Arthur Lovejoy (1873-1962)
Peter J. Stanlis em “LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964”.
A Grande Cadeia do Ser, de Arthur O. Lovejoy, exerceu influência decisiva sobre a visão filosófica de Robert Frost, conforme atesta o testemunho de Reginald L. Cook, amigo íntimo do poeta.
Em 1933, Lovejoy proferiu as Conferências
William James em Harvard, publicadas como A Grande Cadeia do Ser em 1936.
Cook registrou conversas em que Frost demonstrava ter lido e admirado tanto A Grande Cadeia do Ser quanto A Revolta Contra o Dualismo (1930).
Cook formulou uma das afirmações mais abrangentes já feitas sobre as crenças e a arte de Frost: “o caminho através da poesia de Robert Frost leva para longe da Grande Cadeia do Ser em direção ao exercício de opções num universo aberto.”
As duas obras de Lovejoy forneceram a Frost as fontes históricas do positivismo científico moderno e os contornos filosóficos dos conflitos metafísicos do Iluminismo ao século XX.
A Grande Cadeia do Ser traçou as origens históricas do positivismo científico moderno.
A Revolta Contra o Dualismo explicou ao poeta as dimensões filosóficas da bifurcação da natureza por
Descartes, que cindiu o dualismo de espírito e matéria em dois monismos — um de espírito, centrado no idealismo romântico, e outro de matéria, assumido pelas ciências físicas.
Tanto Frost quanto Lovejoy aderiam ao que este chamava de “Dualismo Natural”, fundado numa teoria do conhecimento centrada no “senso comum”, na experiência humana, na memória e na retrospecção.
Frost venerava a grande erudição e apreciava especialmente a historiografia das ideias, que combinava história e filosofia em suas relações contextuais.
Em palestra em Middlebury College, em 27 de maio de 1936, Frost declarou: “Agora a grande erudição… eu a reverencio.”
Dezoito anos depois, em Bread Loaf, em 5 de julho de 1954, reiterou: “Agora a maior, a maior, a maior erudição — a maior erudição eu reverencio.”
Frost afirmou preferir histórias que sejam “fiéis às ideias ou à natureza humana.”
O que atraía o poeta em Lovejoy era o alcance épico de suas obras ao descrever a dinâmica das crenças científicas e filosóficas de importantes pensadores europeus e americanos desde antes de
Descartes até as primeiras décadas do século XX.
Lovejoy e Frost foram contemporâneos quase exatos, com origens familiares e trajetórias intelectuais marcadas por afinidades profundas, apesar de diferenças de temperamento.
Arthur O. Lovejoy (1873–1962) nasceu cinco meses antes de Robert Frost (1874–1963), e o poeta sobreviveu ao estudioso por menos de dois meses.
Ambos tinham mães europeias e pais americanos, e ambos se emanciparam cedo das religiões institucionais de suas famílias — Lovejoy da Igreja Episcopal, Frost da Igreja Congregacional.
Lovejoy ingressou em Harvard em 1895 como estudante de pós-graduação em filosofia; Frost ingressou em 1897 como estudante especial, com interesse decidido pela filosofia.
O departamento de filosofia de Harvard contava então com
William James, Josiah Royce, George Santayana, George Herbert Palmer e Hugo Munsterberg.
Lovejoy foi a Paris em 1898 para estudar religião comparada; Frost abandonou a universidade em 31 de março de 1899, sem registro de que se conhecessem como estudantes.
William James exerceu influência duradoura e profunda sobre os padrões gerais de pensamento de ambos, sem que nenhum deles se tornasse discípulo servil do mestre.
James foi o primeiro filósofo acadêmico americano a explorar as relações complexas entre filosofia e psicologia, envolvendo não apenas razão abstrata e lógica, mas emoções, desejos, consciência, vontade, memória e retrospecção.
James foi pioneiro na pesquisa sobre as diferenças entre sujeito e objeto, entre o conhecedor e o conhecido — em suma, entre mente ou espírito e matéria.
