Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)
O estatuto do parceiro: a aptidão a se conformar
1. Uma iniciativa só tem peso pelo que arrasta em sua sequência, e uma influência só tem alcance à proporção daquilo sobre que se exerce e se espalha: a capacidade de expansão e de desdobramento da energia yang só se pode compreender em relação com a capacidade inversa, de condensação e de materialização, da energia yin, que ela atravessa de ponta a ponta e anima.
O Céu dos chineses não se isola em sua transcendência, permanecendo indissociável da terra.
É à relação dessas duas capacidades que devemos, como se viu, que a iniciativa do céu não se erija em poder criador, ainda que fosse o de uma criação contínua, que o estatuto do outro em relação a sua atividade não se reduza ao de objeto-matéria, que lhe bastaria amassar e informar, mas seja o de um verdadeiro parceiro, pois o yin é sopro-energia ao mesmo título que o yang, e que o processo da realidade, por conseguinte, se desenrole por interação e de modo imanente.
2. Ao mesmo tempo, essa lógica correlativa, tão coerente, prestou o mais forte apoio à visão hierárquica dos chineses, servindo-lhe de justificação ideológica.
Que esteja inscrito na natureza que a aptidão a seguir e se conformar, a do yin, seja uma virtude ao mesmo título que a iniciativa e a capacidade de guiar, pois são tidas por cooperar harmoniosamente, funda tanto mais rigorosamente, no plano dos valores, a inferioridade por subordinação da mulher em relação ao marido ou do vassalo em relação ao senhor.
Pois esse estatuto do parceiro é, na verdade, ambiguíssimo: ele está ao mesmo tempo no mesmo plano e inferior, é tão necessário quanto o outro e desde a origem, mas por sua submissão, podendo mesmo dizer-se, pois a função do yin é se deixar atravessar de ponta a ponta e transformar, por sua alienação.
É sem dúvida à importância de uma tal ancoragem cosmológica, servindo de fundamento, na ausência de toda referência teológica concorrente, a essa idealização da servidão, que devemos por exemplo o fato espantoso de que, durante toda a sua história, jamais os chineses imaginaram outra relação política senão entre aquele que dirige e aquele que segue, rei e súditos, e jamais conceberam outro regime senão o de um poder monárquico que se identifica à suserania do Céu e correlativo da terra-vassala.
A liberdade, percebe-se por contraste, tem parte ligada com a transcendência, abrindo um fora a essa subordinação por correlação sobre a qual se encerra o processo.
Enquanto a virtude atribuída ao conformismo, isto é, a aptidão a seguir e se conformar, suprimindo em nome da harmonia a expressão legítima dos antagonismos, é o que faz mais eficazmente barragem, constata-se ainda hoje na China, a toda tentativa de emancipação.
3. De que essas duas capacidades opostas são correlativas e se exercem a par encontramos a prova no fato de que as aptidões de começo e de surto são atribuídas à energia yin como à energia yang, à Terra como ao Céu.
O texto canónico relativo ao segundo hexagrama, Kun, começa, portanto, pelos dois mesmos termos que no caso de Qian, a figura inicial da capacidade.
Ao Céu que começa pela iniciativa contínua de seu curso corresponde a Terra que faz nascer engendrando materialmente, devendo-se a esta a atualização física e àquele a natureza moral que nela se espalha.
Ora uma influência só pode se espalhar efetivamente, difundindo sua energia, se seu parceiro já se encontra lá para recebê-la, sendo a receptividade portanto contemporânea da iniciativa e não tendo os dois polos do processo, o Céu e a Terra, conclui
WFZ, nenhuma relação de anterioridade entre si.
Assim a capacidade de começo da Terra é coextensiva à do Céu, e portanto tão ampla quanto ela, o que atesta simbolicamente sua espessura, que lhe permite portar todos os seres sem exceção.
