2 Sugerir e crer

GIL, Fernando. Modos da evidência. Lisboa: Casa de Moeda, 1998.

1. Entre os modos de abordar os problemas de um filósofo, seja pela coerência interna do sistema, seja pela inserção histórica e tipológica, seja pelo valor intrínseco dos problemas como interrogações abertas, é este último que orienta a investigação de Rosa Alice Branco sobre a percepção em Berkeley, cujo pressuposto da heterogeneidade entre visão e tato, isto é, a passagem da percepção da segunda à da terceira dimensão, permanece no cerne do trabalho contemporâneo sobre a percepção visual.

2. Sem descuidar da análise textual e contextual, que mostra o imaterialismo como momento aparentemente cético de uma estratégia contra o ceticismo e o materialismo das filosofias da representação, sua finalidade apologética e sua inscrição nos debates sobre os infinitesimais e o problema de Molyneux, privilegia-se a percepção enquanto tal e, nela, o papel da imaginação e de seu efeito de sugestão.

3. Sendo as modalidades sensíveis heterogêneas, a imaginação, apoiada na aprendizagem e na experiência, antecipa a corroboração do visual por um tato virtual e estende essa conexão a todos os sentidos e ao mundo, constituindo uma semântica natural na qual o pensamento da coisa não resulta de abstração, mas está imediatamente conectado ao tangível, de modo que o poder de sugestão da imaginação constrói o espaço e põe as coisas, preenchendo uma expectativa inscrita na percepção visual.

4. O estatuto epistemológico dessa construção do mundo exterior é problemático, pois num berkeleyismo estrito a sugestão tem valor adaptativo sem garantir sua verdade, somando-se à imaginação a linguagem que coisifica agregados de ideias sensíveis e produzindo a ilusão da substancialidade do mundo, mas da filosofia da sugestão emerge uma direção mais moderna, segundo a qual só é ilusório tomar as coisas tangíveis como objetos imediatos da visão, não como objetos mediatos e perceptíveis, permanentemente disponíveis e confirmados pela experiência intersubjetiva, de modo que a ideia se torna coisa pública dotada de consistência semiótica.

5. A epistemologia da conexão, quanto à sua necessidade, ao papel da imaginação e da experiência, ao estatuto do perceptível e à analogia entre sugestão e significação, permanece obscura, dividida entre um tradicionalismo teleológico, empirista e cartesiano e uma teoria semiótica da imaginação que antecipa Kant e Fichte e constitui o elemento mais especificamente berkeleyano do imaterialismo.

6. À primeira vista, a conexão berkeleyana parece antecipar Hume, não apresentando necessidade alguma e resultando apenas de uma experiência sem legalidade intrínseca, de modo que a imaginação seria reprodutiva e a exterioridade, apenas sugerida por ideias visíveis sem semelhança com a distância, seria significada como as palavras significam as ideias, assim como as leis estabelecidas da natureza se conhecem pela observação e não por conexão entre ideias.

7. A conexão entre o visual e o tangível, entre o presente e o remoto ou futuro, não é necessária, mas tampouco é ilusória, pois obedece a uma ordem que é a mesma da relação de significação, cuja natureza se torna assim a questão decisiva, parecendo arbitrária num primeiro plano e revelando-se necessária num segundo, sendo nesta medida modelo da conexão entre visível e tangível.

8. Como nenhuma semelhança ou necessidade liga o visível ao tangível, assim como o som ao sentido ou as letras aos sons, a correlação entre signos e coisas resulta de uma aprendizagem que se esquece, levando a crer que as palavras não são de instituição humana, e a sugestão do tátil pelo visível é um dispositivo com que Deus provê o homem para informá-lo e adverti-lo.

9. As conexões da língua contêm, porém, uma parte de necessidade negativa, pois, como a letra não pode deixar de evocar o som nem o som o sentido, também o visível remete inevitavelmente ao tangível, de modo que o arbitrário do signo significa apenas a crítica do cratilismo e a recusa de uma natureza comum entre signo e coisa, sendo a conexão instituída arbitrariamente pelo Autor da Natureza, mas inevitável para uma imaginação que não tem consciência de suas operações e cujo poder construtor se apresenta negativamente como esquecimento.

10. Uma vez aceito o arbitrário principial da representação dos sons pelas letras, a relação entre ambos deixa de ser arbitrária, e analogamente, no nosso mundo, os raios de luz dados à vista não podem deixar de acompanhar-se da sugestão das coisas táteis, de modo que o signo linguístico é mais que um modelo, sendo a única maneira de descrever a sugestão e fazendo da visão o significante natural do mundo e das coisas tangíveis seu significado, na Linguagem Universal da Natureza.

