0 Introdução

GABRIEL, Markus. Der Sinn des Denkens. Berlin: Ullstein Verlag, 2018.

1. O ser humano é o animal que não quer ser um, porque em algum momento começou a refletir sobre quem ou o que verdadeiramente é, e, por ter uma imagem implícita ou explícita de si, reivindica opiniões sobre a boa vida, de modo que a ética, que reflete sobre como seria uma boa vida, apoia-se na antropologia, que investiga como o ser humano se distingue dos outros seres vivos e do âmbito inanimado do universo.

2. A imagem do ser humano e os valores estão estreitamente ligados, pois um valor moral é um princípio que distingue ações boas, que devem ser, de ações ruins, que não devem ser, havendo espaço também para ações moralmente indiferentes, como passar manteiga no pão, e para ações más, como a crueldade com crianças, que, ao contrário de pequenas incorreções como uma mentira inocente, minam inteiramente o sistema de valores em que surgem, como mostra o ditador totalitário sádico que precisa de vigilância total por não poder confiar em nada nem em ninguém.

3. Enquanto houver profunda incerteza sobre quem ou o que é o ser humano, não se pode calibrar corretamente o sistema de valores, e por isso, sem que os outros seres vivos, as plantas ou a matéria inanimada sejam moralmente irrelevantes, avaliar o que devemos ao resto da realidade exige perguntar quem somos verdadeiramente e quem queremos ser no futuro à luz dessa verdade.

4. É impossível determinar o ser humano de um ponto de vista neutro, porque toda determinação do ser humano é uma autodeterminação que não se limita a fatos naturais, já que ele é um ser vivo espiritual, e espírito é a capacidade de conduzir a vida à luz de uma representação do que o ser humano é, o que se manifesta na busca de uma felicidade que, filosoficamente, designa a vida bem-sucedida sem padrão universal catalogável, sendo possível apenas indicar suas condições gerais, que são os direitos humanos.

5. Na era digital o conceito de ser humano está em jogo, pois o antigo privilégio humano de resolver problemas de maneira inteligente passa a ser mais bem exercido em muitas áreas por máquinas que os próprios seres humanos construíram para facilitar a vida e a sobrevivência.

6. Desde sua primeira grande fase em Atenas, berço também da primeira democracia, a filosofia tem a tarefa de expor os enganos no mercado de ideias, hoje a internet, daí o lema pensar primeiro, digital depois, versão atualizada do apelo kantiano do Esclarecimento a ter coragem de servir-se do próprio entendimento, urgente em tempos de sistemas globais de propaganda que submetem o pensamento conectado ao ritmo dos anúncios e lançam as postagens em confusão e alvoroço.

7. A primeira tese central sustenta que o pensar é um sentido, como ouvir, sentir, saborear e o sentido de equilíbrio, contra a representação difundida de que pensar é um processamento de informações replicável em silício ou outra matéria não viva, pois computadores pensam tão pouco quanto as velhas pastas da burocracia analógica, sendo programas apenas sistemas de administração de dados úteis para reservar voos, resolver equações, traduzir, escrever livros ou enviar e-mails.

8. A inteligência humana é ela mesma um caso de inteligência artificial, pois o pensar humano não é um processo natural compreensível sem sua parte espiritual, como os processos no Sol, a órbita da Lua ou as tempestades de areia, e tudo o que tem parte espiritual é produzido por seres vivos humanos.

9. O ser humano é consciente de sua condição e orienta a vida pela possibilidade de intervir intencionalmente em suas condições, dispondo por isso de uma técnica refinada de melhoramento das circunstâncias de vida, conexão cuja raiz está em sermos produtores de nossa própria inteligência, moldada por condições socioeconômicas e desenvolvida há milênios em alta cultura, de modo que nosso espírito, isto é, nossa autodeterminação, é uma inteligência artificial registrada primeiro na escrita e antes transmitida por discurso oral, obras de arte e rituais, transmissão que nos confronta com a pergunta sobre quem queremos ser.

10. A vida humana gira há milênios em torno da pergunta sobre o que é o ser humano, e uma das respostas mais antigas, a fórmula aristotélica zoon logon echon, define-o como o ser vivo que dispõe de linguagem, pensamento ou razão, conforme a tradução.

11. Esse suposto privilégio distintivo está em jogo na era digital, a ponto de Luciano Floridi ver na inteligência artificial uma profunda humilhação do ser humano, comparável às revoluções do heliocentrismo, da teoria da evolução de Darwin e da exploração freudiana do inconsciente.

