1.5 Nem Criador nem criação

JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.

1. O que separa radicalmente o pensamento do processo do pensamento da criação é que, na origem do processo, tal como Wang Fuzhi sistematiza uma intuição fundamental da tradição chinesa, nunca há uma, mas sempre duas instâncias, opostas em suas determinações recíprocas e funcionando sempre em paridade, sem anterioridade nem superioridade, de modo que a lógica do processo exclui não tanto um Criador como causa inicial e primeiro motor, mas, mais profundamente, a referência a um Outro, a experiência de um absoluto da transcendência, isto é, Deus.

2. A dualidade-correlatividade constitui a estrutura única e absoluta de todo real, yin e yang, Terra e Céu, e por isso os dois primeiros hexagramas do Livro das Mutações, Qian e Kun, perfeitamente antitéticos e detentores de todo o capital de traços das sessenta e duas outras figuras, são estabelecidos juntos e em igualdade, sem que um preceda o outro no tempo ou prevaleça sobre ele em poder, pois basta que o encadeamento dependa de uma estrutura de acontecimento, e não de pura correlação, para que o pensamento do processo resvale para um esquema cosmogônico.

3. A mesma estrutura de dualidade-correlação se diz sob diversos signos, Céu e Terra do ponto de vista da posição, yin e yang do ponto de vista da materialidade, Qian e Kun do ponto de vista do funcionamento, e neste último aspecto, o mais sujeito a equívoco, a perseverança em avançar, jian, e a disponibilidade para conformar-se, shun, são inseparáveis, pois a iniciativa não precede a receptividade, de modo que, não havendo antes originário, tampouco pode haver sujeito único, autor ou criador.

4. Cumpre precaver-se contra a ilusão sempre renascente de deixar a unidade transcender a dualidade, quando a unidade é apenas o outro aspecto da dualidade e nada além dela, ilusão que atinge sobretudo a relação do yin e do yang com o Dao, o qual, por englobá-los sob o modo da unidade, parece ultrapassá-los e existir antes deles, erigindo-se em entidade metafísica e fazendo recair, pela tentação do monismo, nas ingenuidades cosmogônicas dos taoístas.

5. Pensar o advento do mundo segundo o modelo da criação é pensar o real pela oposição entre o que existe e o que não existe, fonte de contradições intermináveis de que o pensamento do processo está livre, pois opõe apenas o latente e o manifesto, e foi justamente por tratar o real em termos de existência e não-existência que Laozi, apesar de insistir na impessoalidade do Dao, chegou a uma representação de tipo criacionista, rompendo a correlação entre ser constitutivo e funcionamento.

6. A justificação mínima de Deus no racionalismo ocidental consiste em atribuir-lhe o impulso inicial no encadeamento de causas e efeitos, o primeiro piparote após o qual tudo funciona sozinho, e é justamente essa ideia de intervenção exterior, mesmo reduzida ao começo, que Wang Fuzhi recusa categoricamente, perguntando, diante da comparação de Laozi entre o mundo e um grande fole que engendra por si o sopro de energia material, quem estaria lá para acioná-lo, e apontando que a tradição neoconfuciana, ao derivar a interação do yin e do yang da alternância movimento-repouso, deixa intacto o problema do primeiro movimento. 7. Wang Fuzhi, como já Zhang Zai, escapa a essa contradição ao fazer do movimento um dado absolutamente inicial, pois, estando a dualidade do yin e do yang implicitamente contida na harmonia originária, esta é espontaneamente animada pela tensão dessa dualidade antes mesmo de sua explicitação, sempre havendo o que, mais leve e límpido, tende a subir e o que, mais pesado e opaco, tende a descer, de modo que o grande Vazio da não-atualização já está em movimento e o advento do mundo depende apenas de si mesmo, caráter puramente interno que a noção de jie, mola interna ou potencialidade dinâmica permanente, exprime e cuja ignorância faz tropeçar o pensamento taoísta. 8. Afastado o argumento da causa primeira, parece surgir nova contradição entre a lógica da alternância, que exige movimento e repouso interdependentes, e a lógica da independência, que exige o movimento como função primeira em relação ao repouso, mas a segunda tese, que contraria posições como a de Zhu Xi, já está inscrita na primeira, pois a interdependência implica dissimetria: o repouso é repouso do movimento, mas o movimento não é movimento do repouso, e o movimento preexiste naturalmente a todo repouso.

9. Afirmar a prioridade do repouso torna impossível passar ao movimento sem causa externa e exige tomar da metafísica um primeiro motor, ao passo que afirmar a prioridade do movimento, que conduz por si ao repouso para renovar-se, justifica plenamente a lei da alternância e contém como consequência lógica a autorregulação permanente do processo, que exclui a gratuidade de todo começo e de todo fim.

