9 Dignidade do homem

KRISTELLER, Paul Oskar; MOONEY, Michael. Renaissance thought and its sources. New York: Columbia University Press, 1979.

1. A valorização da dignidade humana e da posição privilegiada do homem no universo caracteriza pensadores representativos do Renascimento italiano, como Petrarca, Ficino, Pico e Pomponazzi, mas não constitui uma convicção universal do período, pois outros autores lhe atribuíram menor importância ou ressaltaram, como os reformadores e Montaigne, a corrupção, a fragilidade e a insignificância humanas.

2. A glorificação do homem possui antecedentes fundamentais na Antiguidade, desde a celebração de sua capacidade inventiva e sua caracterização como microcosmo até a posição intermediária da alma no platonismo e as concepções estoicas de comunidade entre deuses e homens, lei natural e solidariedade humana, transmitidas e desenvolvidas por diferentes tradições posteriores.

3. A tradição bíblica e cristã reconheceu a superioridade humana e fundamentou sua dignidade na criação à imagem de Deus e na possibilidade de salvação, mas a ênfase medieval nas consequências da queda frequentemente subordinou o valor natural do homem à consciência de sua miséria, perspectiva contra a qual Facio e Manetti elaboraram tratados apoiados tanto em fontes clássicas quanto patrísticas.

4. O humanismo renascentista tornou a preocupação com o homem mais persistente e sistemática, encontrando em Petrarca uma expressão inaugural da primazia do autoconhecimento e da alma sobre o conhecimento da natureza, fundamentada na convicção, apoiada em Agostinho e Sêneca, de que a origem, o destino e a finalidade da existência humana constituem os objetos mais importantes da reflexão.

5. A adoção da expressão studia humanitatis para designar gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral manifesta a convicção de que essas disciplinas são especialmente adequadas à formação humana, convertendo o interesse pelo homem e por sua dignidade em orientação profissional e cultural dos humanistas e, progressivamente, em tema de tratados específicos.

6. O tratado de Bartolomeo Facio sobre a excelência humana, redigido em contexto religioso e por solicitação do beneditino Antonio da Barga, evidencia a participação ativa de ambientes monásticos na cultura humanista do século XV, pois a condição religiosa de seu incentivador não excluía sua assimilação dos interesses e das práticas intelectuais do humanismo contemporâneo.

7. O tratado de Giannozzo Manetti oferece uma elaboração mais substancial da dignidade humana ao celebrar a razão, as artes, os ofícios, a condição natural e os conhecimentos seculares do homem, sem contestar as doutrinas cristãs do pecado, da salvação e da criação à imagem de Deus.

8. O platonismo florentino da segunda metade do século XV constitui uma corrente filosófica própria, pois Ficino e Pico, diferentemente dos primeiros humanistas predominantemente literários e moralistas, desenvolveram investigações metafísicas profissionais apoiadas no domínio das doutrinas, dos textos, da terminologia e dos métodos da filosofia antiga e medieval.

9. A autonomia filosófica de Ficino e Pico não elimina seus vínculos profundos com o humanismo, do qual receberam métodos, formas literárias, orientações históricas e o interesse pela dignidade humana, mas essa herança foi transformada pela inserção do homem em sistemas metafísicos que definiam e justificavam sua posição no universo.

10. A dignidade humana na Teologia platônica de Ficino fundamenta-se na centralidade e na universalidade da alma racional, situada entre as realidades superiores e inferiores e capaz de aspirar a toda verdade e bondade, tornando-se vínculo unificador do universo e semelhante a Deus por sua tendência a abarcar todas as coisas, embora sem possuir a plenitude efetiva da divindade.

11. A capacidade humana de dominar os elementos e os animais e de compreender e reproduzir os movimentos celestes revela, em Ficino, tanto a condição do homem como governante natural da natureza quanto a semelhança de sua inteligência com a inteligência divina responsável pela construção do cosmos.

12. O Discurso de Pico, composto em 1486 para introduzir a disputa romana de suas novecentas teses, recebeu apenas posteriormente a designação referente à dignidade humana e permaneceu inédito durante sua vida porque a condenação papal de algumas teses impediu o debate, embora partes da composição tenham sido incorporadas à defesa publicada em 1487.

