1 Princípios inatos

CAPÍTULO I — SE HÁ PRINCÍPIOS INATOS NO ESPÍRITO HUMANO

FILALETO. A retomada da investigação filosófica entre amigos de orientações distintas encontra novo impulso no Ensaio acerca do entendimento humano, cuja defesa da origem adquirida dos conhecimentos fortalece a tradição de Gassendi e Demócrito diante dos peripatéticos e cartesianos.

TEÓFILO. O aprofundamento dos fundamentos filosóficos da moral conduz a um sistema no qual as unidades de substância e sua harmonia preestabelecida pela substância primeira tornam inteligíveis a união da alma e do corpo, a ordem universal e a origem interior das verdades necessárias.

FILALETO. A validade dessas novidades depende de sua submissão à razão, tomando-se a sequência do Ensaio como fio condutor para confrontar as explicações sobre as ideias, os conhecimentos e os demais problemas filosóficos compartilhados.

TEÓFILO. A sequência do Ensaio fica aceita como orientação comum para o exame das questões filosóficas.

FILALETO. § 1. O exame seguirá a origem das ideias, suas diferentes espécies, as palavras que as exprimem e os conhecimentos delas resultantes, partindo da tese de que ideias e princípios inatos são dispensáveis porque todos os conhecimentos humanos podem ser adquiridos sem impressões originárias.

TEÓFILO. A existência de ideias e princípios inatos decorre da origem intelectual das verdades necessárias, que se encontram no espírito sem serem produzidas pelos sentidos, embora as experiências sensíveis ofereçam ocasião para sua percepção.

FILALETO. §§ 2–4. O consentimento universal não demonstraria a existência de princípios inatos caso pudesse resultar de outra origem e, além disso, nem sequer se verifica quanto aos princípios de identidade e de não contradição, desconhecidos por grande parte da humanidade.

TEÓFILO. A certeza dos princípios inatos depende de sua fundamentação interior, enquanto o consentimento geral constitui apenas um indício e sua ausência não impede que esses princípios sejam empregados sem consciência distinta.

FILALETO. § 5. A existência de verdades impressas na alma sem que sejam percebidas parece contraditória, pois a presença de um conhecimento no espírito pareceria exigir alguma consciência dele.

TEÓFILO. A posse de conhecimentos não exige sua percepção atual, uma vez que a memória conserva inúmeras verdades que a reminiscência recupera de maneira seletiva e nem sempre no momento necessário.

FILALETO. A impossibilidade de perceber simultaneamente tudo o que se sabe permite reconhecer conhecimentos não atuais, mas parece também autorizar a conclusão de que todas as proposições que o espírito algum dia reconhecerá como racionais já estariam impressas na alma.

TEÓFILO. Todas as ideias puras e todas as verdades necessárias podem ser consideradas inatas em sentido virtual, porque o espírito é capaz de extraí-las de seu próprio fundo mediante atenção e ordenação de seus conteúdos.

FILALETO. A conservação inconsciente de um conhecimento pressupõe que ele tenha sido anteriormente aprendido e expressamente conhecido, de modo que a presença de algo jamais conhecido na alma pareceria reduzir-se à simples capacidade de conhecê-lo.

TEÓFILO. A alma pode possuir conhecimentos originários ainda não percebidos, pois a presença de propriedades e disposições naturais não depende de sua atualização consciente nem se reduz à capacidade indiferenciada de adquiri-las.

FILALETO. A admissão de conhecimentos originários não percebidos parece implicar a existência de verdades gravadas na alma que jamais foram e talvez jamais sejam conhecidas, consequência cuja estranheza permanece.

TEÓFILO. A existência de verdades interiores jamais percebidas não envolve absurdo, embora não se possa assegurar que permaneçam para sempre desconhecidas, pois outros estados da alma podem desenvolver conhecimentos superiores aos acessíveis na vida presente.

FILALETO. Mesmo admitindo verdades impressas no entendimento sem percepção consciente, permanece obscura a diferença de origem entre essas verdades e aquelas que o espírito é apenas capaz de conhecer.

TEÓFILO. O inatismo consiste na disposição determinada do espírito para encontrar em si as verdades necessárias, cuja necessidade não pode ser demonstrada pela recepção passiva de impressões nem pela acumulação de experiências.

FILALETO. A expressão “estar no entendimento”, caso possua um significado positivo, parece exigir que seu conteúdo seja percebido e compreendido pelo próprio entendimento.

