Koyré

Alexandre Koyré (1892-1964)

GERARD JORLAND. LA SCIENCE DANS LA PHILOSOPHIE. LES RECHERCHES ÉPISTÉMOLOGIQUES D’ALEXANDRE KOYRÉ.

A historiografia de Koyré reconstrói a ordem cronológica do pensamento clássico a partir do entrecruzamento de física, metafísica e teologia, numa época da qual a modernidade descende pelo retraimento do divino.

Koyré desconfiava das biografias por considerá-las um escamoteamento dos valores próprios da filosofia, definindo o pensamento como itinerarium mentis in aeternitatem ou itinerarium mentis in veritatem.

A trajetória biográfica de Koyré atravessa as duas revoluções russas e as duas guerras mundiais, configurando um engajamento político de fato, não apenas circunstancial.

A tese complementar de Koyré, defendida em 1927, analisa a filosofia russa do início do século XIX como dominada pelo problema nacional formulado em termos do confronto entre a Rússia e a Europa.

Os eslavófilos reelaboraram o problema nacional no quadro da filosofia romântica alemã, derivada, segundo Koyré, do misticismo especulativo da Renascença.

A crença na missão universal da Rússia persistiu quando os eslavófilos migraram para o socialismo por volta de 1840, reorientando-se para uma missão social.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Koyré interrompeu suas pesquisas históricas para pensar os eventos políticos vividos no quadro da filosofia política platônica.

A aristocracia do saber é, no entanto, um logro, pois sem saber absoluto o governante que se coloca acima da lei é necessariamente um tirano.

As diferentes formas de Cidade constituem variações do modelo da Cidade justa, segundo o princípio de que a justiça na Cidade é análoga à justiça no Mundo e no Homem.

Koyré utilizou o modelo platônico para compreender os eventos que conduziram à guerra, identificando nos Estados oligárquicos do entre-guerras a estrutura descrita por Platão.

Koyré desempenhou um papel de intermediário, trocador e conector de ideias — não das suas, mas das alheias entre si —, comparável ao do Padre Mersenne no século XVII.

Koyré fundou, em 1952, junto com H.-C. Puech e A. Spaïer, um anuário de Pesquisas Filosóficas destinado a expressar as tendências novas ainda não completamente desenvolvidas da filosofia, criando assim o primeiro periódico filosófico de sua geração sem nele publicar suas próprias pesquisas.

A influência de Koyré sobre a renovação do hegelianismo francês foi determinante, sobretudo através de Alexandre Kojève, que lhe sucedeu na École Pratique des Hautes Études durante os anos passados no Cairo.

Da mesma forma, Koyré conheceu Roman Jakobson nos anos 1920, participou várias vezes dos trabalhos do Círculo de Praga com estudos sobre o movimento hussite, e foi quem precipitou durante a Segunda Guerra Mundial o encontro entre Jakobson e Claude Lévi-Strauss em Nova York.

As próprias pesquisas de Koyré exerceram efeito sobre o estruturalismo, ao formular em termos históricos a questão filosófica do que é pensar e ao pressupor uma existência autônoma do pensamento.

O afastamento entre o que Koyré viveu e o que pensou se traduziu na passagem da filosofia para a história do pensamento, inscrita num movimento mais amplo pelo qual a filosofia, privada de história, voltou-se para a interrogação do discurso.