A linguagem é o corpo do pensamento. É por meio dela que o pensamento entra no mundo, mas de tal forma que mantém sua independência e abrange o real sem nunca se identificar com ele. É o instrumento pelo qual o pensamento apreende as coisas, que, como todos os instrumentos, parece ser uma coisa entre as coisas e que é, não como os outros instrumentos, o veículo de nossa ação sobre elas, mas o veículo, por meio delas, de nossa ação sobre os outros homens. A linguagem é testemunha do espírito e meio de comunicação entre os espíritos: sem ela, cada um permanece enclausurado tanto na impotência quanto na solidão. Mas a linguagem os revela perpetuamente uns aos outros: ela lhes descobre o que há entre eles de comum, que é também, sem que o saibam, sua intimidade mais profunda, e o que há de diferente, que os opõe apenas em aparência e para que se enriqueçam mutuamente. Assim, a linguagem atesta que há apenas um espírito do qual todos os espíritos participam, sendo cada um deles, ao longo de seu percurso, um auxiliar e um apoio para todos os outros. Há apenas um espírito, assim como há apenas um mundo. E a linguagem que vai de um ao outro transpone a identidade dos pensamentos para a identidade das coisas.
A linguagem é, portanto, a prova da verdade que ela obriga a se manifestar de modo que todos possam compreendê-la. Mas isso não ocorre sem esforço: pois é a obra do indivíduo separado que tenta superar sua separação.
E é preciso dizer que a linguagem é ao mesmo tempo humana e divina; humana, pois é criada pelo homem e para o homem, como uma criação à sua medida, por meio da qual ele coloca ao seu alcance a criação do mundo; e divina também, porque ela confere sentido, que é o pensamento interior do qual o mundo procede e por meio do qual cada homem, superando seus próprios limites, comunga com todos os outros.
Assim, a palavra está na junção do humano e do divino: seu papel é precisamente testemunhar a cada instante que essa junção se realiza.
Introdução sobre os perigos presentes da fala e da escrita.
Primeira parte O linguagem
Segunda parte A voz
Terceira parte A palavra
Quarta parte O silêncio
Quinta parte A escrita
Sexta parte A leitura
Conclusão sobre a disciplina da inspiração.
Introduction sur les périls présents de la parole et de l’écriture. [7]
Première partie Le langage
Deuxième partie La voix
Troisième partie La parole
Quatrième partie Le silence
Cinquième partie L’écriture
Sixième partie La lecture
Conclusion sur la discipline de l’inspiration. [239]