2.1.2 Formação humana

GRASSI, Ernesto. Macht des Bildes: Ohnmacht der rationalen Sprache. Zur Rettung des Rhetorischen. Colônia: DuMont Schauberg, 1970 (Versão ampliada e canônica em língua italiana: Potenza dell'immagine: Rivalutazione della retorica, Bolonha: Il Mulino, 1989). / Poder da Imagem. Impotência da Palavra Racional. Em Defesa da Retórica. São Paulo: Duas Cidades, 1978

2. O caráter básico da formação humana. Uma investigação arcaica

1. A diferença fundamental entre a formação do homem e a do animal está em que o animal já nasce formado em seus modos de comportamento e vive sempre na tensão imposta por essas molduras, ao passo que o homem, obrigado a procurar sua moldura e o significado dos sinais relevantes, se vê diante de perguntas, dúvidas e tentativas fantásticas de enfrentar o desafio da interpretação.

2. Os padrões organizadores e unificadores pelos quais o homem apreende uma variedade de fenômenos chamam-se ideias, no sentido grego de eidos como figura e imagem, e sua apreensão chama-se theoria, isto é, visão, como quando as múltiplas manifestações do calor se esclarecem na ideia de movimento dos átomos, sendo uma teoria convincente apenas se abranger e esclarecer toda a gama de fenômenos examinados.

3. O segundo fator essencial da interpretação é a experiência, não restrita às ciências naturais, que consiste em questionar um fenômeno para verificar se algo deixou de ser apreendido pelo padrão unificador de uma teoria, exigindo, nesse caso, nova teoria ou nova interpretação até que a experiência confirme seu caráter abrangente.

4. A experiência não está no começo do processo nem pode ser o ponto de partida da formação, pois o padrão que orienta as perguntas dirigidas à natureza, a uma ação humana ou a um texto é determinado pela teoria e pelo método com que se faz a experiência, de modo que a comparação entre a variedade dos fenômenos e a teoria unificante constitui o processo concreto de interpretação, um comparar e selecionar de caráter dialógico que é o próprio ato da inteligência, o intus legere.

5. A inteligência não é um dom misterioso, mas a atividade exatamente examinável de ler fenômenos internos e externos por meio de escolha e seleção voltadas para a unidade global, e da unidade inseparável entre teoria, método e experiência provém a formação do mundo humano, pois o homem, sempre diante de casos singulares e sem o ajustamento animal a padrões dados, vive sob a necessidade constante de interpretar, requisito indispensável de toda cultura, entendida originalmente como o cultivo que faz florescer o mundo humano.

6. Não existe método preestabelecido para cada ciência, pois cada uma determina seu método conforme o modo como concebe seu objeto, de maneira que as diversas concepções da vida produzem métodos diferentes para a biologia, e uma visão estritamente mecânica da vida conduz a métodos puramente quantitativos.

7. Como não há métodos a priori e todo padrão humano precisa ser confirmado pela experiência, é inútil formar o homem por padrões já estabelecidos, que incorporam resultados de interpretações concluídas e surgem sempre post festum, devendo a formação, o ensino e o aprendizado concentrar-se no processo do qual os padrões se originam e na faculdade de interpretar corretamente, e não na aquisição de conhecimentos.

8. A unidade indissolúvel de esquematização, método e experiência vale também para as ciências do homem, como mostra o filólogo, que procura o sentido de um texto verificando se todos os seus termos, frases e estruturas se ajustam significativamente aos esquemas traçados, e a objeção de que ele não realiza experiências por lidar com um texto pronto cai diante da demonstração de Claude Bernard de que a essência da experiência não consiste em intervenções ativas de quem a realiza.

9. A denominação dos naturalistas da Renascença até Bacon como intérpretes da natureza lembra que a interpretação era prática das humanidades antes de se tornar método das ciências naturais, o que confirma que a formação depende mais do desenvolvimento da faculdade de interpretar que da comunicação de conhecimentos, e no diálogo interpretativo com os textos tradicionais se retoma a relação com a comunidade humana do passado, única via para encontrar a própria identidade histórica, sem que a nitidez de uma tradição seja jamais evidente por si mesma.

10. Os humanistas retomaram o reconhecimento antigo de que a essência do homem se funda no logos como faculdade de selecionar e reunir, do qual decorre a filologia como amor ao logos e ciência humana geral, os studia humanitatis, que abrange até o naturalista e interroga textos em sentido amplo, sejam obras escritas, figurativas ou musicais, não pela mera coleta de informações e dados históricos, que dissolveria a interpretação numa história da cultura sem poder elucidativo, mas pela atualização de suas forças originalmente atuantes, que traz à luz uma nova realidade.

11. A interpretação resulta de um projeto hipotético examinado quanto à sua capacidade de esclarecer e abarcar todos os aspectos e elementos, processo que constitui a essência da inteligência e a única razão do aprendizado, e, sendo o homem aberto ao mundo e desprovido de padrões dados, sua formação adquire caráter existencial, já que existir é suportar a problematicidade das relações consigo e com o mundo sem fugir à decisão continuamente exigida, risco constante de acertar ou falhar que impede tratar a existência como objeto, pois ela é um processo de interpretação sempre em curso.

12. A formação obriga a examinar o próprio ser e simultaneamente a decidir sobre ele, e as múltiplas camadas de significado que se manifestam no curso da experiência permitem, pela análise e realização desse processo, elucidar e formar o estar-aí, a existência.

13. Quem existe é obrigado a perguntar pelo ser daquilo que é, pois toda interpretação de uma atitude pressupõe essa resposta, e a verdadeira decisão só nasce do reconhecimento de que todas as atitudes são questionáveis, de modo que formar-se significa sair do anonimato e da indiferença do que se diz e se faz para o risco da existência consciente e de decisões cada vez mais lúcidas, risco cuja autenticidade não está apenas em arriscar-se, como pretendem alguns existencialistas, mas em reconhecer como apelo irresistível, a arché, aquilo que pressiona e guia, pois só pela aceitação dessa vocação o homem se eleva acima das circunstâncias mutáveis, mantém a unidade da personalidade, liga o futuro ao passado e converte temporalidades difusas em história verdadeira, enquanto a persistência exclusiva na problematicidade da existência conduz a um formalismo abstrato e se detém no meio do caminho, sem atingir os padrões mais remotos que se impõem.

14. A transcendência, estrutura fundamental da humanidade pela qual o homem encontra todos os fenômenos como incerteza, decisão e risco, consiste em superar a si mesmo e a seus problemas imediatos para estabelecer relações consigo e com o mundo, fundando-se na necessidade de dar forma a todo material revelado ajustando-o a um esquema ou imagem, e a formação, como diálogo interno pelo qual cada um se torna si mesmo, torna-se o meio de superar a relatividade dos fatos históricos e alcançar a realidade completa que possibilita a perspectiva histórica, de modo que sua teoria é uma investigação arcaica da estrutura dos acontecimentos humanos à luz dos padrões básicos, as archai, da autorrealização humana.