Frost e Lovejoy o percebiam essencialmente como um dualista epistemológico, cujo dualismo era infundido pela psicologia e por uma teoria do senso comum baseada na memória e na experiência empírica passada.
Esse dualismo era inteiramente distinto da dúvida metódica cartesiana, da lógica matemática e do raciocínio abstrato de
Descartes.
Tanto Lovejoy quanto Frost olhavam com ceticismo profundo para toda a tradição do idealismo platônico no pensamento ocidental, preferindo o pluralismo de James ao monismo absoluto de Royce.
Josiah Royce defendia o monismo idealista em seu célebre aforismo: “O Um está em tudo, e tudo está no Um.”
A filosofia pluralista de James contrastava nitidamente com a postura platônica de Royce, e Frost e Lovejoy concordavam com James, cada um à sua maneira.
Ambos aceitavam o conceito jamesiano de “a vontade de crer” como elemento vital em sua visão da realidade como pluralista e da verdade não como absoluto abstrato e fixo, mas como enraizada em princípios combinados com experiências concretas.
Considerados no quadro do conflito teológico medieval entre realistas e nominalistas, tanto Lovejoy quanto Frost podem ser contados no campo nominalista, evitando a anarquia em favor de uma concepção corporativa do homem na sociedade civil.
Lovejoy distinguiu treze formas de pragmatismo em James, evidenciando que a questão da crença é independente da verificação empírica exigida por ateus e agnósticos racionais.
Em 1908, Lovejoy publicou Os Treze Pragmatismos, discriminando as muitas variações das crenças qualificadas na filosofia assistemática de James.
Lovejoy e James distinguiam entre o que é racionalmente válido ou “verdadeiro” e o que se acredita por fé — o significado pode se ligar tanto ao que se acredita quanto ao que é factualmente verdadeiro.
Frost era da mesma opinião que James e Lovejoy ao assumir que crenças podem florescer em meio a verdades que mudam ao longo de longos períodos.
Ambos preferiram o termo “dualismo” ao “pluralismo” de James, por oferecer um quadro de referência reconhecível entre mente ou espírito e matéria, preservando a ordem sem cair no caos pluralista nem no absolutismo dogmático monista.
O dualismo de Lovejoy e Frost incluía um teísmo que percebia a natureza humana como qualitativamente diferente das formas não cognitivas de vida animal.
George Holmes Howison, primeiro professor de filosofia de Lovejoy, na Universidade da Califórnia em
Berkeley, resumiu a conexão básica entre crença em Deus e criatividade: “o criado, assim como o criador, cria.”
Frost expressava as revelações divinas em sua crença em “as verdades às quais continuamos voltando e voltando”, bem como no poder criativo do homem.
Behavioristas como J. B. Watson e B. F. Skinner foram criticados por Lovejoy e Frost por reduzirem o comportamento humano a uma explicação puramente mecanicista e determinista.
Watson e Skinner assumiam que a evolução a partir de um ancestral comum tornava todas as espécies animais apenas quantitativamente diferentes em grau, mas não em espécie.
Lovejoy criticou o que chamou de “Filosofia Hipodérmica” — a doutrina de que o fenômeno orgânico do conhecimento pode ser exaustivamente descrito em termos de deslocamentos moleculares que ocorrem sob a pele.
Ao criticar o monismo de Bertrand Russell centrado na matéria, Lovejoy afirmou que tal abordagem é “necessariamente incapaz de dar conta da peculiaridade distintiva do fenômeno biológico do conhecimento — isto é, da capacidade do animal cognitivo de, em algum sentido, alcançar além de sua pele.”
Tanto Lovejoy quanto Frost consideravam o pensamento como um ato criativo, refletido na natureza moral, intelectual e estética dos indivíduos e nas instituições sociais.
A crítica de William James ao “Polvo do Ph.D.” foi amplamente compartilhada por Lovejoy e Frost, que viam na extensão do método científico às humanidades uma grave ameaça à educação.
