SER (I)

Reintroduzir o problema do Ser na filosofia parecia um paradoxo vinte anos atrás — pois o positivismo e o kantismo haviam triunfado, reduzindo o conhecimento aos fenômenos, ao seu modo de coordenação ou às condições lógicas de seu pensamento — deixando o ser ora como noção vazia, ora como objeto inacessível.

Este livro expressa uma reação contra o subjetivismo fenomenista no interior do qual a filosofia havia acabado por nos encerrar — pois havia um ser do dado que, em sua própria natureza de dado, carregava o mesmo caráter de ser que se atribuía ao não-dado ao qual se queria reduzi-lo.

Não havia como deixar de atribuir o ser ao mesmo tempo ao sujeito e ao fenômeno — considerando ambos como aspectos do ser obtidos pela análise — pois o eu só pode se pôr pondo o todo do ser, de modo que esse todo não é posterior à posição do eu, mas sua condição de possibilidade.

O que se queria demonstrar é que estamos no mesmo nível do Ser — sendo vão definir o sujeito como aquele que se constitui separando-se do ser ou buscando-o — pois a separação faria dele apenas um ser separado, e a busca do ser não é estranha ao ser, já que há um ser da própria busca.

Excluir o nada e afirmar a universalidade do ser é uma mesma coisa — pois o ser puro não é o total, mas a fonte de todas as determinações, obtidas não por adição, mas por divisão e atualização separada de todas as potências que ele encerra.

A univocidade do ser encontra mais resistência — e a ressurreição desse termo medieval mostrou que a querela entre escotistas e tomistas não está extinta — mas universalidade e univocidade são apenas duas expressões que definem a unidade do ser considerada respectivamente sob o ponto de vista da extensão e da compreensão.

A univocidade não reduz o ser à mais abstrata das noções — pois o ser de uma coisa não é distinto dela, mas é ela mesma considerada na totalidade atual de seus atributos — e cada coisa está suspensa no todo por relações que a unem a todas as partes do todo.

A noção de ser é anterior não apenas à distinção entre sujeito e objeto, mas também à distinção entre essência e existência — contendo em si esses dois pares de opostos.

A univocidade do ser não contradiz a analogia do ser — e os dois termos, longe de se excluírem, se chamam mutuamente como duas perspectivas diferentes e complementares.