ESSE FIAT TOTALMENTE INTERIOR

E que nos seja permitido dizer que, muito antes de a palavra “filosofia” ter qualquer sentido para nós, podemos evocar duas emoções de nossa mais tenra infância que nunca deixaram de acompanhar, para nós, a própria consciência da vida, e cuja frescura nenhuma outra veio manchar: a primeira, proveniente da descoberta desse milagre permanente da iniciativa, pelo qual posso sempre introduzir alguma nova mudança no mundo, por exemplo, mover o dedo mindinho, e cujo mistério reside menos ainda no movimento que produzo do que nesse fiat totalmente interior que me permite produzi-lo; e a segunda, da descoberta dessa presença sempre atual da qual nunca consigo escapar, da qual o pensamento do futuro ou do passado tentam em vão me distrair, de tal forma que o próprio tempo, longe de fazer da minha vida uma oscilação indefinida entre o nada e o ser, me permite apenas, graças a uma relação entre as diferentes formas da presença cujo árbitro é a minha liberdade, constituir no ser um ser que é meu. (Louis Lavelle, Do Ser)