No ensaio “O Polvo do Ph.D.” no Harvard Monthly (março de 1903), James objetou vigorosamente à tradição alemã de erudição introduzida pela influência de Thomas Henry
Huxley na Universidade Johns Hopkins.
James afirmou que os requisitos formais do doutorado desviavam “a atenção da juventude aspirante de lidar diretamente com a verdade para a aprovação em exames.”
James considerou o grau “uma máquina tirânica com poderes imprevistos de exclusão e corrupção” e previu que o esnobismo das universidades de elite seria amplamente imitado e causaria graves danos a indivíduos.
Lovejoy, ao completar seu mestrado em Harvard, dispensou o doutorado, declarando ser “pessoalmente muito indiferente a ele” e considerando imprudente que um homem se desviasse de seus próprios interesses filosóficos para atender aos requisitos desse exercício.
Frost afirmava que os grandes professores “tinham mentes amplas que alcançavam diretamente o claro”, e Cook comentou que isso significava que tinham “bravura intelectual e também espiritual para enfrentar o terror final das coisas.”
Apesar das profundas afinidades, Frost e Lovejoy eram indivíduos muito diferentes em temperamento, atitude perante a vida acadêmica e posições políticas.
Em carta a Louis Untermeyer de 9 de maio de 1936, Frost admitiu: “Sou imperfeitamente acadêmico, e nenhuma quantidade de associação com o meio acadêmico me tornará perfeito.”
Ambos eram fortes patriotas americanos sem jingoísmo e desprezavam todas as formas de especulação ideológica que justificassem governos totalitários.
No conflito perene entre justiça e misericórdia, Frost dava prioridade à justiça aos indivíduos, enquanto Lovejoy favorecia a misericórdia para as massas.
Frost era um liberal-conservador altamente crítico do “New Deal” de Franklin D. Roosevelt, que considerava “faminto demais por poder”, enquanto Lovejoy era um conservador-liberal que apoiava esse programa radical.
Lovejoy era menos cético do que Frost quanto ao fato de que as vantagens reivindicadas pela ciência e pela tecnologia modernas resultariam em uma civilização de maior qualidade.
A Grande Cadeia do Ser forneceu a Frost a perspectiva histórica original sobre as mudanças intelectuais que determinaram a visão do homem sobre a natureza e o universo físico durante três séculos.
A metáfora de Deus como relojoeiro de um universo tão mecanicista quanto um relógio era, para Lovejoy, um elemento subordinado dentro da grande cadeia do ser.
Antes de ler Lovejoy, Frost compreendia o Iluminismo não como historiador ou filósofo, mas a partir de importantes aspectos de seu pensamento e cultura revelados na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII.
A obra de Copérnico, Galileu, Francis
Bacon,
Descartes e Isaac Newton levou muitos europeus a modificar ou abandonar grande parte da visão de mundo medieval.
O Iluminismo percebeu o universo físico como uma grande cadeia do ser divinamente ordenada, em que cada espécie de vida, incluindo o homem, tinha seu lugar fixo numa ordem hierárquica governada por leis naturais mecanicistas compreensíveis pela razão.
A cosmologia revolucionária do século XVII lançou inicialmente o homem em profundo desespero antes de ser suplantada por um otimismo racional que encontrou sua expressão mais perfeita em Alexander Pope.
Ironicamente, a nova cosmologia, em vez de emancipar a mente e o espírito do homem, intensificou inicialmente a crença na depravação moral e física da raça humana como consequência da queda do Éden.
Francis
Bacon, no Novum Organum (1620) e em A Nova Atlântida (1626), criticou “o zelo cego e imoderado” dos profetas religiosos do juízo e apontou para a possível redenção temporal da humanidade.
Bacon rejeitou a obediência cega à autoridade dos antigos e descreveu o homem contemporâneo como um anão sobre ombros de gigante.
Lovejoy observou que “o temperamento baconiano (se não precisamente o procedimento baconiano), o espírito da investigação empírica paciente, continuou sua marcha triunfal na ciência.”
