ONTOLOGIA REFLEXIVA E FILOSOFIA DA ESPERANÇA

Resumo de excertos de “Pela Filosofia”. Homenagem a Tarcísio Meirelles Padilha“. Pallas, 1984.

Newton Sucupira, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Fundação Getúlio Vargas

A escolha de Padilha pela filosofia de Lavelle como tema de sua tese de cátedra em 1955 não se deveu a motivação acadêmica, mas a uma íntima afinidade com a ontologia reflexiva e a atitude espiritual do pensador francês.

Formado numa universidade católica em ambiente de orientação tomista, Padilha não se acomodava ao abstracionismo escolástico e voltou-se para o pensamento moderno em busca de uma filosofia que afinasse com sua vocação metafísica.

Desde os anos 1930, Lavelle liderava com René Le Senne o movimento da Filosofia do Espírito, que reagia contra o positivismo e o kantismo dominantes no ensino universitário oficial francês, esforçando-se para restaurar a preeminência da metafísica.

Lavelle, em quem Gabriel Marcel reconheceu em 1938 a força e a originalidade de um dos pensamentos mais coerentes e profundos do tempo, está hoje um tanto esquecido, e suas ideias não encontram ressonância nas gerações mais novas de filósofos.

A crise do pensamento filosófico contemporâneo caracteriza-se pelo sentido exacerbado da historicidade e pela perda do sentido do ser, o que torna a metafísica de Lavelle estranha ao espírito da época.

A filosofia autêntica tem a vocação de interrogar sobre a significação última do homem e de seu mundo, e questões metafísicas fundamentais não podem ser descartadas como pseudo-problemas, como pretendem os positivistas lógicos.

A originalidade de Lavelle está em buscar o ser não como objeto conceitualmente apreendido, mas a partir de uma experiência da intimidade espiritual — método que ele chamou de metafísica ou ciência da intimidade espiritual.

O ser, para Lavelle, não se obtém por dedução — ao contrário da ideia hegeliana do ser, que Lavelle julgava severamente como a mais abstrata de todas e verdadeiramente uma ideia sem conteúdo que não difere da ideia do nada.

O ser é unívoco para Lavelle — universal e presente em sua integridade em toda parte — o que suscitou a suspeita de panteísmo por parte de filósofos tomistas apoiados na tese da analogia do ser.

Nessa ontologia, o ser é essencialmente ato — e a identidade entre ser e ato é, segundo Lavelle, a chave da metafísica.

A participação é uma das categorias centrais da metafísica de Lavelle, de inspiração nitidamente platônica, preferida por ele à teoria da causalidade para explicar a relação dos seres particulares ao Ser total.

A liberdade em Lavelle não é o poder sem limite, sem norma e sem razão do existencialismo de Sartre, mas uma liberdade que se exerce no processo de participação ao Ser total.

O tempo, sendo o lugar da realização do homem mediante sua livre participação ao ser, justifica em Lavelle uma filosofia da esperança — e é precisamente essa ligação que Padilha vislumbrou e aprofundou.