Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)
O surto do dragão ou as etapas do processo
1. Porque uma mesma tensão dinâmica percorre todo o seu corpo em impulso, e porque ele também não cessa de transformar esse corpo, dobrando-se para avançar, evoluindo assim e se desenrolando como um continuum, o dragão se encontrava de todo designado para servir de representação emblemática a essa capacidade de iniciativa e de constante renovação.
Quando o yang está em surto, ele emerge, diz-nos
WFZ, e quando o yang está em declínio, ele hiberna, evoluindo assim, destacado do solo, e tomando apoio nos sopros cósmicos para se modificar.
Cabe, portanto, ao dragão encarnar o puro yang, e é por isso que dele se reencontra o motivo de ponta a ponta do primeiro hexagrama.
A estrutura clássica do hexagrama é, sabe-se, representar por seus dois primeiros traços, na base da figura, o nível da terra, por seus dois traços médios o nível do homem, e por seus dois últimos traços, no cume, o do céu.
Nos hexagramas ulteriores, nota
WFZ, essa ordem dá lugar a variação, tanto importa que a realidade não seja fixada e que o modelo que a representa não se torne estereotipado, mas no estádio do primeiro hexagrama essa ordem é impecável, deixando tanto mais facilmente perceber, de um andar a outro, o surto do dragão e o desdobramento do processo.
2. Mais precisamente ainda, os dois traços inferiores com que começa a figura e que correspondem ao nível da terra se repartem eles mesmos em dois graus sucessivos, respetivamente sob e sobre a terra.
No estádio do primeiro traço, o dragão ainda se dissimula ao olhar, seu corpo está enterrado sob o solo, e no estádio do segundo o dragão emerge acima da terra e se torna visível no campo.
Enquanto no primeiro traço o dragão ainda hiberna e nutre sua energia antes de tomar seu surto, no segundo traço essa energia se torna patente e se desdobra.
Do ponto de vista da natureza, o primeiro traço é aquele em que a vitalidade se propaga no nível das raízes, e o segundo aquele em que a vegetação cresce e frutifica.
Do ponto de vista da conduta humana também, o primeiro traço é o do recolhimento, quando o Sábio vive ainda na obscuridade, retirado do mundo, e se prepara: consagra-se ao estudo mas não ensina, ou se ensina é apenas de modo indireto, através do exemplo que dá por sua conduta, cultivando em silêncio sua personalidade moral e se contentando com uma vida frugal e sem despesa.
Embora não apareça então, a capacidade já está presente nesse estádio, e
WFZ é particularmente atento a esse ponto: os seis traços da figura formam um sistema homogéneo, e é a mesma capacidade eminente, a do dragão, que se reencontra em cada uma das posições.
Apenas ainda é demasiado cedo, em relação ao desenvolvimento da situação, para exercer essa capacidade, e o aviso da fórmula oracular é o de não a usar, sendo o primeiro estádio da sabedoria saber esperar para a manifestar.
3. No estádio do segundo traço, ao contrário, essa capacidade se revela completamente na conduta do Sábio e, através desta, se espalha sobre o mundo.
Esse segundo traço se interpreta, com efeito, segundo duas perspetivas conjuntas que igualmente favorecem sua posição: do ponto de vista do hexagrama inteiro, ele representa o estádio da emergência acima do solo e portanto da manifestação, e do ponto de vista do só trigrama inferior, cuja posição mediana ocupa, representa o ideal do equilíbrio e da regulação, simbolizando por aí nossa atividade em pleno regime.
Assim esse campo em que aparece o dragão não designa apenas o sobre o solo, sendo também o que o homem cultiva e faz frutificar.
Segundo uma fórmula do Ritual que
WFZ cita em comentário, para os antigos reis os sentimentos dos outros eram como um campo a cultivar.
Isso significaria que os antigos reis não procuravam impor seus desígnios a seu povo, mas se conformavam às disposições interiores deste, como nos conformamos às exigências da planta para fazê-la crescer, a fim de espalhar sobre ele sua benéfica influência.
Também esta se difundia completamente através do país, e sua política era a mais eficaz.
4. Mas essa plenitude da atividade não poderia se perpetuar sem transformação, de maneira estática.
A propósito do terceiro traço, em que se afirma plenamente a posição do homem sobre a terra, ao ponto que o motivo do dragão temporariamente se esvanece, o homem de bem, diz-nos a fórmula canónica, até o fim do dia avança e avança ainda, continuando a manifestar sua capacidade de iniciativa e de criatividade.
Quando vem a noite ele está vigilante: a situação é perigosa, mas ele não comete falta.
