JULLIEN, François. Les Transformations silencieuses. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2009
Transição ou travessia – envelhecer sempre já começou
1. Outra razão pela qual os gregos desconheceram a transição prende-se não à sua ontologia, mas à sua física, pois, abordando a natureza, physis, em termos não de fatores correlatos, yin e yang, como os chineses, mas de corpos em movimento, conceberam a mudança à maneira do movimento, assimilação da metabolé à kinesis que perdura em toda a história da filosofia ocidental, até Bergson, e que implica considerar a mudança a partir de suas bordas ou extremidades, pontos de partida e de chegada, como o móvel que vai de um ponto A a um ponto B.
2. Essa assimilação é problemática, pois pergunta-se se toda mudança deve ser compreendida como indo de algum lugar a outro, a partir de começo e fim que dariam, por seu afastamento, consistência ao entremeio, num modo distensional e não transicional, como curso e continuidade, opção decisiva que faz soçobrar de saída o modo de encarar a vida, abrindo a alternativa entre a vida como transição, em que cada momento conta por inteiro e está prenhe do seguinte, e a vida como travessia, em que o que conta de antemão é a chegada.
3. Esse destino é tanto mais importante de fixar, mesmo em Aristóteles, o menos angustiado dos filósofos, quanto os gregos o carregaram de toda a expectativa do fim, telos, ao mesmo tempo meta e termo, pois todo movimento, e igualmente toda mudança, se compreende pela enteléquia do que nele está em potência, razão pela qual Aristóteles nada pode compreender do envelhecimento, que não é termo de algo em potência como a casa construída o é da construção, embora o enumere ao lado da aprendizagem, da cura, da rotação, do salto e do crescimento sob o mesmo modelo de realização.
4. Entre as lógicas da finalidade e da distensão, que ocupam o lugar da transição, envelhecer, e mais amplamente a vida, torna-se ilegível, pois não se enquadra como meta e termo de uma visada, como a aprendizagem, a cura ou mesmo o crescimento, nem se compreende entre começo e fim de uma mudança-movimento, como o salto ou a rotação, e recapitula, como a neve que derrete, todos os pontos de tropeço do pensamento grego.
5. Envelhecer não é atributivo nem distributivo, nem distintivo nem aditivo, e por isso desfaz no fundo a condição de possibilidade de toda identidade, como reconhece o Narrador proustiano na última matinê na casa da princesa de Guermantes, diante de transformações tão completas que a identidade se tornava impossível de estabelecer, e desfaz também o princípio de não-contradição, reverso lógico do princípio de identidade, pois envelhecer é, ao mesmo tempo e do mesmo ponto de vista, ser ainda jovem e já velho.
6. A física grega desnatura também o envelhecer ao impor-lhe começo e fim, pois não há começo assinalável do envelhecimento, que sempre já começou, e ele não tende a nenhuma forma-fim, segundo o acoplamento grego eidos-telos, sendo o mal-entendido grego ter confundido meta e resultado, ou antes ter subordinado a lógica da consequência à da finalidade hipertrofiada, a dos processos ao modelo da ação e de sua visada, pensando todo desfecho como destino.
7. Por privilegiar a finalidade, preocupar-se prioritariamente com o para onde, eis ti, e com o destino, e atentar ao termo e não à transição, a filosofia europeia saltou por cima da velhice, silenciou-a e reteve apenas a Morte, como Heidegger, pensador do para e do destino, do wozu e do Zukunft, que define existencialmente o homem como ser-para-a-morte, desenvolvendo sem cessar, com heroísmo do pensamento, uma filosofia da morte como acontecimento detonante que rompe, julga e decide tudo, sem jamais produzir uma filosofia do envelhecer silencioso e de sua discreta erosão, afora conselhos e consolações que convidam à serenidade pela resignação, De senectute.
8. A passagem constante e silenciosa do envelhecer, indiscutível e imperceptível por ser global e discreta, ensinaria mais sobre a vida do que tudo o que se projeta e constrói ruidosamente acerca do Fim, mas a filosofia europeia fez da morte o ponto culminante, fascinante e apocalíptico em que tudo converge e se desata de súbito, revelando enfim a Verdade esperada, ponto que, na montagem ideológica do Ocidente, absolutiza a alternativa ontológica por excelência e teatraliza ao mesmo tempo o suspense e sua resolução.
