A PRESENÇA TOTAL (1934)

La présence totale (original)

Introdução

Este livro expressa um ato de confiança no pensamento e na vida — contra a tendência das épocas perturbadas em que a maioria dos homens só se deixa abalar por uma filosofia que justifica o gemido diante do presente, a ansiedade diante do futuro e a revolta diante de um destino que se é obrigado a suportar.

O propósito é mostrar que o próprio do pensamento não é separar o sujeito do mundo, mas estabelecê-lo nele — pois o pensamento descobre a imensidão do real do qual o sujeito é apenas uma parcela, mas sustentada e não esmagada pelo Todo no qual é chamado a viver.

É um postulado comum à maioria dos espíritos que a vida transcorre no meio das aparências e que nunca se saberá nada do Ser ele mesmo — o que torna a vida fútil aos seus próprios olhos e faz a consciência contentar-se com o ceticismo ou deixar-se invadir pela angústia.

É em uma ontologia — ou mais radicalmente ainda, em uma experiência do Ser — que o pensamento mais tímido e a ação mais humilde bebem sua origem, sua possibilidade e seu valor.

A consciência é sempre consciência da consciência — ela apreende o ato em seu próprio exercício, sempre ligado a estados nascentes e a objetos aparecentes — e está sempre situada no ponto mesmo onde se produz a participação.

Sem a consciência, o sujeito não seria mais do que um objeto — existindo apenas para outro, como uma aparência em sua própria consciência — mas tampouco se deve considerar a consciência pessoal como simples espectadora de um mundo ao qual permaneceria estranha.

O instante é precisamente o cruzamento do tempo e da eternidade — é nele que se age, que o real toma forma sensível, que a matéria aparece e foge — e toda ação livremente cumprida no instante é imperecível.

A filosofia aqui apresentada não inova nada — é uma meditação pessoal cuja matéria é fornecida pela “philosophia perennis”, obra comum da humanidade, da qual todas as consciências devem tomar posse por sua vez.

A verdade, comum a todos, produz em cada um uma revelação particular — e os homens se antagonizam porque querem que essas revelações se assemelhem, e não que convirjam.