TEÓFILO. Estar no entendimento significa poder ser encontrado nele e possuir nele suas provas originárias, pois os sentidos podem sugerir e confirmar verdades necessárias, mas não demonstrar sua certeza infalível e permanente.

FILALETO. § 11. A reflexão atenta sobre as operações do entendimento permite atribuir à própria faculdade do espírito humano o assentimento espontâneo concedido a certas verdades.

TEÓFILO. A facilidade desse assentimento decorre de uma afinidade determinada entre o espírito e certas verdades, constituída por disposições, aptidões e preformações comparáveis às figuras que os veios do mármore já delineiam antes do trabalho do escultor.

FILALETO. As verdades dependem das ideias das quais se originam e, como as ideias procedem dos sentidos, sua posterioridade parece comprometer a possibilidade de uma origem inata.

TEÓFILO. As ideias intelectuais e as verdades necessárias que delas dependem procedem da reflexão interior, enquanto as ideias sensíveis e suas verdades permanecem ao menos parcialmente confusas, embora a experiência sensível seja indispensável para despertar o pensamento.

FILALETO. A aprendizagem desigual das proposições aritméticas parece decorrer da formação gradual das ideias numéricas, pois uma criança reconhece que um mais dois são três antes de compreender que dezoito mais dezenove são trinta e sete.

TEÓFILO. A diferença entre essas operações pode decorrer do uso de ideias já formadas, porque compreender os números dezoito, dezenove e trinta e sete exige menos atenção do que efetuar sua relação aditiva, enquanto reconhecer dois mais um como três praticamente coincide com a definição de três.

FILALETO. § 18. O assentimento imediato não constitui privilégio das ideias intelectuais ou numéricas, pois também ocorre diante de proposições físicas e sensíveis, como a impossibilidade de dois corpos ocuparem simultaneamente o mesmo lugar e a diferença entre cores, figuras e sabores.

TEÓFILO. A impossibilidade de penetração dos corpos necessita de prova e admite contestação, enquanto as proposições idênticas ou imediatas dispensam demonstração e as distinções sensíveis apenas aplicam uma máxima geral a casos particulares.

FILALETO. As proposições que negam uma ideia de outra, como a diferença entre quadrado e círculo ou entre amarelo e doce, recebem assentimento tão certo e imediato quanto o princípio geral de não contradição, desde que seus termos sejam compreendidos.

TEÓFILO. A igualdade de certeza entre essas proposições não elimina sua diferença de fundamento, pois a máxima geral constitui o princípio e a negação de uma ideia incompatível com outra constitui sua aplicação.

FILALETO. A negação particular parece antes fundamentar a máxima geral, e a atribuição de inatismo a essas evidências obrigaria a admitir infinitas proposições inatas, juntamente com todas as ideias sensíveis e geométricas que as compõem.

TEÓFILO. O princípio de não contradição fundamenta a exclusão entre ideias incompatíveis, mas apenas as aplicações inteiramente intelectuais são inatas, enquanto aquelas que incorporam sensações constituem conclusões mistas (hybrida conclusio).

FILALETO. § 19. A aceitação imediata de verdades particulares por pessoas que desconhecem as máximas gerais parece contrariar sua dependência em relação a princípios supostamente inatos.

TEÓFILO. As máximas gerais sustentam o raciocínio mesmo quando não são pensadas distintamente, assim como as premissas maiores omitidas nos entimemas conservam a força justificadora da conclusão.

FILALETO. § 20. A maior familiaridade do espírito com noções e verdades particulares parece torná-las mais naturais do que as ideias gerais e abstratas, entre as quais se encontra o princípio de não contradição.

TEÓFILO. A prioridade das verdades particulares na percepção consciente não altera a prioridade natural dos princípios mais simples e gerais, que sustentam e articulam os pensamentos mesmo quando não são reconhecidos separadamente.

FILALETO. § 21. O assentimento imediato a determinadas verdades pode decorrer da consideração da natureza das próprias coisas, que impede julgá-las de outra maneira, sem exigir proposições naturalmente gravadas no espírito.

TEÓFILO. A natureza das coisas e a natureza do espírito concorrem para o reconhecimento das verdades, pois a luz natural compreende distintamente ideias interiores cuja verificação exige apenas sua consideração adequada.