Porque culmina nele o trigrama inferior, esse terceiro traço está já sob o signo do acabamento, de um modo que prefigura o sexto, donde o motivo repetido da noite e do fim do dia.
Como, por outro lado, a característica ordinária do terceiro traço é simbolizar o avanço, em relação ao quarto que simboliza o recuo, cabe mais particularmente a este exprimir o caráter duradouro dessa marcha processiva.
Mas perseverando assim, além da completa manifestação da capacidade que figurava o segundo traço, incorre-se fatalmente no risco de avançar demasiado longe, donde o perigo que nos ameaça e a vigilância que é requerida.
É apenas na medida em que se está consciente da dificuldade da situação, em que não nos precipitamos portanto demasiado audaciosamente para o resultado esperado, esse apogeu que o quinto traço simboliza e do qual permanecemos separados pelo quarto, que se pode evitar a falta, sendo a lição a tirar que à perseverança é preciso aliar a prudência.
5. O traço seguinte se compreende no prolongamento deste, sempre num plano mais propriamente humano.
Como, por sua posição intermediária, ele está ao mesmo tempo acima do trigrama inferior e na base do trigrama superior, está encarregado de ilustrar a variabilidade da situação em que se encontra engajada, entre alto e baixo, nossa conduta.
É por isso que
WFZ compreende a fórmula canónica que o comenta como uma alternativa: ou saltar, ou mergulhar, sem falta.
O salto está na lógica do avanço que precede e anuncia o voo que segue, no quinto traço, e o mergulho no fundo das águas se acorda à posição de recuo que caracteriza o quarto traço, tratando-se além disso de uma posição yin.
Mas porque a capacidade em obra é sempre a de uma iniciativa criadora e perseverante, esse salto em altura não traduz, precisa
WFZ, uma agitação febril, nem o mergulho um retraimento medroso.
Assim, embora se oponham, essas duas atitudes são igualmente sem falta: conformando-se à diferença das ocasiões, e mesmo que deva passar de um extremo ao outro, o homem pode não cessar de progredir.
6. Quando enfim o nível humano, em sua elevação, atinge o céu, tal é então a posição soberana, a do Filho do Céu, que o quinto traço encarna.
Esse estádio do apogeu tem por divisa: dragão voando no céu, é proveitoso ver o grande homem.
Como analisa finamente
WFZ, o motivo do voo não exprime aqui apenas uma acentuação do dinamismo e do surto que caracterizavam as etapas anteriores, do dragão enterrado do primeiro traço ao dragão saltante do quarto, pois esse estádio do acabamento é também aquele em que a virtude yang, acumulada pacientemente traço a traço, se transforma subitamente em perfeita à-vontade.
O motivo do voo significa assim que, graças a todos os esforços precedentes, a marcha adiante é doravante uma evolução livre e sem esforço, que a perseverança se mudou em espontaneidade.
Ninguém no mundo se dá conta de onde isso provém, e nós mesmos não esperávamos esse acabamento necessário, mas porque nunca se renunciou a ir adiante e a progredir, um dia isso vem por si só.
Uma tal fórmula, que exprime o melhor possível a passagem da aprendizagem à maestria, a propósito por exemplo das artes, música ou caligrafia, quando a assiduidade da prática se muda em espantosa facilidade, serviu para caracterizar na China o acesso à sabedoria.
Esse estádio é aquele em que a aplicação à virtude e a concentração no esforço foram tão intensas e tão contínuas que desembocam por si mesmas em seu avesso, a à-vontade e a espontaneidade, e o Sábio é aquele que doravante segue sua via tão naturalmente quanto o faz o Céu.
Esse estádio é também o do poder político em seu cume, pois o quinto traço é, não o esqueçamos, o do soberano: quando, graças à virtude que pacientemente acumulou em si, o soberano não tem mais necessidade de exercer uma pressão para se ver obedecido, impondo-se seu poder por si mesmo, suscitando o assentimento dos outros, graças a seu ascendente.
7. Esse quinto traço é, portanto, aquele em que a capacidade chega a se transcender, não sendo a transcendência, na China, projetada desde logo em um ser exterior ao mundo, mas correspondendo ao estádio supremo, e desde então qualitativamente diferente, do desenrolar dos processos.
Esse estádio da transcendência é aquele em que a capacidade em obra se exerce em sua integralidade, integral para o Céu e tornando-se integral para o Sábio, em que a retidão do curso, o do Céu e o da conduta, é desposada sponte sua, e em que o funcionamento, enfim, é natural.
O objetivo da aprendizagem não é mais, desde então, elevar-se acima da natureza ou transformá-la, mas ao contrário rejuntá-la, não representando uma tal transcendência senão a totalização da imanência, seu estádio absoluto.
