Publicado originalmente sob o título: “Vérité et praxis dans la démarche scientifique”, Revue Philosophique de Louvain, tomo 72, maio 1974, pp. 284-309. (trad. Maria José J.G. de Almeida)
Centralidade do problema da verificação no neopositivismo e pressuposição metafísica da representação
A elevação da verificação ao estatuto de problema essencial da démarche científica implica a adoção implícita de um conceito de verdade herdado da metafísica da representação
A verdade é pressuposta como adequação entre proposição e realidade existente
O princípio empirista, embora prescritivo e coerente em seu domínio, não rompe com essa metafísica
Ele constitui apenas uma modalidade específica da pressuposição representacional
A ciência é concebida como esforço de discriminação entre o real e as ilusões produzidas pelos sentidos, pela imaginação, pelos costumes, pelos interesses ou pelas especulações
O acesso ao existente é condicionado pela forma como este se doa e afeta um poder passivo
A experiência sensível é identificada como o único lugar possível dessa passividade
Somente ela pode dar acesso ao que é, enquanto afecção originária do real
Insuficiência da percepção e função mediadora da linguagem
A percepção, por sua proximidade excessiva ao mundo vivido, não constitui ainda conhecimento
Falta-lhe a distância necessária para objetivar o dado
A linguagem introduz essa distância constitutiva
Ela permite a duplicação pela qual o percebido se torna objeto de saber
A linguagem não é um simples inventário de traços correspondentes a dados elementares
Ela constitui um meio próprio de articulação
Organiza intenções parciais em sistemas de remissões, dependências e subsunções
Essa articulação dá origem a um corpo de saber
A linguagem introduz conexões próprias em relação ao dado
Produz novos efeitos de sentido e amplia o campo do dizível
A linguagem possui produtividade interna
A partir de termos existentes, gera novos termos
Assume função antecipadora e prospectiva
Revela aspectos da realidade inacessíveis à percepção sensível
Forma-se assim uma imagem do mundo que excede amplamente a simples percepção
Problema da articulação entre teoria e experiência
A questão central torna-se a conciliação entre o papel criativo da linguagem e a função da experiência sensível
O procedimento científico articula dois componentes
O componente teórico, responsável pela elaboração de sistemas coerentes de proposições
O componente experimental, no qual a percepção exerce seu papel de contato com a realidade
A solução neopositivista reconhece a indispensabilidade da teoria
A teoria explica e prediz os fatos
Ao mesmo tempo, a experiência é elevada a critério último
Determina o sentido dos termos teóricos
Garante a validade das afirmações
As proposições teóricas são consideradas verdadeiras ou falsas
A verdade é definida como acordo com o conteúdo da experiência
Caráter indireto da verificação e persistência da lógica da confrontação
O confronto direto entre proposição teórica e dado experimental é, em geral, impossível
As proposições teóricas são demasiado gerais
Envolvem termos não diretamente observáveis
O processo de verificação exige mediações
Operações lógicas reduzem o grau de generalidade
Operações hermenêuticas interpretam os resultados em termos observáveis
O procedimento permanece, contudo, um confronto
Visa estabelecer acordo ou desacordo
Esse modelo pressupõe que a teoria represente o real
A experiência é tomada como vestígio sensível do real representado
Dupla metáfora da representação e autonomia do espaço teórico
A representação apoia-se em metáforas diplomática e teatral
A teoria substitui o real e age em seu nome
Permite uma ação indireta sobre ele
O espaço teórico funciona como duplicação do mundo
Opera de modo auto-suficiente, segundo recursos lógicos e linguísticos próprios
O sentido da teoria é, contudo, reproduzir o que acontece fora dela
A validade depende da fidelidade reprodutiva
A imagem deve corresponder ao curso do mundo
Inversão entre experiência e representação
Embora a validade da representação dependa da ratificação empírica
A experiência só alcança sentido no interior da representação
A representação torna-se a verdade da experiência
Ela integra e eleva o dado perceptivo a um nível superior de sentido
