Tudo cede à grande arte de curar…
A admiração pela medicina no século XVIII é expressa por Lamettrie em 1747, destacando o poder quase mágico do médico sobre a alma e a vida.
Lamettrie, médico e filósofo, dedica seu tratado “O Homem Máquina” a Haller, fisiologista suíço da universidade de Göttingen.
A frase de Lamettrie: “Tudo cede à grande arte de curar. O médico é o único filósofo que merece sua pátria; ele aparece como os irmãos de Helena nas tempestades da vida. Que magia, que encantamento! Sua só vista acalma o sangue, devolve a paz a uma alma agitada e faz renascer a doce esperança no coração dos infelizes mortais. Ele anuncia a vida e a morte como um astrônomo prediz um eclipse…”
O texto observa que Haller não compartilhava toda a liberdade de espírito de Lamettrie, mas era um homem representativo da antropologia médica em plena ascensão.
O século XVIII consagra o advento de uma medicina científica…
O século XVIII marca o advento de uma medicina científica baseada na união entre médicos e filósofos para um conhecimento positivo da natureza humana.
Lamettrie afirma que a experiência e a observação devem guiar o estudo do homem, presentes nos registros dos médicos que foram filósofos, não nos filósofos que não foram médicos.
Citação de Lamettrie: “a experiência e a observação devem sozinhas nos guiar aqui. Elas se encontram sem número nos fastos dos médicos que foram filósofos, e não nos filósofos que não foram médicos. Aqueles percorreram, iluminaram o labirinto do homem; eles sozinhos nos desvendaram essas molas escondidas sob invólucros que roubam aos nossos olhos tantas maravilhas. Eles sozinhos, contemplando tranquilamente nossa alma, a surpreenderam mil vezes tanto em sua miséria como em sua grandeza, sem mais desprezá-la num desses estados do que admirá-la no outro. Mais uma vez, eis os únicos físicos que têm o direito de falar aqui. Que nos diriam os outros, e sobretudo os teólogos?…”
Ao contrário do século XVIII, na época da escrita do texto, prevalece entre médicos e filósofos a ignorância mútua e o desdém, faltando a rara oportunidade de entendimento entre as corporações.
O exemplo de Locke…
O exemplo de John Locke demonstra a conjunção entre uma história natural do espírito humano e a antropologia médica, visando um conhecimento positivo do ser humano.
As duas escolas antigas: Cos e Cnido…
As tradições médicas de Cos e Cnido, com suas ênfases no equilíbrio interno ou na causalidade externa, servem como pontos de referência duradouros para a explicação da saúde e da doença.
A escola de Cos, tendo Hipócrates como herói epônimo, insiste no caráter sintético e totalitário da vida, vendo na natureza um dinamismo autônomo ligado às regulações internas dos humores (humorismo).
A escola de Cnido, fundada por nomes menos ilustres anteriores a Hipócrates, pratica um empirismo restrito que busca a origem da doença numa causalidade externa, tratando as doenças como “processos parasitas” ou acidentes.
Citação de Henri Ey sobre a escola de Cnido: “a doença não é considerada como uma decadência, um desequilíbrio funcional, mas como o efeito de um simples traumatismo. A doença não passa de um acidente.”
A Renascença e o panvitalismo de Paracelso…
A Renascença, rompendo com o galenismo escolástico, representa a idade de ouro do humorismo ligado a uma filosofia da natureza e a uma magia natural.
Paracelso (1493-1541), chamado de “Lutero da medicina”, é o profeta e o mago dessa efervescência, publicando obras em língua popular por desprezo ao latim dos sábios escolásticos.
Citação de Koyré sobre Paracelso: “A vida inteira não passa de um processo alquímico”, observando que a própria digestão se realiza como operações de laboratório.
Na massa confusa desse pensamento pré-científico estão em germe os temas que mais tarde seriam retomados pelos animismos, organicismos, vitalismos e dinamismos até os dias atuais.
O mecanicismo e Sydenham, o Hipócrates inglês…
A afirmação mecanicista no século XVII, com a obra de Harvey, impõe o modelo epistemológico da máquina, ao qual Sydenham opõe um espírito de observação clínica.
Thomas Sydenham (1624-1689), amigo de
Locke, permanece fiel ao humorismo galênico, mas substitui o a priori doutrinal pelo espírito de observação, introduzindo um senso clínico esquecido desde Hipócrates.
A resposta de Sydenham aos que lhe perguntavam de onde vinha sua ciência do homem: “Oh! eu leio Dom Quixote!”
O empirismo de Sydenham implica um esclarecimento do campo operatório da medicina, constituindo quadros clínicos precisos que isolam e agrupam os sinais, abrindo caminho para remédios específicos.
O avanço das técnicas de observação: microscópio e instrumentos de medida…
A partir do século XVII, a observação clínica beneficia-se de novos aparelhos de exame e medida, mas sua utilização eficaz depende de uma verdadeira mutação da mentalidade.