FILALETO. § 23. A primeira apresentação das máximas gerais parece produzir uma aprendizagem efetivamente nova, que abrange não apenas os nomes, mas também as verdades e as ideias de que elas dependem.

TEÓFILO. A aprendizagem de ideias e verdades inatas é possível porque seu caráter natural não impede que sejam descobertas por demonstração ou reconhecidas mediante exemplos, diferentemente dos nomes, cuja instituição é em alguma medida arbitrária.

FILALETO. A origem exterior pode abranger não apenas os termos empregados na linguagem, mas também as próprias ideias que esses termos exprimem.

TEÓFILO. As ideias intelectuais ou de reflexão são extraídas do próprio espírito, pois a ideia de ser se torna acessível pela condição de seres que se reconhecem interiormente como existentes.

FILALETO. A defesa do inatismo deve permitir a apresentação de ao menos uma proposição cujas ideias sejam efetivamente inatas.

TEÓFILO. As proposições da aritmética e da geometria oferecem exemplos de verdades constituídas por ideias inatas, caráter que também pertence às demais verdades necessárias.

FILALETO. § 25. A atribuição de inatismo às ciências mais difíceis e profundas parece estranha diante do esforço exigido para sua aquisição.

TEÓFILO. O caráter inato dessas ciências pertence ao conhecimento virtual, e não ao conhecimento atual, assim como a figura delineada pelos veios do mármore está presente antes de ser descoberta pelo trabalho.

FILALETO. A facilidade com que as crianças recebem noções exteriores contrasta com seu desconhecimento de princípios supostamente inscritos de maneira indelével no espírito, fazendo parecer inútil ou defeituosa essa inscrição natural.

TEÓFILO. A percepção do que existe interiormente depende da atenção e de sua ordem, sendo natural que as necessidades infantis privilegiem os conteúdos sensíveis antes do desenvolvimento dos conhecimentos inatos que tornam possíveis as ciências demonstrativas e a compreensão das razões dos fatos.

FILALETO. § 26. A existência de verdades inatas parece exigir, como consequência, a existência de pensamentos igualmente inatos.

TEÓFILO. As verdades presentes no espírito são hábitos ou disposições que não exigem pensamento atual, pois os pensamentos são atos e muitos conhecimentos permanecem possuídos sem serem exercidos.

FILALETO. A presença de uma verdade no espírito permanece difícil de conceber quando jamais houve qualquer pensamento consciente a seu respeito.

TEÓFILO. A existência de verdades não pensadas é tão concebível quanto a de veios ainda não descobertos no mármore, e sua rejeição pressupõe indevidamente que possuir uma verdade equivale a pensá-la atualmente.

FILALETO. § 27. Os princípios inatos deveriam manifestar-se com maior clareza nas crianças, nas pessoas com deficiência intelectual (idiots) e nos povos considerados selvagens (sauvages), cujos espíritos seriam menos modificados pelos costumes e pelas opiniões exteriores.

TEÓFILO. A manifestação dos princípios inatos exige atenção e formação intelectual, de modo que a menor influência dos costumes não assegura maior clareza de conhecimentos quando a atividade mental permanece concentrada nas necessidades corporais.

CAPÍTULO II — NÃO HÁ PRINCÍPIOS PRÁTICOS INATOS

FILALETO. § 1. A moral pode constituir uma ciência demonstrativa sem possuir princípios inatos, pois nenhuma regra moral parece obter assentimento tão geral e imediato quanto o princípio de identidade.

TEÓFILO. As verdades racionais demonstráveis não alcançam a evidência imediata das proposições idênticas, e mesmo um princípio moral indemonstrável, como buscar a alegria e evitar a tristeza, depende da experiência interior e de conhecimentos confusos sobre esses sentimentos.

FILALETO. A certeza das verdades práticas exige raciocínios, encadeamentos discursivos e aplicação do espírito.

TEÓFILO. A necessidade de raciocínio não exclui o inatismo das verdades práticas, e a inclinação para buscar a alegria e evitar a tristeza constitui um princípio inato de natureza instintiva, do qual podem ser extraídas consequências científicas.

FILALETO. § 2. A observância de regras de justiça entre bandidos não exige que essas regras sejam reconhecidas como princípios inatos.

TEÓFILO. A eficácia prática das regras de justiça independe de qualquer interesse ou conhecimento acerca da questão teórica de seu caráter inato.