A estratégia do pensamento é a obliteração, e agora começamos a entender como e por que é assim.
Mas o significado de obliterar é ambíguo no mínimo: significa ao mesmo tempo apagar e sobrecarregar, superimpor.
Em cada caso, é obviamente uma questão de fazer uma inscrição desaparecer, mas em cada caso a rasura e o sentido da operação são completamente diferentes.
Eis o que nossos dicionários, que seria ingênuo nesse caso não consultar, por mais tedioso que seja, dizem ou pensam sobre o assunto.
Obliterar, segundo Littré: apagar letras, marcas, o tempo obliterou esta inscrição; por extensão, fazer esquecer, o tempo obliterou esta opinião.
Quanto mais avançam para o futuro, mais fácil lhes é obliterar o passado, ou dar-lhe o aspecto que desejam, J.-J.
Rousseau, Terceiro Diálogo.
Fechar a cavidade de um conduto; por extensão, obliterar um órgão, fazê-lo desaparecer; ser obliterado, v. ref., ser apagado, ser obstruído.
Sinônimo: riscar, obliterar, riscar um selo é anulá-lo completamente, remover todo valor dele marcando-o com o carimbo cancelador.
Histórico: século XVI, é tão obliterado que não se pode de modo algum lê-lo, Paslgr. p. 740.
Etimologia: latim obliterare, de ob, sobre, e littera, no sentido de um traço de escrita.
Obliterar, segundo Robert: obsoleto e arcaico, fazer desaparecer progressivamente, mas de modo a deixar alguns traços, ver apagar, a circulação da moeda oblitera imperceptivelmente as figuras e letras impressas nela, ver desgastar.
Especialmente: tornar ilegível, incompreensível, obliterar um texto, cobri-lo de rasuras; figuradamente: suprimir, apagar, imagens, memórias, obliteradas pelo tempo.
É claro a partir dessa breve amostra que há mais que uma simples ambiguidade, e seria sem dúvida fácil, mas fácil, levar em conta quase todos os sentidos da palavra.
Mas limitar-nos-emos à ambiguidade, que será, para nossos propósitos precisos aqui, largamente suficiente, mas por quê exatamente.
Porque fomos levados de volta, no fim, à questão que teve de ser feita no começo, mas que tivemos de deixar suspensa, e que ainda aguarda, ao menos em princípio, uma resposta.
Essa questão foi formulada mais ou menos do seguinte modo: a que, se não simplesmente ao pensamento, devemos ter acesso em
Heidegger mesmo.
Esta era, recordamos, uma questão preliminar, que deveria ela mesma abrir o caminho para
Nietzsche, e deveria, no mínimo, permitir-nos fazer aquela outra questão, a saber, em que medida, como e por que direito é possível reconsiderar a interpretação de
Heidegger de
Nietzsche, isto é, do pensamento de
Nietzsche.
Isso obviamente exigiu passar por, ou antes esboçar, nos traços mais amplos, o movimento de passar por essa interpretação mesma.
Foi inevitavelmente necessário empreender a leitura dessa interpretação, e nela nos deixar guiar pela necessidade de pôr em questão a estratégia do pensamento mesma.
Um ardil obrigatório, mas grosseiro, e a resposta já era conhecida: tratava-se apenas do texto, da escrita.
Ora, isso não é de modo algum o caso, ou ao menos essa aparência é enganosa, e é aqui que a ambiguidade da obliteração entra em jogo.
As aparências enganam porque nunca se tratou em tudo isso de pregar o truque da escrita em
Heidegger, e menos ainda o do sujeito ou da loucura, nada poderia ter sido mais irrelevante.
Ou, se quisermos, esse ardil teria sido tão grosseiro que não poderia ter deixado de se voltar contra si mesmo imediatamente, precisamente como pudemos dizer do estratagema do é-loignement, cuja relação com a obliteração, com a rasura da letra, agora se conhece, que ele é afinal reversível.
O ardil teria se voltado contra si mesmo, se tivéssemos cedido a ele, pela simples razão de que teria acabado apenas opondo a escrita, ou o sujeito, ou a loucura, ao pensamento.
Sabemos muito bem o que é uma oposição, ou antes como funciona: a oposição como tal nunca se mantém, pelo contrário, um dos termos que a constituem, porque eles a constituem, sempre já subla o outro.
E a sublação sempre ocorre na direção, sens, da idealidade, isto é, no sentido, Sens, ponto final.
Tanto mais se se trata de opor o pensamento a algo mais: o termo que subla nunca pode ser nada além do pensamento mesmo, seja negativamente ou sob outro nome, por exemplo, como vemos todos os dias, sob o nome de escrita, de texto, de significante, de loucura, de desejo.
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Mas o poder, e o desejo, de decisão pertencem ao pensamento, é mesmo seu traço distintivo, como
Heidegger não se cansa de repetir.
Poderíamos, portanto, muito bem ter insistido em falar de escrita, e nada além de pensamento estaria de fato em jogo.
O que, então, tudo isso foi, uma operação, certamente, e mesmo, se quisermos, uma contra-operação, mas desde que concordemos sobre o valor desse contra.
Pois é precisamente sobre esse valor que toda a operação mesma terá incidido.
Simplesmente tentamos, e nada é de fato menos claro, menos definido, nada se parece menos com uma crítica, uma refutação, um contrapor, tornar suspeita a prática da contradição, isto é, a utopia da decisão, que é a utopia, e no entanto o único topos, da hermenêutica, do comentário.