Pois essa perfeita capacidade que se manifesta na marcha regulada do mundo ou na conduta fácil do Sábio só é transcendente na perspetiva dos estádios inferiores, anteriores mas que podem a ela conduzir, os do paciente esforço e da assiduidade.
É por isso que, como nota
WFZ, no segundo e no quinto traços a fórmula canónica não indica diretamente ao consultante, como no caso dos outros traços, o que lhe convém fazer, pois este não pode ousar se identificar a uma tal posição, a absoluta, da sabedoria.
Indica-se apenas que nesse nível é proveitoso ver o grande homem, sendo esse estádio do absoluto abordado de esguelha, e a posição encarada para aquele que estuda o Clássico da mudança ou que o consulta concebida como a do sujeito que goza do reinado de um Sábio soberano ou do discípulo que recebe os ensinamentos do Mestre.
Na junção do Céu e do homem, a perfeita soberania e a sabedoria desenham, acima de nós, o horizonte humano.
8. Que se passa, desde então, com o sexto traço, em que culmina a figura mas que se situa além do apogeu, perdido no céu, fora de nosso horizonte?
Eis o dragão bloqueado nessa posição superior, e a fórmula canónica nos avisa que ela será para ele uma fonte de arrependimento.
Pode-se, com efeito, fazer um cômputo preciso de todos os elementos formais que desfavorecem uma tal posição: primeiro, na estrutura do hexagrama, só os traços um, três e cinco são posições corretas, correspondendo respectivamente às três instâncias terra, homem e céu, e as três outras posições valem apenas a título de dobra.
Em seguida, essas três últimas posições, dois, quatro e seis, são yin, não sendo portanto favoráveis ao desdobramento do yang.
Se tais inconvenientes ainda não eram significativos no estádio do segundo traço, pois este, na partida da figura, tinha parte em sua perspectiva ascendente e, além disso, beneficiava de uma posição de equilíbrio-centralidade no seio do trigrama inferior, eles se revelam em contrapartida cada vez mais marcantes à medida que se sobe no diagrama, no quarto traço e sobretudo no sexto.
Este é, portanto, aquele que, diz-nos
WFZ numa fórmula não desprovida de ambiguidade, é o menos próprio ao uso humano.
Mas a ameaça que pesa sobre esse último traço se compreende sobretudo em relação à lógica de conjunto da figura, e o comentário explora facilmente seu alcance simbólico: esse traço, empoleirado no alto, é o do extremo.
Quem toca o fim não tem mais além onde avançar, sendo a única possibilidade que resta a da conversão e do recolhimento.
Do ponto de vista mesmo da marcha do céu, sabe-se bem que os astros que atingiram seu apogeu são necessariamente conduzidos a descer, e do ponto de vista operatório da consulta oracular atingiu-se aqui o número maximal.
Segundo o comentário simbólico, o que está pleno não pode durar, e o que não aumenta está condenado a declinar.
Isso se passa naturalmente assim, conclui
WFZ, dos fenómenos e das quantidades: o Céu mesmo não poderia a isso se opor, e ainda menos o Sábio.
9. Mas essa conclusão, sob seu aspecto de evidência, não poderia iludir, não podendo nos dissimular que convém dissociar de fato, a propósito desse traço, esses dois pontos de vista: o do curso das coisas, em relação ao qual esse traço anuncia um declínio necessário, e o da consciência moral, que se deve assumir essa posição a exemplo das precedentes.
Pois nesse estádio do fim das coisas também, como nota
WFZ, o dragão é dragão e sua virtude permanece, concernindo o arrependimento que então experimenta o Sábio apenas à tendência lógica que ele percebe na evolução da situação, não podendo pôr em causa seu aperfeiçoamento interior.
Esse traço nos situa, portanto, precisamente na interseção das duas concepções que contribuíram para dar forma à visão do mundo dos chineses: por um lado, a lógica dos processos, repousando sobre a alternância e implicando por conseguinte a sucessão surto-declínio, e, por outro, a exigência da consciência moral, que é a de um progresso contínuo.
Ora não creio que o pensamento chinês tenha sido capaz de articular mais do que aqui o faz
WFZ um e outro plano, na ausência da representação de um deus pessoal e de sua providência, que se sabe ter desembocado, no pensamento ocidental, na ideologia do Progresso, do mundo e da humanidade, estranha à visão dos chineses.
Assim, para além da absolutização da imanência consagrada pelo quinto traço, essas duas lógicas não mais se encontram senão por recorte, tornando-se a regulação do mundo a de um curso exterior ao qual só posso consentir, e retirando-se a natureza para o que não depende de mim.