A experiência fornece apenas instantâneos fragmentários
Condicionados pelos dispositivos experimentais
A experiência científica é abstrata e seletiva
Não é plenitude vivida, mas constatação controlada
O real é reduzido a sinais mínimos de confirmação ou refutação
O mundo torna-se um emissor de sinais lacônicos
Reconstrução conceitual do mundo e primado do discurso
Após a redução do mundo a sinais, impõe-se a tarefa de reconstrução
Reunir signos dispersos
Restaurar continuidade espaço-temporal e qualitativa
O conceito fornece o médium da leitura
Funciona como visão anterior à visão
O discurso assegura a síntese
Articula conceitos em proposições
Articula proposições em inferências
Constitui-se uma textura discursiva
Nela se elabora a figuração abstrata do mundo ausente
Função figurativa do conceito e caráter virtual da aparição
O conceito vale apenas por suas ligações internas
Deve ser posto em movimento pelo discurso
Ele traça antecipadamente as figuras possíveis dos objetos
Mesmo na ausência de objeto
O conceito é virtualidade manifestante
Aparição inconsistente no espaço das formas puras
Lei de figuração de uma presentificação possível
Inconsistência do suporte e ilusão do espaço representacional
O suporte formal é apenas auxiliar da representação
Não é fundamento real
O espaço da representação é inconsistente
Sua realidade é apenas a que ele próprio institui
Esse espaço é sedutor e ilusório
Manifesta o brilho do logos
A experiência torna-se dependente das instaurações discursivas
A percepção selvagem é desqualificada como ilusória
Crítica à noção de acordo entre proposição e experiência
Não há critério claro para comparar proposição e experiência
Só se pode comparar proposições entre si
O teste empírico já é proposicional
A distinção entre linguagem teórica e empírica é insuficiente
Tudo já é teórico no interior da linguagem científica
A linguagem científica é interpretativa e explicativa desde a base
Inversão final do empirismo e primado incondicional da teoria
A tentativa de ancorar a teoria na experiência conduz ao resultado oposto
A teoria absorve a manifestação do mundo
A representação torna-se a medida do real
A distinção entre teoria e experiência deve ser abandonada
A experiência é aplicação de um esquema teórico prévio
A ciência pertence integralmente à ordem da representação
Da verdade-correspondência à verdade-integração
A verdade não é mais adequação estática
É integração dinâmica
O fenômeno alcança sentido ao ser integrado no discurso
Essa integração é metamorfose
A linguagem científica assegura a transformação
Destaca o fenômeno do mundo vivido
Inscreve-o na ordem pura das configurações discursivas
Ontologia implícita da representação
O ser do ente natural é concebido como destinado à representação
A plenitude do ente realiza-se apenas no discurso organizador
O discurso confere consistência, coerência e solidariedade ao ente
Reinterpretação da experiência e da prática científica
A experiência científica é sequência complexa de atos planejados
Implica intervenção e transformação da realidade
Sistemas artificiais integram-se aos sistemas naturais
Autômatos dotados de relativa autonomia
A ciência cria seus objetos
Concebe-os teoricamente
Realiza-os materialmente
A prática científica articula concepção e realização
Teoria e prática interagem continuamente
Ciência, técnica e sistema de práticas
A fronteira entre ciência e técnica torna-se vaga
Ambas participam de um mesmo processo integrador
A prática científica constitui um sistema
Dotado de coerência, estabilidade e otimidade
Coerência, estabilidade e transformação
A coerência é compatibilidade real entre componentes
A estabilidade permite ciência normal
A transformação ocorre por reorganizações estruturais
Em resposta a contradições e lacunas
O sistema evolui por integração crescente
Verdade como potencial integrador
A verdade não é representação, mas desempenho
Mede-se pelo grau de integração do sistema
A ciência tende a sistemas operatórios mais complexos e integrados
A verdade é relativa, processual e dinâmica
Verdade, totalidade e devir
A verdade é inscrição no todo
O todo não é dado, mas em constituição
A verdade é movimento
Esforço contínuo de integração
A prática científica participa da auto-produção do mundo