JULLIEN, François. Les Transformations silencieuses. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2009
Pois não devemos nos enganar sobre a dificuldade que encontramos em pensar a transformação que, por princípio, eu acredito, é sempre “silenciosa”. Não se trata apenas, de fato, de uma diferença de escala e grandeza: porque só conseguimos apreender grosseiramente e, por isso, a posteriori e de forma abrupta o que, na verdade, ocorre gradualmente e no infinitamente pequeno; porque, em suma, não temos uma visão suficientemente aguçada ou uma audição suficientemente apurada para distinguir o microscópico. A dificuldade de pensar a transformação deve ser abordada bem antes disso e, efetivamente, nos faz apontar, eu acredito, o ponto preciso em que nossa maneira (europeia) de pensar falha. Essa dificuldade é a de pensar seu próprio ser, que é, em seu âmago, a transição, a qual exprime explicitamente, se eu colocar um termo sob o outro, a “passagem” que permite ir de uma “forma” à seguinte – no entre-formas, por assim dizer – desenvolvendo, assim, o “trans” da “trans-formação”. Ora, precisamente porque não é do “ser”, a transição escapa à nossa forma de pensar. Nesse ponto exato, nosso pensamento para, não tem mais nada a dizer, silencia, e é também por isso que a transformação é necessariamente considerada “silenciosa”.
A transição literalmente faz um buraco no pensamento europeu, reduzindo-o ao silêncio. A prova está no que Platão diz, ou melhor, no que ele não diz, sobre isso (a respeito do Uno no Parmênides 1) ). Como posso, pergunta-se Platão, passar do não-ser ao ser, ou da imobilidade à mobilidade? Estou sentado, depois caminho: como apreenderei essa passagem ou esse entre-dois (metaxu) que o “depois” aqui se limita a indicar, mantendo esses dois momentos justapostos, completamente exteriores um ao outro, de maneira apenas sucessiva? Pois, pronuncia logicamente Platão, ou estou sentado ou caminho, ou é um ou é outro, e não posso participar ao mesmo tempo de um e de outro; ou de nenhum deles: não ser nem imóvel nem em movimento. Assim, o que aqui se chama transição não seria apenas uma contradição nos termos? Por isso, Platão não tem outra solução senão manter a separação estanque entre os dois tempos, o anterior e o posterior: “o tempo é outro” no qual participo da mobilidade, o tempo é outro no qual não participo dela. Mas entre os dois, o que acontece? Platão também não tem outra solução consequente para passar da contiguidade à continuidade, a não ser supor entre eles um instante que não seja nem de um tempo nem de outro e seja, portanto, conclui ele, “fora do tempo”. Para ligar um ao outro, o antes e o depois, resta-lhe, então, apenas a solução de inventar esse “repentino” fora do tempo (exaiphnes) que, como tal, efetivamente não tem um “lugar” possível, é “atópico” – tão “estranho”! – e faz, abruptamente, um buraco na continuidade da mudança.
Ora, vejo nisso menos uma falha do pensamento platônico, que se leva ao extremo, do que um sintoma. Poderia-se acreditar que esse buraco negro que afeta o pensamento da transição alcança apenas Platão, preso como está em sua teoria da participação das Formas-Ideias e da separação das essências? Aristóteles cedo o criticou e sabemos, por outro lado, que o autor da Física é o pensador da mudança. Contudo, Aristóteles está, no entanto, em melhores condições de pensar o estatuto desse “entre” da transição e da passagem? Consideremos, por exemplo, a nota mediana na música ou o cinza entre as cores. Esta nota mediana “é grave em relação à alta e aguda em relação à baixa”, diz Aristóteles; e, da mesma forma, o cinza “é preto em relação ao branco e branco em relação ao preto”. Se, portanto, a mudança procede do “entre” ou do intermediário, é porque este, de maneira alguma, deixa de reconduzir para si mesmo, em modo menor, o estatuto de extremo ao servir novamente de contrário a um ou outro oposto; ou, como Aristóteles resume, “este intermediário é, de certa forma, os extremos” (to metaxu ta akra), delimitando também e interligando um e outro. O intermediário é um termo médio, portanto, também um termo, igualmente um terminus. Ele interrompe a meio caminho a mudança e a decompõe, constituindo-se em ponto tanto de chegada quanto de partida, mas não permite apreender melhor como se realiza através dele a passagem.
