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GRANDE SERTÃO: VEREDAS. Três palavras, reunidas em duas expressões a priori geográficas, compõem uma unidade intermediada pelos dois pontos que as colocam em uma relação ao mesmo tempo de oposição e de complementaridade. Um espírito ocidental reconhecerá aí sobretudo a oposição:
O sertão acaba sendo toda a confusão e tumultuosa massa do mundo sensível, caos ilimitado de que só uma parte ínfima nos é dado conhecer, — precisamente a que se avista ao longo das veredas, tênues canais de penetração e comunicação. Assim o sinal: entre os dois elementos do título teria valor adversativo, estabelecendo a oposição entre a imensa realidade inabrangível e suas mínimas parcelas acessíveis, ou, noutras palavras, entre o intuível e o conhecível 1).
Tal interpretação, por mais esclarecedora que seja, situa-se também num estágio dualista, que nos propomos ultrapassar na perspectiva da Unidade: o Grande Sertão arquétipo implica as veredas, assim como as veredas supõem o Grande Sertão 2) há as veredas. São vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida. Nas veredas há sempre o buriti. […] As veredas são férteis. Cheias de animais, de pássaros”. Elas representam na paisagem a dominante fluida, sob forma de curso d’água ou de brejos reservatórios de gérmens da vida, no meio das chapadas de nome evocador, platôs ressequidos e terras desérticas solidificadas. Correspondência com o Tradutor Italiano, pp. 22-23.].
Isto posto, notamos que, além do problema de sentido que pode suscitar o regionalismo veredas, cujo conteúdo puramente ‘ ‘mineiro” se explicitará na sequência do próprio discurso [p. 59, entre outras], importa reter o que o adjetivo grande acrescenta ao substantivo sertão. Não se trata apenas de uma simples questão espacial: é a anteposição do próprio arquétipo, é o sagrado que se instaura no além do profano. As veredas-oásis, que nos Gerais de Minas e de Goiás equilibram com fluidos a secura do sertão, tomam-se caminhos que levam ao conhecimento, ao princípio indiferenciado, ao Tao dos orientais. Aliás, Guimarães Rosa pedia que assim se entendesse o título de seu livro, quando insistia em que a tradução alemã reduzisse o título a Grande Sertão, sem til 3).
Nestas condições, os dois pontos que separam-ligam a trindade inscrita no frontispício lembram aqueles que se correspondem no Tai Ki, símbolo chinês do Tao: no coração do yin negro, um ponto branco marca a presença dum germe yang latente, enquanto um ponto negro situa a potência yin que virá no interior da expansão branca do yang. O Ser do Tao é o resultado da dinâmica dos dois arquétipos yin e yang agindo em oposição-complementaridade nas Veredas do Ser tão. As duas modalidades diferenciadas do Uno primordial, que garantem juntas o movimento cósmico, se identificam aqui, tanto em sua expressão heimético-alquímica — Água das veredas e Terra do sertão, Solve et Coagula — como em sua tradução taoísta — uma vez yin, uma vez yang, é o Tao.
Quanto à tradição católica romana, fica-lhe reservado um lugar secundário, o do subtítulo, consagrado ao diabo por via de uma fórmula proverbial cujo conteúdo folclórico é de origem portuguesa 4).
Por detrás dessa superstição se perfila uma imagem do dinamismo universal: a Rua-arquétipo — espaço aberto entre dois alinhamentos fixos — é o domínio do Diabo — do grego Diaballein: dividir, fazer mexer-se tudo o que está condensado; mostrando-se no centro do Turbilhão, na origem das mutações, a besta multiforme aparece, pois, também como o animador infatigável daquilo que, sem ele, seria apenas massa amorfa.
Tal concepção nada tem de original: é a de Yahvé utilizando Satã para irritar Jó, este bom servo, muito bem instalado em sua felicidade terrena. É também a de Goethe, que a atribuía ao Senhor em pessoa no seu prólogo do Fausto. Ali vê-se Deus, no empíreo, incitando seu compadre Mefistófeles a ocupar-se dum outro bom servo, aquele alquimista do Dr. Fausto:
Esse espírito arreda da primeira
Origem sua e, se vencê-lo podes,
À tua senda tortuosa o guia.
E o Senhor acrescenta a esta autorização um comentário sobre a utilidade de um “espírito negador”:
Afrouxa o homem pronto a atividade
E em mole indolência se deleita;
Por isso companheiro dar-te folgo
Que o excite e punja, e tome parte
Da criação na obra, como demo.
E Mefistófeles responde com outro elogio, num monólogo sobre a complementaridade do “Bem” e do “Mal”:
Lá de tempos a tempos me divirto
Com visitar o velho, e tomo tento
Em não romper com ele. É mui bonito,
Da parte de Senhor tão poderoso,
Vir tão lhano falar c’o próprio demo 5).
A priori, esse eco folclórico do subtítulo de Grande Sertão: Veredas remete unicamente à negatividade maléfica. No entanto, entre parênteses e em itálico sob o título impresso em letras maiúsculas, essa negatividade se inscreve como reflexo de uma Verdade não-explícita — a da convergência das vias do Oriente e do Ocidente de que o título é o emblema —, tal a projeção dos Arquétipos luminosos do alto na sombria caverna dos homens.