VARELA – O MUNDO ROSIANO

O mundo rosiano é, de fato, um mundo de como se, de faz de conta, o regresso pensado à desordem ordenadora do mito e da natureza, na sua lógica sensível, na sua linguagem carnal, na sua hybris caudalosa e espontânea. Homem do sertão 1), como ele próprio se deixa denominar, Guimarães Rosa descobre-se, selvagem, eterna criança, enunciando a verdade possível, a não verdade de uma Verdade inominável, no eterno retorno do mythos. Fiel às formas simples de que fala Jolles 2), na escrita deste autor, o mythos e o epos são continentes de barreiras fluidas, salvaguardando-se daquele uma temporalidade cíclica, uma ritualização sagrada que nos remetem, sem cessar, para o universo das origens cosmogônicas. Porque o mito é o germen da estória, é que existe nesta uma coerência mágica, ainda que alógica, ou enigmática, verossímil; a estória é um significante em si, sem necessidade de remeter para outros códigos significativos. Por isso, por mais épica, a estória se faz contra a história, avessa à lógica da identidade, à gramática da repetição, em que os acontecimentos se sucedem, sucessivamente, numa ordem vazia, cujo sentido único, ao serviço da lei e do fato, é o “não ter sentido íntimo nenhum”.

Na antiperipleia que é a sua escrita, espelho mágico da travessia ab infinito do humano, o autor parece apostado num misterioso enleio metafísico e religioso, numa insaciável procura desse Urfundamento latente de todo o sentido manifesto. Queda-se, porém, perplexo e irônico, perante a descoberta de que o fundamento último do ser, o sentido do sentido, é um fundamento sem fundo, ou talvez esse não-senso lógico que é um supra-senso mítico. Perante o pensamento sem fundamento de um ser debilitado no tempo, impensável e indizível na lógica do conceito, Guimarães Rosa opta conscientemente pelas formas mitopoéticas de pensar, pela verdade ficcional como única verdade possível, a fim de não morrermos de Verdade.

Tal como falamos de uma poesia sófica em Fernando Pessoa, de poesia e metafísica, permitimo-nos falar de ficção sófica em Guimarães Rosa, de mito e metafísica, já que o seu mythos parece deslizar numa epopéia iniciática, numa travessia ôntico-metafísica, universalista no seu regionalismo aparente. Nas encruzilhadas de Deus e do diabo, entre nonada e o ser, viver é um desafio, travessia infinita dos labirintos do tempo, recriando-se as coordenadas ônticas do heterologos em língua portuguesa no aparato ficcional da obra rosiano. Uma outra metafísica, fáustica e sisífica, heterodoxa e mítica, parece, então, manifestar-se no sentido de uma vida e de uma estória nos limites do humano, demasiado humanas. Entre o possível e o paradoxal, o épico e o pícaro, o estético e o religioso, o homem é aí o herói da terra, “o próprio sertão feito homem (…) mundano demais para ser místico, e místico demais para ser Fausto”3).

No mythos épico de Guimarães Rosa, um ser de latência, bruto e selvagem, mostra-se e esconde-se nas veredas do acontecer mitopoético, graças à força da palavra transcendente, simultaneamente metafísica e mágica, “elemento metafísico”4) e “irmã incompreensível da magia”5). No seu heterologos ímpar, a expressão mais autêntica, porque sempre inacabada, do pensamento heterodoxo em língua portuguesa nos últimos cem anos, mais se estreitam os laços entre mito e metafísica, numa metafísica, simultaneamente cosmogônica e existencial, divina e humana, transcendente e imanente. A travessia metafísica é a travessia transcendente e interiorizada de um sertão concreto, micro e macrocosmos, já que na topografia dessa transcendência imanente, o humano se assume ele próprio como travessia: “Existe é homem humano. Travessia”6).

Na travessia das estórias, a escrita rosiana parece discorrer imperturbável entre o mítico e o místico, o aporético e o irônico, o amor e o humor. Não se limitando à desconstrução, transcende-se na recriação cosmogônica de uma escrita outra, a partir das origens míticas, lúdicas e risíveis do logos simbólico, das raízes pré- e supra-significativas de um sentido, cuja seriedade reflexiva e coerência lógica se questionam demais. Como se o mythos, a estória, a epopéia fossem as formas irônicas de denunciar o não-senso do sentido, o ilógico da lógica e, simultaneamente, as fórmulas mágicas de anunciar o supra-senso de um Urmundo e de uma Urlingua genesíacas.

*PS: Maria Helena Varela. O heterologos em língua portuguesa : elementos para uma antropologia filosófica situada. Rio de Janeiro : Espaço e Tempo, 1996*

1)
Rosa, Guimarães. Entrevista a Günter Lorenz, p. 65.
2)
Jolles, A. Formas simples. São Paulo, Cultrix, 1974.
3)
Rosa, Guimarães. Op. cit., p. 95.
4)
Op. cit., p. 80.
5)
Op. cit., p. 89.
6)
Grande sertão: veredas, p. 538.