1.3 A relação de incitação

JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.

A relação de incitação no ponto de partida da realidade

1. A interação por incitação entre os existentes constitui o fundamento de toda a realidade, sob a forma de uma influência por incitação, uma das representações mais marcantes da tradição chinesa, que difere duplamente da noção ocidental de sensação: não se restringe ao conhecimento, pois está na origem de todo advento à existência, e privilegia a relação em si, e não o sujeito que a sofre.

2. Tudo o que não se assemelha se opõe e tudo o que se opõe se incita mutuamente: a incitação nascida do encontro com o outro faz originalmente advir, enquanto a assimilação nascida do encontro com o mesmo permite ao que adveio fortalecer-se e desabrochar, de modo que a incitação recíproca é o móbil único e espontâneo que põe o mundo em movimento, dotado ao mesmo tempo de alcance cosmológico e ético.

3. A possibilidade lógica da incitação exige que haja diferença entre os existentes e, para o acordo, um fundamento comum, de modo que identidade e diferença se supõem mutuamente e a diferença é essencialmente relativa, relatividade que, longe de indicar ilusão como no taoísmo, constitui a condição fecunda de todo processo.

4. Pelo fato da incitação, é normal que todo existente esteja em perpétua interação com outros, e mesmo a incitação do desejo não deve ser condenada, apesar dos anátemas budistas e taoístas, pois procede da mesma fonte que o Processo e exprime sua lógica, sendo condenável apenas o excesso do desejo.

5. O fenômeno da incitação, constantemente ativo e inesgotável, invisível mas presente em toda parte, equivale à dimensão de invisível e de infinito continuamente atuante no mundo, a noção de shen, razão pela qual taoístas e budistas, ao sonharem libertar-se da relação de incitação, contrariam a própria lógica da natureza, já que é impossível atingir a verdadeira natureza fora dela, em algum nirvana, e somente ela dá acesso à realidade do mundo, pensada intrinsecamente como Processo. 6. Para pensar a possibilidade do processo unicamente a partir da relação de incitação, impõem-se duas exigências de difícil conciliação: mostrar que a incitação está inscrita desde o início do processo, e não apenas em certa etapa de seu desenvolvimento, sob pena de o processo deixar de depender de uma relação puramente interna, e destacar a interdependência e a correlação que unem os dois aspectos de toda diferença, sob pena de a interação tornar-se ininteligível, o que equivale a sustentar ao mesmo tempo o caráter originário e o caráter essencialmente relativo da diferença. 7. Contra muitos pensadores neoconfucianos, a dualidade é originária: se a origem é pensada como estágio inicial de harmonia, a dualidade já preexiste e está implicitamente contida nele, bastando que a dualidade do yin e do yang se explicite para que o processo de existência se atualize.

8. Somente o caráter originário da dualidade permite explicar que o Processo, em qualquer momento, dependa apenas de si mesmo e proceda unicamente por interação recíproca, pois a harmonia originária já é dupla, a dualidade condicionando a unidade, como mostra o par Qian e Kun, Céu e Terra, instaurados juntos e em paridade no Livro das Mutações.

9. Ao mesmo tempo originária, a diferença é relativa, de modo que em nenhum nível do real existe oposição absoluta e definitiva, mas uma oposição móvel, trabalhada pela reversibilidade, relativa não em sentido cético, mas relacional, na medida de sua correlatividade.

10. Invocar uma concepção propriamente dialética, como fazem muitos comentadores chineses atuais, arriscaria reduzir Wang Fuzhi a pálida réplica de Marx ou de Lênin e perder o que há de mais original em sua tradição: o senso agudo da correlatividade e a intuição da interdependência íntima entre diferença e harmonia, segundo a qual um só existe em relação ao outro e um também é o outro.

11. A correlatividade tem consequências essenciais para toda elaboração do saber: nenhuma realidade pode ser considerada unilateral e individualmente, pois só se apreende pela análise das relações que a ligam às demais e a constituem, e o que aparece à análise nunca é uma existência singular e autônoma, mas uma sequência dentro de um encadeamento, o do processo.

12. Falar de um é ao mesmo tempo falar do outro, como falar do trovão é falar do vento, falar da chuva é falar do sol, falar do Céu é falar da Terra, e, levada ao extremo, essa formulação implica que, ao falar de um, fala-se indireta mas precisamente do outro, de modo que Confúcio, sem ter falado da morte, falou da vida, e quem conhece intimamente a vida conhece também profundamente a morte, pois a relação não é exterior nem secundária, mas faz existir intrinsecamente, sendo a correlatividade o sentido da realidade, que só se analisa em termos de encadeamento e de processo. 13. A antiga fórmula segundo a qual um aspecto yin e um aspecto yang constituem a realidade do curso do mundo, a Via, o Dao, embora ambígua, impõe uma escolha de leitura que confirma as conclusões anteriores, pois tanto separar absolutamente yin e yang quanto acoplá-los inteiramente conduz a apartar o Dao do yin-yang e a reproduzir o mesmo gesto idealista.

14. Entre essas duas posições adversas mas equivalentes, a única interpretação rigorosa considera yin e yang ao mesmo tempo separados e correlativos, originalmente diferentes e em contínua interferência, lendo-se a fórmula como ora yin, ora yang, ao mesmo tempo yin e ao mesmo tempo yang, de modo que yin, yang e Dao não são três, mas apenas dois, sem que o Dao exista como terceiro termo à parte, pois é a própria alternância contínua de yin e yang, e nada fora dela, que constitui a realidade do curso do mundo, o Dao, o Processo, reconhecendo-se assim a autenticidade da diferença intrínseca a todo real, ao mesmo tempo que essa alteridade se desdobra como alternância num perpétuo devir, sem começo nem fim.