SEGREDO DA INTIMIDADE

1 Conhece-te a ti mesmo

Narciso busca em si o segredo do mundo e é por isso que se decepciona ao se ver — esse segredo divino é mais íntimo a ele do que ele mesmo, sendo a intimidade do Ser puro, do qual não há imagem e que só se mostra a um olhar puramente espiritual, além de todas as imagens e de todos os espelhos.

Há duas formas de introspecção radicalmente distintas: uma, a pior, que mostra todos os estados momentâneos nos quais se compraz; outra, a melhor, que torna atento a uma atividade própria, a potências que se desperta e que depende de si colocar em obra, a valores que se busca reconhecer para lhes dar corpo.

2 A intimidade consigo e com o outro

A intimidade é o interior que escapa a todos os olhares, mas também o último fundo do real — o ponto onde as coisas lançam raízes, o lugar de todas as origens e de todos os nascimentos, a fonte e o lar, a intenção e o sentido.

A intimidade é o último reduto da solidão, mas basta que se descubra ao sujeito para que a solidão cesse — ela revela um mundo que está nele, mas no qual todos os seres podem ser recebidos.

3 O segredo comum a todos

Há em cada ser uma essência secreta na qual mal se ousa fazer penetrar o próprio olhar — que, semelhante já a um olhar estranho, começaria a rasgá-la e a violá-la.

Só de um outro ser se pode esperar a confirmação e o enraizamento nessa existência espiritual que, sem seu testemunho, permaneceria subjetiva e ilusória.

4 A solidão aprofundada e rompida

Na cela da consciência de si, o eu está encerrado como numa prisão — sofre por não poder nem se arrancar de si mesmo nem se libertar de si mesmo, estando sempre só, e no entanto sendo o poder de comunicar com tudo que existe.

A solidão pode ser uma tentação que exige muito artifício para ser mantida e defendida — mas o sábio não busca nela senão um exercício espiritual que deve provar seu valor e sua fecundidade nas relações com o exterior.

5 O encontro com outro ser humano

Há uma emoção inseparável do encontro com todo ser humano que se encontra no caminho — emoção plena de ambiguidade, misturada de temor e esperança.

Acontece que essa emoção se abole quase imediatamente — o ser que passou diante do sujeito torna-se um passante que não conta mais do que as pedras da estrada.

6 Reciprocidade

O desejo mais profundo que governa a conduta humana é o de encontrar outros seres humanos com quem se ame viver — ou, com mais modéstia e menos confiança, com quem simplesmente se suporte viver — pois não há outro problema para o ser humano senão o de saber como se entenderá com os outros.

A presença dos outros que se esperava fosse campo de expansão da liberdade e fonte de alegria pode ao contrário apertar e entristecer — mas é preciso não esquecer que, quando se mantém consigo mesmo um diálogo comparável ao que se mantém com o outro, nem sempre se consegue tolerar o que se é.

7 Conhecimento de si e do outro

Ser é sempre mais do que conhecer — o conhecimento é um espetáculo que se dá a si mesmo, e por isso não há nada mais desconhecido ao sujeito do que o ser que ele próprio é.

O mal-entendido que reina entre os seres humanos provém sempre da perspectiva diferente segundo a qual cada um se olha e olha o outro — cada um vê em si apenas suas potências e no outro apenas suas ações, e o crédito que se concede a si mesmo recusa ao outro.

8 O pintor e o retrato

São os outros que revelam o sujeito a si mesmo — experimenta-se o que se pensa e o que se sente sobre os pensamentos e sentimentos que os outros não cessam de mostrar e de propor, e seus atos devolvem a imagem do que se é.

O exemplo do pintor ilustra de maneira exemplar a imbricação entre o conhecimento de si e o conhecimento do outro.

Há em cada um vários personagens — um personagem de vaidade, um de timidez e ansiedade, e um terceiro, mais profundo e mais verdadeiro, que parece sempre fugir e que o personagem mostrado não cessa de trair.