Quanto à capacidade de surto e de desdobramento própria da Terra, ela se deve certamente a sua submissão em relação ao Céu, pois porque sabe dar prova de uma perfeita vacuidade para se abrir à influência deste, o que ela contém em si mesma é vasto, e essa penetração em profundidade se transforma em radiação para fora.
Desdobrando completamente as sementes da energia celeste, diz-nos
WFZ, a terra não se contenta de gerar todos os seres, dando-lhes também consistência e fazendo-os prosperar.
Graças a ela a vitalidade que não cessa de se comunicar de ponta a ponta se torna, individuando-se, sensível e concreta, e o florescimento do real se estende em profusão sob nossos olhos.
4. Mas a capacidade de atualização própria do yin, que, associada ao yang que a orienta atravessando-a, chega a essa fecundidade sem fim do real, se tornaria negativa em contrapartida se se encontrasse abandonada a si mesma.
Pois, privada da animação do yang, essa tendência à condensação que caracteriza a energia yin chegaria finalmente, diz-nos
WFZ, a uma reificação que bloquearia, por sua opacidade, o renovamento do real e faria obstáculo a sua fluidez, de onde nasceriam rupturas e conflitos.
É por isso que é a propósito do terceiro aspecto das capacidades próprias ao Céu e à Terra, o do proveito, que uma diferença aparece entre eles e que se repartem hierarquicamente.
Pois, enquanto a positividade atribuída ao Céu é deixada indeterminada e vale portanto de modo absoluto, a atribuída à Terra se encontra precisada pelo texto canónico como a integridade própria de uma égua, sendo portanto condicional e relativa.
Por sua perseverança em avançar, diz-nos
WFZ, o cavalo encarna a energia yang, mas na medida em que, diferentemente do dragão, galopa no solo, ele se liga também à terra, que é yin.
Em contrapartida, a égua aparece como duplamente yin, por seu sexo e pela terra que pisa.
No entanto, conformando-se a sua condição yin, que é seguir o impulso do yang, ela é também capaz, diz-nos o texto canónico, percorrendo a terra inteira, de não cessar, a exemplo do Céu, de ir adiante.
5. A sequência do texto canónico desenvolve essa relação de subordinação num plano temporal segundo o itinerário do homem de bem: primeiro ele se extravia, depois encontra um mestre, de onde proveito.
A perspectiva adotada não é, pois, doravante, a do Sábio, encarnada pelo dragão, mas a do homem de bem que deve tomar exemplo no Sábio, assim como o yin deve se abrir ao yang e se deixar conduzir por ele.
Pois se dermos em nós prioridade ao yin, cuja natureza é maleável, diz-nos
WFZ, as paixões levarão a melhor sobre a razão e o mundo exterior, arrastando-nos, nos fará renunciar a nossa aspiração moral, nos extraviando desde então longe do caminho reto.
A lição é fácil de tirar: é apenas se nos ativermos primeiro à firmeza do yang que saberemos resistir à tentação dos desejos desarrazoados e preservar nossa integridade, zhen, o último dos quatro aspectos da capacidade.
6. Vê-se, portanto, em que termos se põe, na China, a escolha moral: o mal não está inscrito a título de princípio diabólico em nós, pois o yin tem por vocação cooperar com o yang, no quadro de nossa conduta assim como para o engendramento do real.
Desde então também essa parte yin de nós mesmos, a do patológico e das paixões, não é a destruir, e ainda menos a erradicar, não sendo a moral chinesa ascética, mas a submeter, a disciplinar.
Pois não é do yin ele mesmo que vem o perigo, mas de sua acumulação, quando esta secreta a opacidade e conduz à obstrução.
Do mesmo modo que ela tenderia a fixar o real, fora de nós, e portanto a paralisar seu curso, essa acumulação do yin em nós mesmos conduz a uma fixação passional, a um bloqueio das disposições interiores, que impedem a consciência de permanecer aberta, de se manter em surto e se renovar.
Ora, como se viu, o processo da consciência tem por vocação não cessar de evoluir, transformando-se, a exemplo do do mundo.
