IDENTIDADE DO SER E DO PENSAMENTO (1934)

I O PENSAMENTO SE DISTINGUE DO SER APENAS POR SEU INACABAMENTO

Embora o ser envolva e ultrapasse em direito todo pensamento atual, o pensamento só pode considerar o ser como seu próprio acabamento ou sua própria perfeição — e não como um universo separado a ser conquistado por uma espécie de distensão ou renúncia — pois o objeto só dá ao pensamento uma satisfação plena quando se confunde com o puro exercício desse pensamento.

Entre a ideia e o real há ao mesmo tempo homogeneidade, distinção e ligação — pois o pensamento deve participar do ser, e o ser ao qual o pensamento se aplica só pode ser pensado como um pensamento sem limitação.

II O PENSAMENTO DO SER JÁ PORTA EM SI O PRÓPRIO SER QUE PENSA

No momento em que o pensamento se distingue do ser para revelá-lo, é preciso considerá-lo como possuindo o ser ele mesmo — ou seja, como sendo primeiramente uma determinação do ser — e é por esse traço que o pensamento do ser acusa sua potência e sua fecundidade.

Desde Descartes insiste-se no interesse da descoberta do pensamento por si mesmo — mas o verdadeiro alcance dessa descoberta não é dar ao ser próprio um caráter puramente subjetivo, e sim abrir-lhe um lugar, graças à forma subjetiva, no interior do ser absoluto.

III A IDEIA DO SER CONTÉM TODAS AS IDEIAS PARTICULARES

Se o ser fosse uma ideia particular, seria preciso defini-lo limitando sua ideia por oposição a alguma outra — mas essa empresa se choca com dificuldades insuperáveis, pois a ideia do ser se empobrece progressivamente ao ser separada de todas as outras ideias, até se volatilizar e desaparecer.

A ideia do ser pode ser considerada a mais geral e a mais rica de todas as ideias — pois precede tanto a divisão do mundo em indivíduos independentes quanto sua divisão em ideias distintas, sendo a fonte comum de ambos os tipos de divisão.

IV O SER É A TOTALIDADE DO POSSÍVEL

O ser deve ser definido não como o que é conhecido, mas como tudo o que pode sê-lo — ou como o objeto absoluto de um pensamento adequado que, confundindo-se com seu objeto, é o Pensamento perfeito.

O possível está ligado ao ser mais intimamente do que se pensa — sendo um ser de pensamento, ou seja, um ser do qual o pensamento começa apenas a tomar posse.

V O SER DE UMA COISA É IDÊNTICO À REUNIÃO DE TODOS OS SEUS ATRIBUTOS

O ser não é um esquema abstrato ao qual se acrescentam qualidades para lhe dar valor concreto — pois não se pode falar da existência de uma coisa sem admitir ao mesmo tempo a presença em ela da totalidade de suas determinações.

A noção de acabamento permanece a mesma qualquer que seja o objeto — pois no interior de todo objeto há uma riqueza inesgotável de atributos, e cada objeto está de fato ligado a todos os outros, de modo que os diferentes objetos contêm em si o mesmo todo.

VI O PENSAMENTO TOTAL E A TOTALIDADE DO SER SÃO INDISCERNÍVEIS

O pensamento do ser se confunde com o próprio ser — e o argumento fundamental que prova que a noção de existência é rigorosamente adequada a seu objeto é o que se extrai da existência necessária do próprio pensamento no momento em que ele tenta assegurar a existência de seu objeto.

Se nada é estranho ao ser e o pensamento é ele mesmo um ser, e se nada é estranho ao pensamento e o ser é ele mesmo objeto de pensamento, pensamento e ser devem necessariamente se confundir no princípio comum que funda a realidade original de cada um dos dois termos.

VII O SER É UM ATO ONIPRESENTE E NÃO UMA SOMA

O ser não pode ser atingido por operações de totalização — nem pela assemblagem de objetos finitos nem pela assemblagem de caracteres particulares — e essa impossibilidade, junto à necessidade de pô-lo, prova precisamente que sua noção é primitiva e que a descoberta de seus diferentes aspectos é um efeito da análise.

Os espíritos mais fortes são os que apreende o ser em sua simplicidade mais do que em sua variedade — buscando não um conhecimento em largura, mas um conhecimento em profundidade.

VIII A PRESENÇA FUNDA TODAS AS DIFERENÇAS EM VEZ DE AS CONTER

Definir o ser pela pura presença expõe ao risco de parecer recusar-lhe toda determinação particular — mas toda determinação é abstrata e só se realiza inscrevendo-se, no meio de todas as outras, no interior de uma presença idêntica, de modo que esvaziar a noção de presença de todo conteúdo é, ao contrário, fazê-la a presença de tudo.

IX O SER PURO, QUE É TUDO, NÃO É NADA DE PARTICULAR

A noção do todo não pode ser formada por acumulação de elementos finitos nem é um infinito que ultrapassa e escapa — é o fundamento e não a soma da multiplicidade de objetos que só se descobrem depois pela análise e que nunca se termina de enumerar.

A antinomia do ser e do nada encontra aqui sua solução — pois a única afirmação metafísica talvez impossível de contestar é a de Parmênides: que o ser é e que o nada não é.