de qualquer crime, como o da criança que arranca com deleite as asas de uma mosca.

27. O pensamento técnico, a organização dos meios e a obsessão pela racionalização e pela eficácia abandonam a alma ao atrofiar a faculdade de falar consigo mesmo, e um ser que já não fala consigo mesmo é incapaz de moralidade ou só a possui por acaso.

28. O pensamento técnico é perverso quaisquer que sejam os fins perseguidos, pois quem põe a inteligência a serviço do bem não é melhor do que quem a põe a serviço do mal, já que em ambos os casos a alma permanece inculta por excesso de racionalismo.

29. A lamentação sobre o mau uso das faculdades intelectuais tornou-se lugar-comum no século XX, como se os alemães, com valores humanistas em vez de pagãos, tivessem podido realizar maravilhas com sua inteligência, mas belos valores e nobres ideais produziram tantos mortos quanto os maus, pois quem põe o pensamento a serviço do bem interdita-se tanto quanto quem o põe a serviço do mal de falar consigo mesmo, ocupado em descobrir meios técnicos de fazer o bem e esquecido de interrogar os valores e fins que guiam seus atos.

30. Essa interrogação não conduz necessariamente à rejeição dos valores e fins, podendo levar à sua assimilação profunda, processo misterioso que a tradição cristã chama de encarnação, já que parece restar apenas a carne para absorver valores imateriais, embora a palavra interior seja também o que nutre a alma, que sem ela permaneceria inculta.

31. Sem assimilação dos valores, a alma ou a carne não são informadas pelo bem, pela justiça e pela verdade, que se tornam fins perseguidos por meios, e se são os meios e não os homens que produzem os valores, perde-se a razão pela qual os homens se esforçariam por ser justos, bons e verdadeiros por si mesmos.

32. O pensamento define-se, portanto, como um discurso dirigido a si mesmo sobre o sentido dos próprios valores, que conduz à sua rejeição ou à sua assimilação e encarnação.

33. As discussões sobre alma, pensamento, moral e palavra interior envolvem um desafio extraordinário, pois as sociedades industriais engendram tecnocratas que, como Eichmann e Hoess, organizam com extrema habilidade a produção e a distribuição de bens, mas são incapazes de meditar sobre o sentido de seus atos, de modo que, se não fazem o mal, talvez seja por acaso, podendo em outras circunstâncias produzir sabão com cadáveres com a mesma diligência com que hoje produzem carros ou aviões.

34. Esses problemas não são novos, mas eternos, pois em Atenas, no fim do século V antes de Cristo, Sócrates já tinha por interlocutores seres próximos dos tecnocratas, tão prisioneiros de palavras mortas que eram incapazes de interrogar o sentido de seus atos e palavras.