1 Conhece-te a ti mesmo
Narciso busca em si o segredo do mundo e é por isso que se decepciona ao se ver — esse segredo divino é mais íntimo a ele do que ele mesmo, sendo a intimidade do Ser puro, do qual não há imagem e que só se mostra a um olhar puramente espiritual, além de todas as imagens e de todos os espelhos.
Tudo que se pode imaginar de mais nobre e belo no mundo, tudo que porta a marca do valor e pode ser amado, constitui a intimidade mais profunda do ser — e ao fugir disso sob pretexto de incapacidade ou indignidade, é de si mesmo que se foge.
As coisas mais superficiais e baixas que atraem e retêm são apenas um divertimento que afasta do eu — não porque não se suporte o espetáculo do que se é, mas porque falta coragem de exercer as próprias forças e responder às exigências internas.
Há duas formas de introspecção radicalmente distintas: uma, a pior, que mostra todos os estados momentâneos nos quais se compraz; outra, a melhor, que torna atento a uma atividade própria, a potências que se desperta e que depende de si colocar em obra, a valores que se busca reconhecer para lhes dar corpo.
O eu só pode ser descoberto como residindo numa intimidade secreta onde ninguém penetra senão o próprio sujeito — mas ele é apenas uma possibilidade que se realiza, nunca está feito, não cessa de se fazer.
A consciência não é uma luz que ilumina sem transformar uma realidade preexistente — é uma atividade que se interroga sobre sua decisão e que tem nas mãos o próprio destino do sujeito.
Sócrates diz “Conhece-te a ti mesmo” como se já aconselhasse Narciso — mas Sócrates sabia bem que quem se conhece não cessa de se aprofundar e de se superar.
Se os antigos dizem “conhece-te” e os cristãos “esquece-te”, é porque não falam do mesmo eu — e só se pode conhecer um à condição de esquecer o outro.
2 A intimidade consigo e com o outro
A intimidade é o interior que escapa a todos os olhares, mas também o último fundo do real — o ponto onde as coisas lançam raízes, o lugar de todas as origens e de todos os nascimentos, a fonte e o lar, a intenção e o sentido.
A descoberta da intimidade é difícil e, uma vez encontrada, é preciso ainda nela se estabelecer.
É por ignorá-la que tantos seres humanos buscam o divertimento ou acreditam poder reformar o mundo pelo exterior — ao passo que quem conseguiu penetrar na intimidade não aceita mais ser dela expulso.
A intimidade é o último reduto da solidão, mas basta que se descubra ao sujeito para que a solidão cesse — ela revela um mundo que está nele, mas no qual todos os seres podem ser recebidos.
Pode nascer a suspeita de que ainda se está só e de que esse mundo é apenas uma ilha de sonho — mas quando um outro ser nele entra de súbito, o sonho se realiza e a ilha se torna continente.
Essa experiência revela que o mundo mais secreto, julgado tão frágil, é um mundo comum a todos — um absoluto presente em cada um, aberto diante de cada um, e no qual todos são chamados a viver.
A intimidade é ao mesmo tempo individual e universal — a que se crê ter consigo mesmo só se descobre na intimidade da própria comunicação com um outro, e toda intimidade é recíproca.
Quem entrega sua intimidade não fala mais de si, mas de um universo espiritual que carrega em si e que é o mesmo para todos — as almas mais comuns não atravessam esse limiar, e as mais baixas o fogem e buscam aviltá-lo.
3 O segredo comum a todos
Há em cada ser uma essência secreta na qual mal se ousa fazer penetrar o próprio olhar — que, semelhante já a um olhar estranho, começaria a rasgá-la e a violá-la.
O milagre é perceber de repente que o segredo de cada um é também o de todos os outros — não um sonho sem realidade, mas a própria realidade da qual o mundo é o sonho, uma voz silenciosa que é a única capaz de produzir um eco.
O ponto em que cada um se fecha sobre si mesmo é também o ponto em que se abre verdadeiramente ao outro — e o mistério do eu, ao se tornar mais profundo e ser sentido como verdadeiramente único e inexprimível, produz um excesso de solidão que a faz eclodir porque ela é a mesma para todos.
“Abrir-se” ao outro significa abolir em si todo segredo e ao mesmo tempo acolher e dar acesso ao segredo do outro.
Só de um outro ser se pode esperar a confirmação e o enraizamento nessa existência espiritual que, sem seu testemunho, permaneceria subjetiva e ilusória.
Não se trata de apelar à experiência do outro como quando se trata de um objeto exterior — trata-se da realidade invisível em que se buscava o alimento da vida mais pessoal, que parecia frágil e incerta enquanto era considerada apenas própria.
