PODERES DO EU (1948)

Les puissances du moi (original)

O EU, SER CONSCIENTE

I

A consciência é a realidade mais misteriosa e emocionante que se pode nomear, abarcando tanto a luz que torna o ser presente a si mesmo e ao mundo quanto o sentimento moral que julga as ações como boas ou más em relação a uma ordem que não pode senão respeitar ou violar.

A consciência se bifurca naturalmente em entendimento e vontade ao se dirigir para os objetos, revelando-se ao sujeito apenas na privação — quando o objeto desejado falta — e não na posse.

A filosofia se distingue de todas as ciências e pesquisas práticas por resistir ao impulso natural rumo ao objeto e voltar-se para a consciência em seu estado nascente, buscando penetrar sua essência.

A consciência possui valor supremo porque, ao desaparecer, o eu e o mundo igualmente desaparecem, sendo a existência e a significação relativas exclusivamente a ela.

II

O eu cessa de estar presente a si mesmo onde a consciência se apaga, levantando a questão de saber se ele ainda existe quando não pode mais dizer o que pensa, sente e quer.

O eu não é uma coisa pronta situada atrás da consciência, mas um ser que se faz na relação móvel e viva entre a natureza de onde emerge e o ato de liberdade e razão pelo qual assume responsabilidade.

A consciência de si não é uma luz pura que ilumina um objeto já dado, mas a operação que, ao produzir a luz, produz o próprio ser do eu, o qual não preexistia à operação que o apreende.

O eu recusa ser confundido com tudo que nele já está fixado ou determinado — estados de alma, caráter, tendências, hábitos — sendo ao mesmo tempo invisível e inatingível, residindo no ponto sem dimensão em que pronuncia um ato de consentimento ou recusa.

A consciência não é simples luz que ilumina um objeto já dado, mas iniciativa pela qual um ser se faz e se vê fazendo-se com os materiais que o universo lhe fornece — razão pela qual eu e consciência são inseparáveis ou mesmo se confundem.

III

O eu é a única realidade cuja essência consiste em fazer-se, assemelhando-se à obra de um artesão que se funde com sua própria obra enquanto a executa e ao crescimento de um ser vivo, mas como efeito da reflexão e da escolha.

A emoção incomparável que o eu experimenta ao descer fundo em si mesmo não é a de se descobrir tal ou qual, mas a de poder atribuir a si mesmo o que descobre — o que constitui propriamente o milagre da subjetividade.

A realização das possibilidades é o que efetivamente constitui o eu, fazendo-o experimentar o poder que tem de se criar e a responsabilidade que tem diante de si mesmo.

A consciência é indispensável ao eu porque é nela — e não no mundo, onde tudo já está realizado — que residem suas possibilidades, e é ela que dá nascimento à intenção pela qual o eu escolhe a existência que pretende dar a si mesmo.