O arrependimento do dragão é estoico.
10. Vemos, pois, despontar, no estádio desse último traço, o risco de que a consciência tome suas distâncias em relação ao curso do mundo, através do tema do arrependimento, ficando desde então em questão a unidade fundamental sobre a qual repousava toda essa reflexão, a solidariedade da natureza e da moral.
Assim se torna urgente, em relação à lógica de conjunto aqui posta em obra, deixar o ponto de vista mais perigosamente pessoal a que induziria esse sexto traço para voltar à perspectiva do processo, transindividual e global.
Para isso serve, de fato, a expressão seguinte do texto canónico que encerra esse desenvolvimento, mostrando que todas as etapas desse processo são igualmente justificadas: ver todo o grupo dos dragões sem cabeça é fasto.
Da maneira como
WFZ a compreende, dando a jian um sentido ativo, ver e não visível, ao contrário de Philastre ou Wilhelm, essa fórmula não significa, de um ponto de vista simplesmente moral, que convém imitar esses dragões sem cabeça, que a recolhem dobrando o pescoço, e escolher se manter atrás, na expectativa de ser de novo empurrado adiante pela evolução da situação, em vez de procurar se impor desde logo aos outros e fatalmente atrair sua hostilidade.
Significa antes que convém ver, e portanto compreender, que nenhum desses traços, comparados ao termo desse percurso a dragões atroupados, ultrapassa os outros de uma cabeça, e que mesmo os segundo e quinto traços, cuja posição mais vantajosa se viu, permanecem em pé de igualdade com os outros, no mesmo plano que eles e sem se opor aos outros pelo valor.
Na evolução que todos esses dragões diversos simbolizam, do enterramento inicial ao arrependimento final, cada etapa aparece em seu tempo, nenhuma podendo por conseguinte ser solidarizada das outras, permanecendo os dragões agrupados, nem podendo mesmo ser privilegiada.
Nada, portanto, no curso das coisas, é, em sentido inverso, a temer ou a depreciar, encontrando-se de novo assegurada a coesão do real e do bem.
11. Querer tudo considerar no mesmo plano, sem que nada ultrapasse de uma cabeça, chega aliás a tomar, na reflexão de WFZ, um valor particular, da ordem do método filosófico, que permite aprofundar ainda a formulação.
As teorias viciadas e os pensamentos claudicantes, diz-nos
WFZ, têm todas como defeito partir de um princípio, pôr em valor uma ideia, da qual se faz em seguida um ponto de vista de escola, uma doutrina, que, destacados de todo o resto e postos à cabeça de seu sistema, conduzem fatalmente a forçar todos os aspetos eminentemente diversos do real para submetê-los a essa unidade.
A verdadeira unidade de um pensamento deve, ao contrário, provir de que, não privilegiando nada, conseguindo nada privilegiar, este se encontra naturalmente em medida de exprimir a coerência interna a todo o real, reproduzindo-lhe a lógica imanente, que não é outra que a do Céu.
Pois a virtude do Céu, diz-nos o comentário simbólico dessa fórmula, é precisamente que, para o Céu, não há nada que possa estar à cabeça.
Com efeito, precisa
WFZ, o grande processo de engendramento da realidade nunca põe à cabeça um momento ou um existente particulares que os outros seguiriam.
Se consideramos o solstício de inverno como uma data inicial, é apenas para a comodidade do cálculo, ou se é a primavera que temos por início do ano, é apenas em relação aos indícios da floração.
Mas em seu curso ininterrupto que faz alternar sem cessar a vida e a morte, a luz e a obscuridade, o grande processo do mundo não conhece mais início do que favorece um ente particular.
Assim é apenas se começarmos a nada pôr à cabeça nem nada privilegiar que poderemos apreender o que é o Céu, em sua fundamental indiferença e como integralidade, e que compreenderemos o que é a natureza como imanência.
Pois o Céu, diz-nos
WFZ, jogando de novo com as noções correlacionadas de ser constitutivo e de funcionamento, ti e yong, não tem ser constitutivo que lhe seja próprio, mas desdobra completamente seu funcionamento através do encadeamento das estações e do engendramento dos existentes.
Não há ser constitutivo particular de que ele não se sirva para o fazer funcionar e, ao mesmo tempo, não há funcionamento particular de que não faça seu ser constitutivo próprio.
O que significa, em outros termos, que o Céu não se deixa isolar em um ser individual, à parte dos outros, mas corresponde à marcha do mundo em sua totalidade, identificando-se ao grande Processo do real, sendo a maneira de ser que lhe cabe em próprio a de ser a totalidade do funcionamento dos seres e das coisas, seu constante renovamento.