7. A sequência da fórmula canónica põe bem em evidência o perigo de uma tal densificação: no Sudoeste se encontram associados, no Nordeste se os perde, e o texto canónico comenta que finalmente é a festa.
Deixarei de lado as muito numerosas especulações a que deu lugar essa oposição dos pontos cardeais.
Fundando-se no comentário simbólico que segue, segundo o qual a disposição-tendência da terra é Kun,
WFZ compreende, quanto a ele, essa oposição em função da geografia chinesa.
O Sudoeste, correspondendo ao Shenxi e ao Sichuan atuais, é uma região de montanhas muito escarpadas, onde a neve e o gelo se acumulam mesmo no verão, sendo o lugar por excelência da concentração do yin, cf. o primeiro traço da figura referindo-se ao motivo da congelação.
Inversamente, o Nordeste, do Hebei ao leste do Shandong, se estende aplainando-se até o mar, sendo portanto aí que a energia da terra se revela menos suficiente, então colmatada pela imensidão do céu que sobre ela se estende.
O mais importante, e que não mais dá lugar a contestação, prende-se ao sentido que convém dar a essa segunda oposição.
Encontrar seus associados significa a acumulação negativa do yin fazendo obstáculo, por sua compacidade, à penetração do yang, cf. em
WFZ o tema das montanhas que se encadeiam e do gelo.
A perda de seus associados significa, ao contrário, que o yin se liberta de sua própria opacidade, dissipa sua concentração e se abre resolutamente ao yang, cf. em
WFZ o abaixamento progressivo da terra, na China, que, aplainando-se e se alargando de Oeste a Leste, se acorda assim a sua vocação.
A lógica indicada é de novo a de uma aprendizagem: como atesta o motivo final da festa, é tomando consciência de sua insuficiência, cf. a vacuidade do yin simbolizada pelo seis oposta à plenitude do yang simbolizada pelo nove, portanto realizando que não deve se apoiar sobre si mesmo mas depender do outro, que o yin é colmado.
8. Que essa diferença hierárquica entre as duas capacidades, uma das quais deve guiar a outra, não nos faça perder de vista, no entanto, sua necessária correlação.
Esta se encontra reexprimida no comentário simbólico das duas figuras, que sobrepõe à oposição de valor entre alto e baixo, o céu e a terra, a perfeitamente balanceada do interior e do exterior, da relação consigo e da relação com os outros.
A sabedoria é, como se disse, fazer uso da firmeza do yang em seu foro interior, permitindo esta triunfar de seus interesses egoístas e não cessar de progredir em sua conduta, do mesmo modo que o Céu prossegue seu curso sem desviar.
Mas ela é também usar da flexibilidade e da maleabilidade do yin em relação aos outros, aceitando igualmente todas as suas diferenças à imagem da Terra que tudo pode portar.
Porque se sabe se conformar à natureza dos outros e sua influência sobre eles se exerce com brandura, essa influência os penetra tanto mais profundamente e pode-se facilmente governá-los.
Como, com efeito, seriam eles refratários a nossa autoridade, pois esta não se exerce como violência em relação a eles?
Diferentemente, portanto, da força do homem forte, que só é forte em relação aos outros, fazendo pesar sobre eles sua pressão e os constrangendo, a verdadeira força moral é se fortalecer interiormente a si mesmo ao mesmo tempo que se torna acomodatício em relação a outrem.
De fato, nenhuma das situações representadas pelos sessenta e quatro hexagramas, conclui generalizando
WFZ, é má em si: o mal vem antes de que nos enganemos de caso de figura e portanto sobre a solução adaptada, que façamos uso de yang quando seria preciso yin ou de yin quando seria preciso yang.
O Sábio, ele, alia vantajosamente um e outro: pela pureza que adquire em si mesmo se torna idêntico à limpidez do Céu, e pela camada de paciência de que dá prova em relação aos outros se torna semelhante à espessura da Terra.
Situando-se plenamente entre Céu e Terra, ele se conforma a sua diferença e torna perfeita sua complementaridade.