Quando um outro revela nele também a presença dessa realidade, ela traz uma espécie de luz miraculosa, adquire densidade e relevo extraordinários, e obriga de repente o mundo visível — que dava antes tanta segurança — a recuar e a se adelgaçar como um cenário.
4 A solidão aprofundada e rompida
Na cela da consciência de si, o eu está encerrado como numa prisão — sofre por não poder nem se arrancar de si mesmo nem se libertar de si mesmo, estando sempre só, e no entanto sendo o poder de comunicar com tudo que existe.
Esse poder de comunicar permanece conhecido e exercido apenas por ele — pode-se dizer ao mesmo tempo que rompe sua solidão e que a aprofunda.
Não se deve jamais pôr demasiada complacência na consciência de si — ela fortalece no eu a inquietação e o desejo, convertendo o ser e a vida em objetos que o amor-próprio quer possuir e dos quais quer fruir.
O eu pensa se elevar nesse interesse exclusivo que mostra por si mesmo, mas acaba por desfalecer — pois retira toda a sua existência do objeto que conhece e do ser que ama, e deve portanto sair de si para conhecer e amar.
A solidão pode ser uma tentação que exige muito artifício para ser mantida e defendida — mas o sábio não busca nela senão um exercício espiritual que deve provar seu valor e sua fecundidade nas relações com o exterior.
Só no retorno ao mundo se aprende a viver como se imaginava que era preciso viver quando se estava só.
Se na solidão se forma a ideia de uma sociedade perfeita consigo mesmo, com o universo e com todos os seres, é o retorno ao mundo que, por um paradoxo, ao interromper essa solidão, a realiza e a obriga a dar fruto.
5 O encontro com outro ser humano
Há uma emoção inseparável do encontro com todo ser humano que se encontra no caminho — emoção plena de ambiguidade, misturada de temor e esperança.
O que se passa por trás desse rosto que se assemelha ao nosso e que vemos, enquanto não vemos o nosso? Ele anuncia a paz ou a guerra? Vai invadir o espaço em que agimos ou vai, ao contrário, alargar o horizonte, prolongar a vida, criar a comunicação espiritual que arranca à solidão?
Essa emoção se experimenta sempre diante de outro ser humano — diante daquele que se crê conhecer melhor e que se ama mais; diante de todo ser que não é si mesmo, mas que é, como cada um, dotado de iniciativa, vivo e livre, capaz de pensar e querer.
A história das relações com o outro é a história dessa emoção que ele não cessa de dar — das alternativas pelas quais ela passa, das promessas que anuncia e que os acontecimentos ora cumprem ora decepcionam.
Acontece que essa emoção se abole quase imediatamente — o ser que passou diante do sujeito torna-se um passante que não conta mais do que as pedras da estrada.
Esse passante é devolvido ao nada do qual o olhar o havia por um instante tirado.
A ansiedade rica de possibilidades contrárias e inseparáveis que acompanhou o primeiro encontro expira logo nos primeiros passos.
No momento do encontro, tremia-se de ignorar se era preciso desejar a presença ou a ausência, se o amor ou o ódio ia nascer, se seriam trazidos mais dons ou mais feridas — e já se pressentia que, nos laços mais estreitos, todas essas coisas, em vez de se excluir, viriam ao mesmo tempo.
6 Reciprocidade
O desejo mais profundo que governa a conduta humana é o de encontrar outros seres humanos com quem se ame viver — ou, com mais modéstia e menos confiança, com quem simplesmente se suporte viver — pois não há outro problema para o ser humano senão o de saber como se entenderá com os outros.
O mais discreto testemunho de uma separação entre outro ser e si basta para suspender todos os movimentos interiores — não apenas os que se voltavam para ele, mas também os pelos quais, na solidão, o pensamento se abandonava a seu próprio jogo.
O menor sinal de comunhão basta para reanimá-los e abrir diante deles a infinidade do espaço espiritual.
A presença dos outros que se esperava fosse campo de expansão da liberdade e fonte de alegria pode ao contrário apertar e entristecer — mas é preciso não esquecer que, quando se mantém consigo mesmo um diálogo comparável ao que se mantém com o outro, nem sempre se consegue tolerar o que se é.
Há em cada um um ser pleno de exigências diante do qual nenhum indivíduo, mesmo o que é si mesmo, é capaz de encontrar graça.
O próprio da paciência é aprender a suportar em si e fora de si todas as misérias do ser individual; o próprio da caridade é aprender a socorrê-las.
A maioria dos seres humanos é mais rude com os outros do que consigo mesma — e a marca da virtude parece ser inverter essa ordem natural.
O eu que está em cada um é também um outro, e quem não mostra suavidade para com ele não a mostrará jamais a ninguém.
“Mas se servirá para convosco da mesma medida com que tiverdes medido os outros.”
