Harman

Graham Harman (1968–)

Filósofo, ensaísta e teórico contemporâneo norte-americano, Distinguished Professor de Filosofia no Southern California Institute of Architecture (SCI-Arc) em Los Angeles e anterior docente de longa data na American University in Cairo (AUC), Graham Harman é o fundador e principal arquiteto teórico da Ontologia Orientada a Objetos (Object-Oriented Ontology / OOO). Formado pelo St. John's College de Annapolis e com doutoramento pela DePaul University sob a orientação de David Farrell Krell, Harman projetou-se no centro do debate ontológico global a partir do seminário sobre Realismo Especulativo realizado no Goldsmiths College em 2007 (ao lado de Quentin Meillassoux, Ray Brassier e Iain Hamilton Grant). O seu projeto filosófico notabilizou-se pela ruptura radical com a tradição moderna antropocêntrica que reduzia a filosofia ao correlacionismo ou à relação exclusiva entre sujeito humano e mundo objetivo. Inspirando-se na célebre análise heideggeriana do instrumento e dos utensílios (*Zeuganalyse*), na metafísica das mônadas de Leibniz, no pluralismo ontológico de Xavier Zubiri e nas redes de atores de Bruno Latour, Harman erigiu uma ontologia estritamente realista, plana (*flat ontology*) e não reducionista, na qual todo ente — seja uma pedra, um elétron, um ser humano, uma instituição social, um personagem de ficção ou uma obra de arte — é concebido como um objeto autônomo, irredutível tanto aos seus componentes materiais microscópicos quanto às suas relações e efeitos contextuais exteriores, permanentemente retirado (*withdrawn*) em seu fundo ontológico inacessível e comunicável exclusivamente através da mediação alusiva da causação vicária e da estética.

1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)

2. Contexto Institucional, o Seminário de Goldsmiths e a Escola de Arquitetura

3. Recepção Acadêmica e Eixos de Circulação

4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica

1. *Undermining* (Subdeterminação ou Redução por Baixo): O erro mecanicista e materialista de afirmar que os objetos não são reais em si mesmos, mas meras ilusões compostas por elementos mais fundamentais e primordiais (átomos, cordas quânticas, matéria bruta, fluxo pré-individual, *apeiron*).

  2. *Overmining* (Sobredeterminação ou Redução por Cima): O erro idealista, pragmatista e construcionista social de afirmar que os objetos só existem quando percebidos por uma mente humana, quando nomeados pela linguagem ou quando produzem efeitos tangíveis numa rede de relações práticas.
  Para a OOO, ambas as abordagens fracassam em compreender a integridade irredutível do objeto, que se situa sempre a meio caminho entre os seus componentes internos e as suas manifestações contextuais externas.
* A Estrutura Quádrupla do Objeto (O Modelo RO–SO–RQ–SQ): No tratado *The Quadruple Object*, Harman decompõe formalmente toda entidade a partir de quatro polos irredutíveis:
  * Objeto Real (RO): O objeto em si mesmo, retirado de qualquer relação ou percepção;
  * Objeto Sensível (SO): O objeto na medida em que se manifesta como unidade fenomenológica para uma consciência ou para outro objeto;
  * Qualidades Reais (RQ): A essência profunda e oculta que faz do objeto real o que ele é, acessível apenas por via alusiva;
  * Qualidades Sensíveis (SQ): As aparências empíricas, superficiais e mutáveis com que o objeto se apresenta na experiência.
  A dinâmica dessas quatro instâncias gera as tensões ontológicas constitutivas do universo: Espaço (tensão entre SO e SQ), Tempo (tensão entre SO e RQ), Essência (tensão entre RO e RQ) e Eidos (tensão entre RO e SQ).
* A Primazia Ontológica da Estética e a Causalidade Vicária: Se todos os objetos reais são hermeticamente selados e inacessíveis ao contato literal imediato, a interação causal entre eles torna-se um paradoxo que Harman resolve através da Causação Vicária (*vicarious causation*). A causalidade física não é mecânica e direta, mas uma operação estética: os objetos reais só se tocam de modo alusivo na superfície sensível de uma relação interior mediada. Por esse motivo, a estética deixa de ser um mero ramo periférico da filosofia dedicado ao belo ornamental para tornar-se a Prima Philosophia: o estudo das fraturas, das metáforas e das alusões pelas quais o real se manifesta sem jamais capitular à literalidade do discurso empírico.