II. Sob a transformação: a transição
1. A dificuldade de pensar a transformação, por princípio sempre silenciosa, não é mera questão de escala ou de acuidade dos sentidos, como se só se apreendesse em bloco, depois e bruscamente, o que ocorre de modo gradual e infinitesimal, mas situa-se muito a montante, no ponto preciso em que o modo europeu de pensar falha: a dificuldade de pensar a transição, que é o próprio coração da transformação, pois, não sendo do ser, ela escapa ao pensamento, que diante dela se cala.
2. A transição abre literalmente um buraco no pensamento europeu e o reduz ao silêncio, como mostra Platão a propósito do Um do Parmênides, que, não podendo pensar a passagem da imobilidade à mobilidade, do estar sentado ao caminhar, mantém separados o antes e o depois e, para ligá-los, inventa o súbito fora do tempo, exaiphnes, que não tem lugar possível, é atópico e rompe bruscamente a continuidade da mudança.
3. Esse buraco negro não é falha exclusiva de Platão, preso à participação nas Formas-ideias e à separação das essências, mas sintoma, pois mesmo Aristóteles, pensador da mudança e crítico de Platão, não consegue pensar o estatuto do entre, já que o intermediário, como a nota média em música ou o cinza entre as cores, reconduz em modo menor o estatuto de extremo, servindo de contrário a um ou outro oposto, e, sendo termo médio, é também termo, interrompendo a meio caminho a mudança sem permitir apreender como se opera através dele a passagem.
4. O cinza de Aristóteles não é cinza, cor em que um vira o outro sem ser mais nem um nem outro, em que branco e negro, confundindo-se, perdem sua demarcação, cor indecisa, como disse Verlaine, mas alternada e imperturbavelmente branco em relação ao negro e negro em relação ao branco, pois o que impede Aristóteles, como Platão, de pensar o entre enquanto entre é que nele falha a determinação que faz ser, já que, segundo o postulado grego, ou antes a dobra grega do pensamento, só há ser distinto e determinado, e o trans da transformação vê-se assim afogado, ou antes negado. 5. Aristóteles e Platão parecem assustar-se diante do que seria, no indistinto da transição, o desaparecimento da forma-essência, o eidos que é também seu logos, discurso-razão, única fonte de consistência do real, e por isso o pensamento grego vacila não na audaciosa construção do meta da metafísica, mas no buraco inesperadamente aberto do entremeio, revelando que todo o partido do Ser e seu grande edifício ontológico são postos em falta e fazem água pela transição.
6. Transição é um termo-limite, que aponta para o que está em questão sem permitir pensá-lo mais adiante e ameaça encerrar num beco sem saída, mas o pensamento chinês, por ter passado ao largo do Ser, oferece um viés cômodo ao propor não um termo, mas um binômio dialético, modificação-continuação, bian-tong, termos que se opõem, pois a modificação bifurca e inova enquanto a continuação prossegue e herda, e ao mesmo tempo se condicionam mutuamente.
7. As estações, que não cessaram de inspirar o pensamento chinês, exemplificam esse binômio, pois a modificação ocorre do inverno à primavera ou do verão ao outono, quando o frio se inverte em calor ou o calor em frio, e a continuação da primavera ao verão ou do outono ao inverno, quando o quente se torna mais quente ou o frio mais frio, alternando-se os dois momentos de modo que mesmo a modificação, reparando o fator que se esgota, serve à continuação do conjunto, sem falha alguma no desenrolar, razão pela qual os chineses conceberam o ano e nomearam suas antigas crônicas, Chun-qiu, pela Primavera e pelo Outono, estações da transição. 8. Para sair do pensamento do Ser, é preciso remontar aos partidos ancorados na língua e na antropologia, abandonando a questão especulativa e identificadora do que é isto ou se isto é ou não é, e privilegiar o ritmo regulador das estações, a respiração que renova a vida e o modo como a primavera se torna verão sem separação discernível, compreendendo também, no plano lógico, como a concessão acompanha a consequência, o que põe em causa a sintaxe disjuntiva ocidental.
9. A própria escrita exemplifica a transição, pois passar de uma frase, de um parágrafo ou de um capítulo a outro é ao mesmo tempo romper com o que precede e prolongar, através dessa ruptura, um pensamento que se desenvolve, sendo o branco do texto não um vazio, mas o lugar fecundo em que o texto continua a avançar, conforme a fórmula do antigo Clássico da mudança, segundo a qual do esgotamento vem a modificação, da modificação a continuação e da continuação a duração, e conforme a imagem das Artes literárias da China antiga do barco que prossegue impelido quando se erguem por um instante os remos.