O Ensaio sobre o Homem (1733–34) de Alexander Pope expressou com maior perfeição a visão “iluminada” do homem e da natureza física, tornando a Natureza praticamente sinônima de Deus.
Carl L. Becker observou que “os Filósofos demoliram a Cidade Celestial de Santo Agostinho apenas para reconstruí-la com materiais mais modernos.”
A crença otimista no determinismo racional da grande cadeia do ser foi contestada por escritores como Voltaire e Samuel Johnson, e depois por Lovejoy e Frost, por sua incapacidade de responder adequadamente ao problema do mal.
A cadeia estática e determinista significava que “tudo o que é, é certo”, negando a criatividade humana na melhoria do ambiente social.
Lovejoy criticou a visão iluminista de que bastaria libertar a mente de alguns erros antigos e restaurar a simplicidade do estado de natureza para que a excelência natural do homem se realizasse — e a humanidade vivesse feliz para sempre.
Essa passagem provavelmente forneceu a Frost valiosos discernimentos sobre as ilusões otimistas das teorias ideológicas revolucionárias.
O primitivismo cultural — crença na bondade natural do homem pré-civilizado e na corrupção gerada pelas instituições sociais — foi analisado e criticado rigorosamente por Lovejoy e Boas, e refutado por Frost em poucos versos concentrados.
No capítulo “O
Romantismo e o Princípio da Plenitude”, Lovejoy revelou como a sensibilidade romântica e o otimismo científico espalharam a crença na bondade natural do homem.
Junto com George Boas, Lovejoy publicou Primitivismo e Ideias Afins na Antiguidade (1935), descrevendo e criticando o descontentamento irracional de pessoas civilizadas que ansiavam por retornar a um estado primitivo idealizado.
No dístico “Uma Resposta” (1940), Frost dispensou com ironia calma e escárnio contido a sentimentalidade que leva os homens a crer nas ilusões ficcionais de uma era de ouro passada: “Mas Ilhas dos Bem-Aventurados, que Deus te abençoe, filho, / eu jamais me deparei com uma sequer bem-aventurada.”
Para Frost, as implicações sociais e políticas do primitivismo cultural são elementos nos sistemas revolucionários e totalitários do século XX.
A conclusão de A Grande Cadeia do Ser sintetizou as fraquezas do racionalismo iluminista e confirma o ceticismo duradouro de Frost quanto à suficiência da razão humana.
Lovejoy afirmou que a história da ideia da Cadeia do Ser “é a história de um fracasso” — o registro de um experimento de pensamento que revelou que “a hipótese da racionalidade absoluta do cosmos” é inacreditável.
Lovejoy concluiu: “A racionalidade, quando concebida como completa, como excluindo toda arbitrariedade, torna-se ela própria uma espécie de irracionalidade.”
A acusação comum de que Frost era “anti-intelectual” era invariavelmente feita por aqueles que ainda aderiam ao racionalismo duvidoso do Iluminismo.
A fé na grande cadeia do ser foi finalmente extinta pela combinação do idealismo romântico, da teoria da evolução de Darwin e da teoria da relatividade de Einstein, abrindo caminho para a percepção de um universo aberto.
Teorias pré-darwinistas de J. B. Robinet, Charles Bonnet, James Burnett (Lord Monboddo) e Erasmus Darwin expandiram a consciência humana do tempo e da idade da Terra muito além do que a Bíblia previa.
O idealismo platônico revivido encontrou expressão em Shelley, em Adônias: “O Um permanece, os muitos mudam e passam, / a luz do Céu brilha para sempre, as sombras da terra voam.”
Esse monismo idealista tornou-se crença generalizada no século XIX, evidente no crescimento do Unitarismo e no Transcendentalismo de
Emerson na Nova Inglaterra.
A Grande Cadeia do Ser de Lovejoy forneceu a Frost sua perspectiva histórica original sobre as complexas mudanças intelectuais que determinaram a visão do homem sobre a natureza e o universo físico durante os últimos três séculos.