Epicteto, filósofo estoico e moralista, escreveu sobre como viver, buscando ensinar uma vida plenamente livre, digna e de felicidade inabalável, tratando de questões lógicas apenas na medida em que serviam a seus argumentos morais, e de questões metafísicas de modo breve mas relevante, revelando continuidade com a tradição estoica antiga de Zenão de Cício e Crisipo, dos quais restam apenas fragmentos apesar da vasta produção original.
Epicteto, como Sócrates, a quem venerava, nada escreveu, conhecendo-se seus ensinamentos graças a um discípulo dedicado que registrou suas aulas com fidelidade, notada pelas repetições que revelam ausência de edição, reunidas no breve Manual, resumo de sua doutrina moral, e nas mais extensas Diatribes, em forma dialógica.
Os princípios centrais da metafísica estoica adotados por Epicteto sustentam que o mundo é uma única substância governada em todos os detalhes pela Providência, identificada com Deus, Razão, Destino e Ordem, nada acontecendo por puro acaso ou sem explicação, sendo tudo sabiamente ordenado pelo poder supremo; o mal existiria no mundo ou porque a perfeição do todo exige imperfeição nas partes, ou porque Deus, querendo sempre o bem, precisa usar instrumentos causadores de sofrimento, ou ainda por sermos dotados de livre-arbítrio, não conflitando nossa liberdade com o Destino, estando o cosmos sujeito a regeneração cíclica através de uma grande conflagração após a qual tudo se repete exatamente como antes, havendo novamente o mesmo Sócrates condenado pelos mesmos juízes.
Sobre essa metafísica Epicteto constrói doutrina moral de implacável coerência, repetindo incansavelmente que tudo se divide entre o que depende de nós, nossos pensamentos, juízos, desejos e atos de vontade, e o que independe de nós, nosso corpo, saúde, fama, riqueza e toda existência material, sujeitos ao Destino; apegar-nos a essas coisas independentes nos condena à ansiedade perpétua e à escravidão a falsos bens, mas compreendendo essa distinção crucial alcançamos indiferença imperturbável diante do que não controlamos, tornando-nos imunes a qualquer mal ou dano, felizes independentemente do que aconteça, pois não são as coisas em si que geram ressentimento e ansiedade, mas apenas nossas opiniões falsas sobre elas.
Sabendo que o Destino controla tudo, não devo esperar que as coisas se conformem a meus desejos, mas antes desejar que tudo seja exatamente como é, agradecendo à Providência mesmo quando seus dons vêm sob forma de sofrimento e morte, como um ator que deve desempenhar bem o papel que lhe foi atribuído, seja de mendigo ou de rei, contentando-me em interpretá-lo bem; devo aceitar e louvar o destino, sabendo-o determinado pela bondade e sabedoria divinas, permanecendo sempre sereno sem, contudo, cair em arrogância diante dos outros, sendo esta a vida conforme a natureza.
Essa atitude diante do mundo permite alcançar uma espécie de conexão com Deus, percebendo-nos parte do destino divinamente decretado do universo, tornando-nos cidadãos do mundo e não apenas de uma cidade, sabendo que todos são filhos de Deus; essa indiferença às coisas externas não nos afasta dos demais, participantes do mesmo destino, mas antes nos torna solícitos e amistosos para com eles, mesmo sabendo que a maioria é incapaz de adquirir essa habilidade própria do filósofo: afirmar o destino.
Nessa frase reside o núcleo da atitude estoica diante do mundo, resumindo toda a filosofia de Epicteto: a afirmação do Destino e o amor ao fado, amor fati, afirmação que só pode ser genuína se acreditarmos que o destino não resulta de átomos colidindo ao acaso, mas da execução de um plano divino, bom por natureza, vindo o mal não do mundo, mas de nossas opiniões sobre ele; sendo inteiramente conforme a esse plano que eu próprio sofra infortúnios, instrumentais ao bem do universo, de modo que, pudéssemos conhecer o futuro, desejaríamos nós mesmos que tais infortúnios nos acontecessem, preocupando-nos apenas com o que realmente merece cuidado, nossa alma e nossa virtude.
A doutrina moral estoica, especialmente a de Epicteto, suscita algumas questões.
A primeira, tradicional e não exclusiva dessa doutrina, questiona se, supondo que tudo esteja determinado em detalhe pela Providência, podemos ainda defender sem contradição a liberdade de escolha e a responsabilidade individual, pois se nada além de minhas opiniões e juízos depende de mim, em que sentido posso ter livre-arbítrio, questão que também se coloca no âmbito da teologia cristã.
A segunda, dirigida especificamente a Epicteto, pergunta o que significaria dizer que, como o passado se foi e o futuro ainda não chegou, a morte nos priva apenas do presente, sendo indiferente quando e em que circunstâncias esse presente termina.
A terceira, tocando na raiz da doutrina moral epictetiana, pergunta se, supondo alcançável essa indiferença sobre-humana diante de tudo que não podemos controlar, tal impassibilidade gélida seria de fato desejável e mereceria o nome de felicidade: teria Jó, tendo lido Epicteto, sido feliz em seus tormentos? Poder-se-ia ser feliz sofrendo torturas atrozes sabendo que a dor faz parte de um plano da Providência? É verdade que muitos suportaram sofrimentos indescritíveis crendo sofrer por boa causa, mas poderiam também se alegrar pelo próprio fato de a Providência tê-los escolhido para tanto? Não haveria diferença entre uma Razão cósmica impessoal, diante de cujos planos devemos nos curvar sem conhecê-los, e a Providência divina cristã, cujos desígnios também ignoramos mas em cuja bondade confiamos por acreditarmos que nos conduzirá à salvação? E poderíamos, diante da morte de um ente querido, contentar-nos sabendo que todos devemos morrer, sem motivo para tristeza, extraindo até felicidade dessa aceitação?
É certo que a impassibilidade estoica pode ser recomendada até certo ponto, e provavelmente alcançada em alguma medida, sendo cultivar indiferença estoica diante das reviravoltas do destino provavelmente boa estratégia de vida, muito melhor que a busca febril de sucesso, fama e riqueza, que geralmente resulta em amargura e sensação de injustiça e fracasso; mas seria essa indiferença boa e desejável se fosse total e abrangente? Deveríamos realmente aspirar a permanecer impassíveis diante da morte e do sofrimento, mesmo o de entes queridos, apenas por serem parte necessária de um desígnio cósmico? Poderíamos realmente encontrar felicidade nessa indiferença? Ela enriqueceria nossa vida, ou antes a empobreceria, roubando-lhe sua plenitude? Serão as emoções humanas comuns, amor e compaixão, tristeza e alegria, mera prova de nossa ignorância e imaturidade, e não de uma vida plenamente vivida na diversidade do mundo real? E por que a vida estoica deveria ser conforme à natureza, se esta parece ter-nos feito bem diferentes, sendo o estoico perfeito uma raridade, uma anomalia, quase uma monstruosidade? Eis algumas das questões que Epicteto suscita.