13. A superioridade humana em Pico não decorre simplesmente de uma posição intermediária no universo, mas da ausência de uma natureza exclusivamente determinada, pois o homem, criado depois da distribuição dos dons às demais criaturas, recebeu a possibilidade de participar de todas as formas de vida e de configurar-se pela vontade, devendo superar as condições inferiores e elevar-se até a união com Deus.

14. A liberdade atribuída por Pico ao homem não implica necessariamente a rejeição da graça ou da predestinação, porque a apresentação dessa liberdade se refere a Adão antes da queda e deixa indeterminado quanto de sua dignidade original permaneceu depois do pecado, preservando a possibilidade de que a escolha humana atual dependa do auxílio divino.

15. Pico compartilha com Ficino a concepção do homem como microcosmo dotado das possibilidades dos demais seres, mas rompe com a atribuição de uma posição central e fixa à alma ao situar a liberdade humana fora da hierarquia determinada das naturezas, movimento que pode ser compreendido como um primeiro passo para a dissolução da grande cadeia dos seres.

16. A liberdade humana em Pico não torna equivalentes todas as escolhas, pois as possibilidades de existência permanecem ordenadas segundo uma hierarquia moral e intelectual, de modo que a dignidade potencial do homem somente alcança sua realização plena quando ele escolhe e desenvolve as formas mais elevadas de vida disponíveis à sua natureza.

17. O caráter oratório do Discurso não autoriza a desconsideração de seu conteúdo filosófico, porque o emprego de um gênero retórico não implica insinceridade doutrinal e, no caso de Pico, o cuidado com a redação, as revisões e as referências epistolares à obra indica a importância efetiva das ideias nela formuladas.

18. A repetição de ideias do Discurso em obras doutrinais confirma sua relevância filosófica, pois a Apologia retoma o projeto de conciliação entre escolas e o Heptaplus apresenta o homem como realidade que reúne os mundos elemental, celeste e invisível, compartilhando com Deus a capacidade de conter todas as coisas, embora por centralidade e participação, e não por causalidade criadora.

19. Pomponazzi representa a continuidade vigorosa do aristotelismo escolástico universitário, caracterizado pela interpretação lógica dos textos de Aristóteles e de seus comentadores, mas sua concepção da dignidade humana também evidencia a influência indireta do humanismo e do platonismo sobre uma tradição que permaneceu intelectualmente ativa apesar das críticas humanistas.

20. A interpretação naturalista da alma desenvolvida por Pomponazzi não impede o reconhecimento da posição intermediária do homem entre o mortal e o imortal, pois sua natureza múltipla e ambígua participa de ambas as condições e lhe permite assumir características distintas dentro dessa situação limítrofe.

21. A dignidade humana em Pomponazzi reside sobretudo na virtude moral realizável na existência terrena e acessível a todos, conferindo à vida um valor independente de recompensas futuras e estabelecendo que a virtude constitui sua própria recompensa, o vício seu próprio castigo e a ação desinteressada uma realização superior àquela motivada por benefícios externos.

22. A perfeição humana não depende da duração da existência, porque o valor intrínseco da vida racional e moral supera a simples longevidade, tornando um breve período de existência humana mais perfeito que a sobrevivência milenar de uma árvore.

23. A preocupação com a dignidade humana atravessa o humanismo, o platonismo e o aristotelismo renascentistas, pois o primeiro forneceu aspirações gerais e materiais antigos que os filósofos profissionais das outras correntes transformaram em doutrinas determinadas e integraram a sistemas metafísicos complexos.

24. As concepções renascentistas da excelência humana ligam-se a desenvolvimentos posteriores da ciência e da filosofia, pois o domínio da natureza e a afinidade entre inteligência humana e divina antecipam aspectos de Bacon e Galileu, enquanto o enfraquecimento da hierarquia fixa dos seres encontra correspondências em Nicolau de Cusa e desdobramentos em Bruno, Kepler e Galileu.

25. A dignidade e a fragilidade humanas constituem perspectivas opostas e complementares enraizadas na experiência, razão pela qual nenhuma delas pode conquistar predominância definitiva e a renovação da ênfase na dignidade se justifica quando o pensamento de uma época exagera a impotência do homem diante das forças divinas, naturais ou históricas.

26. A dignidade humana não se realiza automaticamente pelo nascimento ou pela mera afirmação da condição existente, mas exige o desenvolvimento das melhores potencialidades mediante o cultivo da razão e a dedicação a tarefas moral e intelectualmente valiosas que ultrapassem os limites dos interesses e das ambições pessoais.