11. A percepção contém em sua finitude recursos suficientes para instituir a realidade de que necessita a inteligência humana, dispensando o recurso a Deus e aproximando Berkeley de um Leibniz de princípios arquitetônicos, de Kant, pela função transcendental da imaginação que torna possível a afinidade dos fenômenos, e de Fichte, para quem a imaginação já habita a percepção e põe inelutavelmente o não eu, bastando a análise da representação para estabelecê-lo como resistência ao eu e tornando hiperbólica e impertinente a dúvida sobre sua realidade.

12. Para não cair num realismo banal, é preciso articular a passagem inelutável do eu ao não eu, questão que Fichte resolve por uma imaginação realizante pela qual o percepto se coisifica e a percepção alucina a coisa, e que em Berkeley corresponde à busca do lugar de origem da compenetração imaginária da vista e do tato, considerada o nó de toda a teoria óptica e apreendida na raiz pelo enigma da inversão das imagens retinianas.

13. A teoria berkeleyana descobre uma alucinação originária em sentido próprio que converte o tátil em visual, pois a retina, o cristalino, os raios e as imagens que neles se formam são coisas de natureza tangível, de modo que a imagem retiniana, apreendida apenas pela imaginação quando se supõe captada pelo olho, não é objeto próprio da vista, permanecendo sem solução o problema da inversão.

14. A ficção extraordinária em que o espírito se dispõe a ser enganado pelas sugestões da imaginação tenta representar o irrepresentável e colmatar o hiato entre percepto e alucinação, apontando para uma indistinção originária, ontológica e não epistemológica, entre visível e tátil, efeito de uma imaginação ativa no estrato mais profundo da percepção, que torna a conexão necessária, incorrigível e indestrutível por situar-se aquém da consciência, da vontade e da desconstrução conceitual, operando inconscientemente tanto na neurofisiologia da percepção quanto sobre o capital de experiência não tematizada da espécie humana.

15. O perceptível não percebido, aparentemente inconciliável com o esse est percipi e frequentemente tomado como prótese divina, define-se como o objeto próprio da imaginação, já que as coisas não atualmente percebidas são significadas ou sugeridas por ela e só por ela são percebidas.

16. Conexão, contiguidade e repetição são em Berkeley dados e operações quase transcendentais e não procedimentos psicológicos associacionistas, sendo a conexão entre visão e tato a célula germinal da realidade e da ordem do mundo, cuja pregnância imediata, anterior às induções que a experiência nela funda, é um fato categorial ou pré-categorial do espírito.

17. Um signo pode sugerir seu correlato como imagem, efeito ou causa, mas, mesmo onde não há semelhança, causalidade ou conexão necessária, duas coisas percebidas juntas podem sugerir-se ou significar-se mutuamente, sendo apenas a conexão como tal a causa desse efeito.

18. A conexão é tanto a sede possível do engano quanto da verdade e da confirmação, pois conexão, contiguidade e repetição são conceitos topológicos que preexistem à experiência e aos critérios epistemológicos e desenham a cartografia originária do espírito, organizado em parte como a percepção, por exemplo pela distinção figura-fundo, e também temporal, dado que o perceber juntos e sempre denota simultaneidade e permanência, como na protointuição brouweriana da díade temporal.

19. Sendo a conexão a relação mais primitiva, imposta pela percepção e pela mente a tudo o que apreendem e estendida como pressentimento ao que não se dá imediatamente, a imaginação, conatural aos sentidos e ao intelecto, é o veículo de sua difusão e faz da percepção uma operação interpretativa que se desdobra em expectativa, como mostram as perspectivas sucessivas de Husserl e a mudança de aspecto em Wittgenstein, experiência sui generis na qual a interpretação pela imaginação começa no seio do sensorial.

20. A unidade objetal de vista e tato e o sentimento de exterioridade constroem-se, antes da reificação linguística, por uma imaginação naturalmente conectante e realizante que cria espontaneamente as coisas e as interpreta como reais, de modo que a desconstrução da pseudoimediatidade não atinge a unidade mediata dos objetos e o imaterialismo ideal dispensa Deus, pois é a própria crença, que não pode perceber-se como tal, que fabrica a fina película do mundo, sendo crer menos e outra coisa que coisificar, isto é, simplesmente dar consistência a partir do sujeito.