A reciprocidade escapa ao ser humano — ele busca ser notado por quem lhe é indiferente e estimado por quem despreza; é a potência de acolhimento que está nele que faz com que os outros o acolham, e eles o repelem apenas se no fundo de si mesmo ele já os repeliu.
7 Conhecimento de si e do outro
Ser é sempre mais do que conhecer — o conhecimento é um espetáculo que se dá a si mesmo, e por isso não há nada mais desconhecido ao sujeito do que o ser que ele próprio é.
Em certo sentido, todo ser humano sabe sobre cada um mais do que ele mesmo — mas isso não é para ele uma vantagem, pois não se deve saber com demasiada exatidão o que se é para ser plenamente aquilo que se é.
É natural que se conheça os outros melhor do que a si mesmo, que está todo ocupado em se fazer — e é por isso que há tanta vaidade e perda de tempo no cuidado com que o sujeito se considera.
O outro vê no sujeito apenas o ser manifestado — aquele que se distingue dos demais pelo caráter e pelas fraquezas — e não o ser que o sujeito quer ser e que busca sempre superar sua natureza e curar suas imperfeições.
O sujeito experimenta em si indefinidamente a presença de uma potência ainda não empregada, de uma esperança ainda não decepcionada — ao passo que o outro observa apenas o ser que se pode mostrar.
O mal-entendido que reina entre os seres humanos provém sempre da perspectiva diferente segundo a qual cada um se olha e olha o outro — cada um vê em si apenas suas potências e no outro apenas suas ações, e o crédito que se concede a si mesmo recusa ao outro.
Uma afinidade começa a uni-los quando ambos ultrapassam o que podem mostrar e fazem entre si essa mútua confiança que já é uma muda cooperação.
O egoísmo produz um cegamento que, ao descobrir em si um ser que sente, pensa e age, só deixa aparecer nos outros objetos a descrever ou instrumentos de que se pode servir.
O mais difícil nas relações com os outros — e o que parece talvez mais simples — é reconhecer a existência própria que os torna semelhantes e ao mesmo tempo diferentes, a presença em cada um de uma individualidade única e insubstituível, de uma iniciativa, de uma liberdade, de uma vocação que lhes pertence e que se deve ajudá-los a realizar — em vez de mostrar ciúme ou de infletir essa vocação para conformá-la à própria.
Platon afirma que o olho se percebe na pupila de outro olho.
8 O pintor e o retrato
São os outros que revelam o sujeito a si mesmo — experimenta-se o que se pensa e o que se sente sobre os pensamentos e sentimentos que os outros não cessam de mostrar e de propor, e seus atos devolvem a imagem do que se é.
Inversamente, compreender alguém é descobrir em si todos os movimentos que se observa nele — é a eles se abandonar um momento, de tal sorte que, quando se pensa segui-los, é a si mesmo que se segue; chega-se assim a precedê-los.
Os seres só podem se conhecer por uma comparação mútua que faz eclodir entre eles as semelhanças e as diferenças — essa comparação não vai sem perigo, solicitando ora à imitação em que o ser próprio se anula num ser emprestado, ora ao denigramento em que se crê se elevar rebaixando o que falta.
O exemplo do pintor ilustra de maneira exemplar a imbricação entre o conhecimento de si e o conhecimento do outro.
O pintor, ao fazer seu próprio retrato, faz o retrato de um outro — e ao fazer o retrato de um outro, faz também o seu próprio retrato.
Ele só pode pintar o que não é, o que se distingue dele e o que se opõe a ele — e ao se pintar é obrigado a descobrir de si o rosto mesmo que os outros veem.
O retrato que faz do outro é uma obra que vem dele e que mostra a todos o que ninguém de outra forma veria — sua própria visão invisível do mundo.
Conhecer a si mesmo é ao mesmo tempo fazer de si um outro e se confrontar com um outro; conhecer o outro é penetrar em si e se reencontrar nele — descobre-se no outro o espetáculo de um ato que só se apreende em si mesmo em seu exercício puro.
Há em cada um vários personagens — um personagem de vaidade, um de timidez e ansiedade, e um terceiro, mais profundo e mais verdadeiro, que parece sempre fugir e que o personagem mostrado não cessa de trair.
Só há verdadeiro encontro espiritual quando dois seres conseguem despertar um no outro esse personagem secreto no qual se reconhecem, mas ao mesmo tempo se superam e se unem.
A comunicação com outro ser só pode se produzir acima de ambos, graças ao movimento pelo qual cada um, não pensando mais em si mas apenas no próximo para ajudá-lo e chamá-lo a uma vida superior, recebe imediatamente dele essa mesma vida que aspira a lhe dar.
Como todos os cumes, o cume da consciência é tanto mais solitário quanto mais alto — mas é ele o único que, atraindo todos os olhares, é capaz de reuni-los.