12. Computadores que levamos conosco, como smartphones, smartwatches e tablets, há muito superam a maioria dos seres humanos em inteligência em situações simuladas, jogando xadrez e Go melhor, organizando viagens, vasculhando a internet, conhecendo a temperatura de qualquer lugar, encontrando padrões em enormes volumes de dados e realizando provas matemáticas que os melhores matemáticos só compreendem com muito esforço.

13. Diante desses progressos, cientistas, futurólogos, filósofos e políticos especulam sobre quando a infoesfera, como Floridi chama o ambiente digital, atingirá uma consciência planetária independente do ser humano, e alguns, como Raymond Kurzweil, herdeiro de Marvin Minsky, temem uma singularidade ou superinteligência, enquanto Bill Gates e Stephen Hawking alertaram para uma explosão de inteligência em que as máquinas tomariam o comando e poderiam exterminar a humanidade.

14. Outros consideram isso bobagem e julgam a infoesfera tão inteligente quanto nossos sapatos, como John Searle, pioneiro da filosofia da inteligência artificial, que há anos argumenta que computadores não podem realmente pensar e que a probabilidade de algum dia obterem consciência é exatamente zero.

15. A verdade provavelmente está no meio, pois a revolução digital não leva nem ao futuro distópico de O Exterminador do Futuro ou de A Possibilidade de uma Ilha, de Houellebecq, nem à solução de todos os problemas humanos esperada por Frank Thelen, já que algoritmos melhores não vencerão a fome e a falta de água, para as quais a indústria digital até contribui com o descarte acelerado de aparelhos, a exploração de regiões pobres, o uso de plástico e o enorme gasto de energia de cada clique e e-mail, de modo que os computadores acentuam, em vez de resolver, nossos problemas morais.

16. O progresso tecnológico pode melhorar rapidamente a medicina e as condições de vida nas sociedades industriais, mas a digitalização traz como dano colateral guerras e ataques cibernéticos, fake news, alienação social pela disponibilidade contínua e pela nova esfera pública das redes, além de escândalos de escuta na era Obama, propaganda por Twitter na era Trump, robôs eleitorais que minam a democracia, atentados planejados na internet e o vasto aparato chinês de vigilância e sanção do comportamento on-line.

17. Para desemaranhar o novelo conceitual, a primeira proposição antropológica central afirma que o ser humano é o animal que não quer ser um, o que explica a confusão corrente do pós-humanismo e do trans-humanismo, movimentos que se despedem do ser humano e dão boas-vindas ao ciborgue, composto de partes animais-humanas e técnicas.

18. Pós-humanismo e trans-humanismo, disseminados sobretudo na Califórnia, julgam que o ser humano pode ser superado e substituído pelo super-homem invocado primeiro por Nietzsche, não sendo por acaso que a tecnologia norte-americana o adote, já que super-homens e super-heróis pertencem à cultura pop difundida por Hollywood, que sugere ser possível romper as correntes terrenas dos mortais rumo a um futuro infinitamente melhor.

19. Baudrillard lembra o rumor de que Walt Disney teria se deixado congelar para ser ressuscitado num futuro tecnologicamente avançado, pois um dos principais problemas dos animais é a mortalidade, e há muito a técnica se liga à fantasia de vencer a morte, desejo patológico que hoje visa remover a animalidade e tornar-se um inforgue, feito apenas de informações digitais estendidas a todos os âmbitos.

20. Dissolver-se em informações parece permitir rodar o espírito num hardware aprimorado, ideia drasticamente representada na série Westworld, em que um parque temático reúne seres humanos e robôs indistinguíveis deles, a empresa extrai dados de comportamento dos visitantes para aperfeiçoar os robôs e, por trás de tudo, o espírito carregado num servidor de um dos criadores planeja ligar-se a um corpo robótico perfeito, fundindo inforgue e ciborgue.

21. Essa fantasia jamais pode realizar-se, e contra essa fuga da realidade se defende um humanismo esclarecido, baseado numa imagem do ser humano segundo a qual todos, estrangeiros, nativos, mulheres, crianças, homens, comatosos ou transexuais, contam plenamente como seres humanos, ênfase necessária porque o humanismo moderno desde o Renascimento tomou como padrão o homem branco, europeu, adulto, rico e politicamente importante, e até Kant, teórico da dignidade humana universal, encheu seus escritos de suposições racistas e misóginas, o que levanta a pergunta de como unificou ambas as coisas numa só pessoa.

22. A segunda proposição antropológica central afirma que o ser humano é um ser vivo livre e espiritual, capaz de mudar a si mesmo ao mudar sua imagem do ser humano, pois sua liberdade espiritual consiste em que a forma de vida humana determina a si própria, definindo o ser-humano e descobrindo a partir disso valores morais que orientam o agir.