9. Se tivesse atentado à transição do envelhecer, que se tem por toda parte diante dos olhos e sempre já começou, a filosofia não teria feito da morte o alvo em que tudo se decide definitivamente, convidando, num grande tudo ou nada, à aposta da Fé ou ao enrijecimento trágico, mas a teria abordado como resultado último do envelhecimento cedo engajado, em sua dependência e prolongamento, não como Ruptura e salto no Inominável, nem absurda nem misteriosa, mas fora do sentido, não enigma, mas epílogo.
10. Abordada como desfecho individual e momentâneo das transformações silenciosas que se veem operar por toda parte, a morte deixaria captar tacitamente a verdade, dia após dia, na própria transição contínua, sem descolar dela e desatando a questão fatídica, que já não precisaria ser construída à distância, alimentando debates intermináveis entre naturalismo e religião, idealismo e materialismo, e seguir essas transições aquém dessa encenação especulativa não é naturalismo, embora, sem enigma, questão, construção nem finalidade, já não se trate talvez do que a filosofia consome como verdade.
11. Como só se pode esperar encontrar um pensamento do envelhecer fora das dobras da filosofia, Montaigne, em suas margens, descreve a vida a partir da velhice como transição gradual, por um declive suave e quase insensível, sem choque quando a juventude morre em nós, sendo mais dura a passagem da juventude à velhice que da velhice à morte, e o pensamento chinês, com o Zhuangzi, faz da velhice a transição e o amortecimento entre a vida que extenua e a morte que repousa, advertindo que, fixada como Ruptura e questão, a morte se torna abissal, enquanto, sem ser discutida, se reabsorve na processualidade das coisas e se compreende em silêncio.
12. Haveria tanto a aprender com a passagem do envelhecimento, única indubitável, que opera aquém da identidade e a faz soçobrar, pois, se não se levanta pouco a pouco o véu do horizonte da vida à medida que ela avança, o que se chama experiência, esse véu terá um dia de rasgar-se brutalmente, recaindo-se nas dramatizações apocalípticas, e bastará uma ocasião exterior, um encontro ou uma fotografia reencontrada, para que o trabalho do silêncio, de despercebido, se torne ofuscante, opondo-se à transformação silenciosa um súbito fulminante que, escapando à filosofia desde o exaiphnes platônico, torna-se objeto de relato e de encenação literária, como na cena final de O tempo redescoberto.
13. A novela evidencia economicamente esse súbito, como nas novelas de Maupassant de títulos inequívocos, Adeus ou Acabado, em que a jovem esbelta que se vira entrar no mar em Étretat reaparece no trem maciça, com cara de lua cheia, cercada da prole e cheia de fitas, irreconhecível, e diante dessa decomposição do outro retorna por ricochete, abrupto, o envelhecimento de si, como no espelho em que não se olhasse todos os dias ou na fotografia de vinte anos atrás.
14. O romance moderno, gênero próprio e fundamentalmente novo, encontra sua função e legitimidade no relato das transformações silenciosas, sobretudo das grandes transformações históricas, amplas e ramificadas, que nenhuma data ou episódio contém, como mostram Stendhal, Proust e Tolstói, em cujos romances as batalhas em que os sujeitos creem escrever a história aparecem como epifenômenos diante das transformações concorrentes que se tramam nos tempos mortos.
15. As relações humanas também sofrem transformações silenciosas, como Anna Kariênina, de andar decidido e gesto travesso, mas cujo olhar parece carregar um mundo desconhecido, que jamais imaginaria romper o casamento, tornar-se pária e abandonar o filho, e é no entanto conduzida a isso insensivelmente, por patamares e secessão crescente, sem que se possa dizer onde ou quando começou essa dissidência, pois mesmo as reflexões dos sujeitos são apenas indícios pontuais de uma inversão engajada muito antes e que lhes escapa por muito tempo, como quando Anna, reencontrando o marido na plataforma ao sair do trem, se pergunta por que as orelhas dele ficaram tão compridas, sinal precursor, ainda não eclodido, da separação em curso.