10. O pensamento de um Criador na tradição ocidental não se reduz às facilidades da imaginação cosmogônica nem à necessidade filosófica de um primeiro motor, tendo sido essencialmente moldado pela valorização antropológica de uma categoria do sujeito-agente como instância única e voluntária e pela valorização ideológica de uma diferença radical de estatuto entre Criador e criação, traços cuja coerência de civilização a perspectiva chinesa do processo permite sondar por sua diferença.

11. Sem simplificar demais, reconhece-se que o relato do Gênesis é apenas uma versão entre as concepções ocidentais, ela mesma heterogênea, e que a criação ocupa apenas o início do Timeu, apresentada como verossímil, mas uma representação de base ganhou consistência a ponto de a cultura ocidental parecer confundir-se com ela e vivê-la como evidência, isto é, como aquilo que já não se pensa.

12. O que parecia evidência da criação aos missionários cristãos chegados à China chocou-se com a representação do processo, igualmente vivida como evidência pelos letrados, e o argumento da luz natural, o li chinês, atuou dos dois lados em sentidos contrários, não havendo mais verdadeira discussão, mas apenas reação de exclusão, como mostrou Jacques Gernet, pois a incompatibilidade enraíza-se na estrutura dos modos de pensamento, e, estando a universalidade de direito da razão diante de outra razão, a filosofia, que só dialoga dentro de uma mesma racionalidade, deve passar a vez à antropologia. 13. Conta primeiro que uma figura individual possa servir de instância única e isolada, Deus ou demiurgo, sujeito que só depende de si e age como manifestação autônoma de sua individualidade, de modo que todo criador é antes um agente e a criação uma operação intencional e calculada, calcada no artesão-construtor, o que indignou os letrados chineses, para quem a excelência do Processo está em proceder de modo absolutamente impessoal e não intencional, sem ação nem criação, mas em evolução espontânea e transformação generalizada, zao-hua.

14. O pensamento da criação implica também uma diferença essencial de estatuto entre o sujeito criador e seu objeto, diferença que a Bíblia acentua ao exaltar cada vez mais o Criador e que estrutura o Timeu pela dualidade entre ser eterno e devir, com o demiurgo organizando o mundo visível e transitório de olhos fixos nas Ideias, separação dualista tão arraigada que Richard Wilhelm julgou encontrar no Livro das Mutações a distinção entre modelo e cópia, com o Céu como universo das imagens primeiras e a Terra como universo das cópias.

15. O Livro das Mutações não pode ser lido à luz do Timeu, pois a relação pai-mãe, Céu-Terra, não obedece à relação modelo-receptáculo, outra versão da oposição entre ativo e passivo, e, estando Céu e Terra em paridade, suas produções distinguem-se apenas pelo estágio de atualização, sem hierarquia ontológica, de modo que a dualidade chinesa, implicando paridade e correlatividade, é o contrário do dualismo, e a colaboração exclui a criação.

16. Todo pensamento da criação implica uma estrutura de acontecimento e só se enuncia pelo encadeamento de um relato, o que o tornou suspeito aos letrados chineses, categoricamente hostis a qualquer função do relato que não seja histórica e para os quais a ficção não tem poder de revelação, e, embora a China tenha tido sua produção mitológica e conhecido o motivo da criação, a tradição letrada, ao impor-se como ideologia dominante, censurou os relatos míticos que não podia historicizar e fortaleceu-se nessa recusa de todo muthos.

17. Todo relato ocidental da criação, filosófico ou religioso, visa essencialmente, sob a figura de expor o começo do mundo, representar uma relação com a transcendência, e, como o encontro evocado é o de duas ordens absolutamente incompatíveis, a única maneira de exprimir esse contato é recorrer à figuração fortuita e injustificável da criação, acontecimento impossível que evoca enigmaticamente a incompossibilidade entre o criado e o incriado.

18. Esclarece-se assim a razão da clivagem entre processo e criação: o pensamento do processo, inspirado apenas na experiência da natureza, elucida a evidência, produz explicações, exclui a narração e reduz a parte do mistério, pois nada acontece de verdadeiramente estranho sob a lei da alternância, ao passo que o acontecimento da criação permanece por princípio alheio a toda estrutura e abre a consciência à surpresa do Outro e ao transbordamento do Infinito, e por isso o mal, que em Jó é escândalo a justificar pela sublimidade do Criador, reduz-se no processo a anomalia transitória, desprovida de infinitude trágica.

19. O pensamento letrado, contudo, não é tão simples, mesmo em sua elucidação do simples, pois não está fechado ao sentimento da transcendência e é também, fundamentalmente, uma meditação do invisível, o que leva a perguntar que invisível é esse que chega até nós fora da fratura originária da criação.