23. Isso não significa que os seres humanos ajam sempre conforme seus valores, pois liberdade é poder agir moral ou imoralmente, mas implica que nada fazemos sem dar normas e direções ao comportamento, e na Modernidade o valor mais elevado deixa de ser buscado numa esfera divina e passa a residir no próprio ser humano, que se conduz ao reconhecer que todos são seres humanos, reconhecendo também, em última consequência, o valor da vida dos animais não humanos, de modo que o humanismo esclarecido exige os direitos dos animais e o cuidado com o meio ambiente.

24. A expressão homo sapiens, introduzida por Lineu em seu Systema naturae, já define o ser humano como o ser vivo que se dirige a injunção conhece-te a ti mesmo, sendo a sabedoria a capacidade de autodeterminação, que não garante agir corretamente, e o oráculo de Delfos considerou Sócrates o mais sábio por compreender que a resposta sobre o que é o ser humano não vem de normas divinas ou cósmicas, mas de nossa autodeterminação, condição que Sartre formulou de modo um tanto enganoso ao dizer que estamos condenados à liberdade.

25. A autodeterminação humana se realiza em duas esferas, uma em que somos, queiramos ou não, animais de determinada espécie, cujo conhecimento está insuperavelmente ligado a parâmetros biológicos, sem sermos deuses, anjos ou programas rodando no wetware do sistema nervoso, e outra em que, ao contrário dos seres intermediários entre a humanidade e o resto do zoológico de que fala Durs Grünbein, somos seres espirituais cujo sentido do pensar, formado pela reflexão e pela linguagem, nos põe em contato com infinitas realidades espirituais.

26. Como observou Saul Kripke, a realidade não deve ser confundida com o gigantesco objeto disperso que nos circunda, pois não coincide com o sistema material-energético do universo, sendo real aquilo sobre o que podemos nos enganar e que, por isso mesmo, podemos apreender como é, de modo que o pensar é real tanto quanto sentimentos, unicórnios em filmes, bruxas no carnaval e no Fausto, dores de barriga, Napoleão, vasos sanitários, a Microsoft e o futuro, como exposto em Por que o Mundo Não Existe.

27. A globalização da produção de mercadorias e a conexão digital dos serviços de notícias geram um perigoso impulso ideológico, sendo ideologia uma concepção distorcida do ser humano com função socioeconômica, em geral a justificação implícita de uma divisão injusta de recursos, que hoje nos faz crer a todo instante que a realidade poderia ser inteiramente diferente do que pensamos, sob os slogans da era pós-fática, das fake news, dos fatos alternativos e da pós-verdade.

28. Chega-se assim à era da bela nova metafísica, entendida como teoria da realidade no todo que distingue um mundo real, o ser, da aparência e do engano em que os seres humanos supostamente caem, era inteiramente metafísica por apoiar-se na ilusão de que a vida, em suas facetas mais importantes, é uma ilusão quase ou totalmente impenetrável.

29. Essa ilusão de que a realidade é ilusão desvia a atenção do que realmente ocorre, a saber, que a revolução digital é consequência da sociedade moderna do saber, que passou do ideal iluminista de unir todas as formas de saber numa educação do gênero humano ao positivismo do século XIX, segundo o qual todas as conquistas espirituais relevantes se encontram nas ciências naturais e tecnológicas, de modo que a metafísica dominante hoje é o materialismo, tanto como doutrina de que tudo é matéria quanto como concepção ética de que o sentido da vida está no acúmulo de mercadorias e em seu aniquilamento prazeroso.

30. Sociopoliticamente, o materialismo corresponde à ideia de que governar é sobretudo trabalhar com metas de desempenho para distribuir melhor os recursos materiais e permitir ao maior número possível de cidadãos o prazer do desperdício, o que reforça a imagem materialista do ser humano.

31. A revolução digital está estreitamente ligada aos instrumentos de vigilância da Modernidade, pois surgiu de projetos militares da Guerra Fria, como recontado na série The Americans, e as grandes empresas de internet são plataformas de propaganda que pressionam a mídia tradicional, obrigada a disputar a atenção do público com comentários fortes e escândalos.

32. Mais que descrição social, trata-se de revisar filosoficamente os erros de pensamento subjacentes à ideologia materialista atual, sobretudo quanto ao próprio pensar, já que a ideologia é um vírus espiritual que ataca imperceptivelmente os fundamentos da saúde até arrebatar alguém, sendo necessário, nos termos de Peter Sloterdijk, um coimunismo, isto é, o fortalecimento do sistema imunológico espiritual contra a falsa ideia de que não podemos conhecer a realidade e de que ela talvez já nem exista na era da internet.