Por exemplo: o questionamento de
Nietzsche contra ele mesmo, que governa, anima, toda a interpretação de
Heidegger, e que é como seu lema.
Sem dúvida, a questão de qual poderia ser o outro do pensamento que o pensamento não teria de antemão subladо, ou teria sido impotente para reappropriar, nunca deixou de ser levantada, com o risco, e isso é um fato, do absurdo, da insânia, l'insense.
Sem dúvida, foi necessário trazer em jogo, ao vagar por essa questão, o que em
Nietzsche tem alguma chance, como Bataille teria dito, de resistir ao pensamento como tal, isto é, a incoerência ou violência extrema, ou a fraqueza, a queda, o naufrágio do pensamento, tudo o que comunica, no fundo, com a virulência empirista, ingênua, com certo tipo ou estilo de escrita, do qual Derrida falou em Da Gramatologia, e precisamente para opô-lo à interpretação de
Heidegger.
Nunca pudemos, portanto, evitar jogar
Nietzsche contra
Heidegger, mas ao menos tentamos contestar ou desfazer, tanto quanto possível, esse gesto de oposição.
Mas como tudo isso concerne à ambiguidade da obliteração.
Na medida em que, contrariamente a todas as expectativas, efetivamente nada mais está acontecendo na interpretação heideggeriana de
Nietzsche.
É verdade que
Heidegger mesmo, aceitemos uma última vez essa ficção, não sabe disso.
É verdade que para ele trata-se de fato de evitar, em
Nietzsche, uma ameaça, de impedir a irrupção daquele outro do pensamento que não seria o pensamento mesmo ou não seria, como o impensado que deve ser escrito impensado, da ordem do pensamento.
Uma ameaça muito pior, provavelmente, que a do niilismo, que pode ser pensado e portanto dominado.
A incoerência, o excesso, a falta de controle, a fuga ou perda irreversível do pensamento mesmo em todos os pensamentos, na multiplicidade frenética de palavras, linguagens e nomes, filosofia e filologia desencadeadas, todo esse movimento de um motor em corrida, uma máquina louca, que é o do último
Nietzsche, isso de fato escapa ao domínio.
Ou então é preciso opor-lhe, cegamente, por assim dizer, com todos os recursos mais profundos, mais profundamente enterrados do pensamento.
Parar o pensamento, ou removê-lo, por um passo atrás, desse perigo: recuar.
E assim medir, manter, economizar.
Salvar e salvaguardar: a terra para o mundo, Dichtung contra a literatura, a verdade contra tudo o que poderia abalá-la.
Nada é acidental se salvaguarda é o nome próprio da verdade, a própria verdade de aletheia, a palavra mestra: um dia aprenderemos a pensar nossa palavra exausta para verdade, Wahrheit, em termos da guarda, Wahr, a experimentar a verdade como a salvaguarda, Wahrnis, do Ser, e a entender que, como presentificação, o Ser pertence a essa salvaguarda.
E no entanto, uma vez que tudo isso foi reconhecido, uma vez que tudo isso foi entendido como o que governa e impõe, dentro da interpretação de
Nietzsche, a obliteração do texto nietzschiano, devemos observar que essa obliteração se oblitera a si mesma, isto é, assume a forma de uma sobrecarga interminável ou de uma superimposição interminável.
A rasura do texto engendra sua proliferação, força-o.
A interpretação é escrita, e não só é escrita como é como se a escrita, a partir do momento em que começa, levasse a interpretação para fora de seus próprios limites, obrigasse a retomá-la, a recomeçá-la, a repeti-la de todas as maneiras possíveis, sem, precisamente, poder parar.
O pensamento que não quer ouvir nada sobre o texto, ou que quer ouvir o mínimo possível sobre ele, nunca para de produzir texto, e um texto sobre o qual se terá dito muito pouco se nos contentarmos em ridicularizar sua allure incantatória, arcaizante ou laboriosamente poetizante.
Seria melhor tentar entender: qual necessidade de escrita, percebida aliás desde o início, desempenhou um papel na ruptura de Sein und Zeit.
Por que essa ruptura, no momento em que o pensamento parecia se fixar no tema da verdade, desencadeou a passagem pela questão da linguagem e da Dichtung e pela leitura de Hölderlin e
Nietzsche.
Por que essa passagem confirmou ou consagrou definitivamente uma ausência de obra radical, a proliferação de múltiplos textos que constantemente se sobrepõem uns aos outros, se resumem uns aos outros, se chamam uns aos outros, como se o cruzamento do texto nietzschiano tivesse contaminado o próprio
Heidegger.
Por que, apesar de todas as negações, esse tipo de aventura textual é tão atento e concertado, como evidencia o labirinto ininterrupto de prefácios, posfácios, preâmbulos, notas, esclarecimentos, datações, localizações.
Por que o impulso foi tão forte para tentar tal trabalho sobre a linguagem, vocabulário e sintaxe, e sobre a forma ou estilo, formas e estilos, o curso, o ensaio, o poema, o diálogo.
Pode-se sempre atribuir a escrita, especialmente quando é precaucional, a uma mania exorcizante ou à compulsão de repetição.
Mas talvez seja estritamente impossível escrever qualquer outra coisa senão isto: o que me força a escrever, suponho, é o medo de enlouquecer.
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