[…] seja Grande sertão: veredas, seja Tutaméia, culminando no conto A terceira margem do rio de Primeiras estórias, sobremaneira expressivo do pensamento de Guimarães Rosa e do heterologos em geral. Enquanto Grande sertão nos sugere a imensidão da terra brasileira, o sertão-macrocosmos, “lugar de latifúndios e epopéias”, como diz Gilberto Mendonça Teles, Tutaméia é “uma espécie de ‘grande sertão’ fracionado em pequenas narrativas”, o microcosmos onde decorre o infinitamente pequeno dos personagens, os seus anseios e “miseriazinhas”. “A ‘nonada’ do romance encontra o seu paralelismo na ‘tutaméia’ nos ‘ossos de borboleta’ do livro de contos”1). Destacaremos sobretudo os prefácios de Tutaméia, os quatro pilares (sugerindo os quatro elementos) de um corpus de quarenta estórias, heterodoxa e esotericamente contadas e dispostas, porquanto nos parecem constituir o prólogo do heterologos rosiano, senão mesmo a súmula da sua filosofia arcana, ainda que impura, profunda. O pensamento heterodoxo em língua portuguesa, as coordenadas ônticas do mal, do tempo e do nada, do terceiro incluído e de um ser selvagem, recicladas num espírito de lugar, ex libris do imaginário brasileiro - o limite ilimitado da terra - parecem-nos sobremaneira expressivas nestas obras, graças a uma lógica sem exclusões, em que tudo se inclui, retorna e recria na plasticidade da língua e na energeia do mythos.
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*PS: Maria Helena Varela. O heterologos em língua portuguesa : elementos para uma antropologia filosófica situada. Rio de Janeiro : Espaço e Tempo, 1996*