2.3 O surto do dragão

Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

O surto do dragão ou as etapas do processo

1. Porque uma mesma tensão dinâmica percorre todo o seu corpo em impulso, e porque ele também não cessa de transformar esse corpo, dobrando-se para avançar, evoluindo assim e se desenrolando como um continuum, o dragão se encontrava de todo designado para servir de representação emblemática a essa capacidade de iniciativa e de constante renovação.

2. Mais precisamente ainda, os dois traços inferiores com que começa a figura e que correspondem ao nível da terra se repartem eles mesmos em dois graus sucessivos, respetivamente sob e sobre a terra.

3. No estádio do segundo traço, ao contrário, essa capacidade se revela completamente na conduta do Sábio e, através desta, se espalha sobre o mundo.

4. Mas essa plenitude da atividade não poderia se perpetuar sem transformação, de maneira estática.

5. O traço seguinte se compreende no prolongamento deste, sempre num plano mais propriamente humano.

6. Quando enfim o nível humano, em sua elevação, atinge o céu, tal é então a posição soberana, a do Filho do Céu, que o quinto traço encarna.

7. Esse quinto traço é, portanto, aquele em que a capacidade chega a se transcender, não sendo a transcendência, na China, projetada desde logo em um ser exterior ao mundo, mas correspondendo ao estádio supremo, e desde então qualitativamente diferente, do desenrolar dos processos.

8. Que se passa, desde então, com o sexto traço, em que culmina a figura mas que se situa além do apogeu, perdido no céu, fora de nosso horizonte?

9. Mas essa conclusão, sob seu aspecto de evidência, não poderia iludir, não podendo nos dissimular que convém dissociar de fato, a propósito desse traço, esses dois pontos de vista: o do curso das coisas, em relação ao qual esse traço anuncia um declínio necessário, e o da consciência moral, que se deve assumir essa posição a exemplo das precedentes.

10. Vemos, pois, despontar, no estádio desse último traço, o risco de que a consciência tome suas distâncias em relação ao curso do mundo, através do tema do arrependimento, ficando desde então em questão a unidade fundamental sobre a qual repousava toda essa reflexão, a solidariedade da natureza e da moral.

11. Querer tudo considerar no mesmo plano, sem que nada ultrapasse de uma cabeça, chega aliás a tomar, na reflexão de WFZ, um valor particular, da ordem do método filosófico, que permite aprofundar ainda a formulação.