Robert Hooke publica em 1665 sua Micrographia, um dos primeiros tratados de microscopia, onde aparece pela primeira vez a noção de célula e a própria palavra.
Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante holandês, descobre os glóbulos do sangue (1673), os infusórios e as bactérias (1675-1683), chamando-os de “átomos animados” na perspectiva corpuscular então reinante.
O texto observa que Leeuwenhoek, por ser um autodidata sem cultura filosófico-médica, pôde ver o que viu, enquanto depois dele nada mais se viu por um bom século, havendo um “sensível retardamento no uso dos métodos melhorados de observação e de medida” após 1700.
De Morgagni à método anátomo-clínico…
O italiano Morgagni (1682-1771), anatomista de Pádua, funda a interpretação anátomo-clínica da doença ao confrontar a evolução clínica com os processos orgânicos correspondentes via autópsia.
A obra magna de Morgagni, Os focos e as causas das doenças (1761), resume cinquenta anos de pesquisas e consagra um momento decisivo no estabelecimento de uma ciência do homem digna desse nome.
Por muito tempo, na gíria dos hospitais, a expressão “ir para Morgagni” equivalia a “praticar a autópsia”.
O texto observa que, de Sydenham a Morgagni, o caminho que prepara o método anátomo-clínico é o da ciência rigorosa, embora não seja a via régia da medicina oficial da época.
O auge e os excessos do mecanicismo: os iatromecânicos e o solidismo…
A concepção mecanicista do homem-máquina, inspirada pelo prestígio de Newton, leva a um solidismo que pretende explicar os fenômenos vitais pelas leis da mecânica, resultando em aberrações calculistas.
Borelli (1608-1678), matemático e físico napolitano, é o chefe da escola dos iatromecânicos, aplicando os métodos das ciências exatas aos fenômenos vitais, especialmente aos movimentos musculares.
Baglivi (1668-1706) afirma que o corpo humano é submetido ao número, ao peso e à medida, sendo as mandíbulas tenazes, o estômago uma corneta, o coração uma mola e os músculos cordas.
Cabanis critica os cálculos absurdos dos solidistas, como o de Borelli que encontrou uma força digestiva igual a um peso de 261.186 libras, demonstrando a ilusão e a superstição dos números.
A reação animista e vitalista: da alma ao princípio vital…
O mecanicismo enfrenta forte oposição de uma tradição monista que insiste na unidade interna do ser vivo e na especificidade da existência biológica, irredutível ao modelo da máquina.
Leibniz protesta contra a assimilação abusiva dos vivos às máquinas, insistindo na verdadeira e imensa distância entre as menores produções da natureza e os maiores artefatos da arte.
Citação de
Leibniz: “Pelo meio da alma ou da forma, há uma verdadeira unidade que responde ao que se chama eu em nós; o que não poderia ter lugar nem nas máquinas da arte nem na simples massa da matéria.”
Stahl (1664-1734), professor em Halle, retoma a noção de alma condenada por
Descartes, fazendo dela o princípio da vida, um princípio natural que regula os ritmos das funções orgânicas segundo uma sabedoria instintiva.
O vitalismo de Bordeu e de Barthez: a emergência do conceito de organismo…
Bordeu e Barthez, da escola de Montpellier, desenvolvem um vitalismo que afirma a especificidade dos fenômenos vitais e a existência de uma finalidade interna imanente, consagrando o conceito moderno de organismo.
Bordeu (1722-1776) publica em 1768 as Pesquisas sobre a história da medicina, onde o termo “organismo” designa uma doutrina que se opõe aos físicos leves que brincavam com pedaços de cartas.
Barthez (1734-1806) publica em 1778 os Novos Elementos da Ciência do Homem, definindo um princípio vital puramente experimental, sem nenhum compromisso metafísico, usado como letras na álgebra.
Citação de Barthez: “Chamo princípio vital do homem a causa que produz todos os fenômenos da vida no corpo humano. O nome dessa causa é bastante indiferente e pode ser tomado à vontade.”
A nova medicina como ciência do homem…
A medicina do século XVIII caminha para a maturidade preparando o terreno para uma medicina positiva, uma dimensão específica de inteligibilidade que fundará a antropologia médica moderna.
Vicq d’Azyr (1748-1794), amigo de Condorcet e de Lavoisier, é chamado de “o Buffon da medicina” e sonha com uma reforma da linguagem médica à imagem da nomenclatura química.
Philippe Pinel publica em 1798 sua Nosografia filosófica, uma das primeiras tentativas de determinação dos conceitos médicos, utilizando o novo estilo definido pelos Ideólogos.
O texto conclui que os médicos do século XVIII tiveram a audácia de sonhar com uma ciência do homem são e doente, e que ainda se espera a realização dessa antropologia.