AMBIGUIDADE DO AMOR-PRÓPRIO (EN:36-38)

A aventura de Narciso inspirou todos os poetas desde Ovídio.

Narciso tem dezesseis anos. É inacessível ao desejo. Mas é essa recusa do desejo que vai se transformar para ele num desejo mais sutil.

Ele tem o coração puro. Por temor de que seu próprio olhar venha a manchar essa pureza, predisseram-lhe que viveria muito tempo se aceitasse não se conhecer. Mas o destino decidiu de outro modo. Ei-lo que se dirige para saciar sua sede inocente numa fonte virgem onde ninguém ainda se mirou. Ali ele descobre de repente sua beleza e desde então não tem mais sede senão de si mesmo. É sua beleza que produz agora o desejo que o atormenta, que o separa de si ao lhe mostrar sua imagem, e que o obriga a se buscar onde ele se vê, isto é, onde ele não é mais.

Diante dele está um objeto semelhante a ele, que veio com ele e que segue todos os seus passos. “Eu te sorrio”, ele diz, “e me sorris. Estendo-te os braços e me estendes os teus. Vejo que também desejas meu abraço. Se choro por sabê-lo impossível, choras comigo, e as mesmas lágrimas que nos unem, no sentimento do nosso desejo e da nossa separação, obscurecem a transparência da água e de súbito nos escondem um do outro”.

Então começa um jogo de recuos e fingimentos pelo qual ele se afasta de si para se ver e se lança em direção a si para se capturar. Foi-lhe necessário abandonar-se para dar a seu amor um objeto que se aniquilaria se se unisse a ele. Apenas um pouco de água o separa de si mesmo. Ele mergulha os braços para pegar esse objeto que não é senão uma imagem. Pode apenas contemplar-se e de modo algum abraçar-se. Vai se consumindo sem poder ir embora desse lugar. E agora não resta mais à beira da fonte, como testemunha da sua miserável aventura, senão uma flor cujo miolo cor de açafrão é cercado de pétalas brancas.

A ninfa Eco

Narciso pede à visão totalmente pura que o faça gozar da sua simples essência: e o drama no qual sucumbe é que ela só lhe pode dar sua aparência.

Ele está sem fala e não busca fazer ouvir-se. Pede apenas para ver-se, para capturar como uma presa seu corpo belo e mudo, ao qual as palavras dariam ainda sabe lá que perturbadora iniciativa que lhe inquietaria o desejo e dividiria a posse.

Mas seu fracasso mesmo o leva a tentar um apelo, a implorar uma resposta. Inquieto por essa solidão na qual permanece e que acreditou vencer, ele aceita romper a unidade do silêncio puro, buscando no côncavo da fonte os sinais de uma vida própria nessa forma que se assemelha à dele e que, no entanto, a duplica.

O eco repercute sua própria voz como para testemunhar que ele está sozinho e dá uma ressonância à sua solidão. Essa resposta, que imita suas palavras e não é mais que imitação de uma resposta, acaba por separá-lo dele mesmo e por transportá-lo a um mundo ilusório no qual sua própria existência se dissipa e lhe escapa.

A punição de Narciso é ter sido amado apenas pela ninfa Eco. Ele busca na fonte outro ser que possa amá-lo. Mas é incapaz de encontrá-lo ali. Ele não consegue escapar de si. O amor que tem por si não cessa de persegui-lo, embora ele queira evitá-lo.

O mito quer que o jovem Narciso não possa ser separado da ninfa Eco, que é a consciência que ele tem de si mesmo. Eco ama Narciso e não pode, para lhe exprimir seu amor, ser a primeira a falar. Pois ela não tem voz própria. Repete o que Narciso diz, mas repete só uma parte das palavras. “Há alguém perto de mim?”, diz Narciso. - “Mim”, repete Eco. E quando Narciso diz: “Reunamo-nos”, Eco repete: “Unamo-nos”. Ela lhe devolve eternamente suas próprias palavras, num refrão mutilado e irônico que jamais responde.