2 O « iniciador » e o « receptivo»

Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

O « iniciador » e o « receptivo» ou as duas capacidades em obra no seio do real

1. Reabre-se o livro em seu início, e o que nele se encontra no ponto de partida da realidade não é uma, mas duas instâncias, pois esta não deve seu engendramento à ação pessoal, absconsa e invisível de um querer divino transcendente, mas à interação espontânea dos dois polos cuja existência simplesmente constatamos tão logo levantamos ou baixamos os olhos: os do Céu e da Terra, que servem de quadro à realidade inteira.

2. O desvio é flagrante entre essas duas visões do mundo, a que desenvolveu a cultura chinesa e aquela a que nos ligamos por tradição grega ou cristã.

3. É uma tal representação que o Clássico da mudança conforma e sistematiza, devendo ele, que segundo a tradição dá sequência aos manuais de adivinhação das duas dinastias anteriores, sua originalidade precisamente ao fato de instaurar as duas figuras simbólicas do céu e da terra à cabeça de seu dispositivo.