33. É preciso lançar-se conscientemente na boca do leão, a era dos reality shows e da sociedade da internet, para recuperar um sentido para o próprio pensar que proteja do erro de supor que estamos prestes a desfazer o ser humano e ingressar numa era paradisíaca de digitalização total.

34. Segundo a tese nooscópica, o pensar é um sentido ao lado de ouvir, ver, sentir, saborear, cheirar e o equilíbrio, por meio do qual espiamos o infinito e podemos representá-lo matematicamente, e, ao contrário dos outros sentidos, não se limita aos arredores próximos, podendo referir-se, pela mecânica quântica, a outros universos ou apreender a estrutura matemática fundamental do universo na física teórica, ultrapassando a realidade corporal e ligando-nos ao infinito.

35. Essa tese se opõe à representação corrente de que o aparato mental consiste apenas em percepções desencadeadas pelo mundo exterior e cognições surgidas da ligação interna dessas percepções, pois não é verdade que um mundo exterior excite as terminações nervosas e produza no fim uma imagem sem relação com ele, já que a vida espiritual não é uma alucinação dentro do crânio e o sentido do pensar nos põe em contato com muito mais realidades do que parece à primeira vista.

36. É preciso eliminar o erro fundamental da teoria moderna do conhecimento, a cisão sujeito-objeto, segundo a qual sujeitos pensantes estariam diante de uma realidade à qual não pertencem e que não poderiam conhecer em si mesma, quando na verdade somos parte da realidade e nossos sentidos são mídias reais que não distorcem uma realidade independente, mas fazem contato entre o real que somos e o real que não somos, sendo intersecções, como também o pensar.

37. Intersecções possibilitam a comunicação entre diferentes campos de sentido, como na experiência visual de um boneco vodu de Berlusconi comprado na loja de um museu português, visto de um ponto de vista que exige cérebro intacto, vigília e memória para reconhecê-lo, mas para o qual a presença real do boneco é tão essencial quanto o cérebro.

38. A percepção em cores só é possível porque os receptores de cor foram selecionados ao longo de milhões de anos de evolução, e a visão é uma intersecção que comunica o campo da física, onde se investigam radiações, com o campo da vida consciente, onde se compram e se veem bonecos vodu, sendo a visão e o ponto de vista subjetivo tão reais quanto a radiação, o boneco e as partículas elementares que o compõem.

39. O pensar também é uma intersecção real, que nos liga em parte a realidades não materiais, como números, justiça, amor, eleições, o belo artístico, verdade e fatos, mas também mantém contato direto com sistemas material-energéticos, razão pela qual podemos refletir sobre eles.

40. Aquilo que pensamos, os pensamentos, não é nada material, e o imaterialismo afirma que não há apenas um sistema material-energético, o cosmos físico, pois pensar é apreender pensamentos, que não são estados cerebrais nem processamento de informações fisicamente mensurável, embora os seres humanos não pudessem tê-los sem estar vivos e em estados cerebrais ou corporais.

41. A combinação dessas teses leva à segunda tese central, o externalismo biológico, segundo o qual as expressões que descrevem e apreendem nossos processos cerebrais se referem essencialmente a algo biológico, donde se conclui que não pode haver verdadeira inteligência artificial no sentido comum, já que os sistemas de processamento de dados, incluindo a internet, não pensam por não terem consciência, o que não os torna menos perigosos nem o debate sobre a digitalização menos urgente.

42. É preciso recuperar o sentido do pensar e protegê-lo da ideia equivocada de que ele seria um processo ou cálculo realizado por um computador cerebral no crânio, replicável e simulável com exatidão, pois simulações do pensar não são pensar, assim como um mapa Michelin da França não é a região que retrata, e aquilo que se chama inteligência artificial é inteiramente real, só que não é inteligência, e justamente por isso é perigoso.

43. Um perigo subestimado da digitalização está em que a autocompreensão humana se orienta por um modelo de pensamento enganoso, pois ao supor que a tecnologia de dados avançada conquista automaticamente o espaço do pensamento humano, fazemos um falso retrato de nós mesmos e atacamos o núcleo de nosso ser humano.

44. Em toda época de novas descobertas tecnológicas difundiu-se a ideia de que os artefatos poderiam assumir o controle, à maneira do animismo, crença na animação universal da natureza hoje chamada panpsiquismo, mas a inteligência artificial não é um ataque externo, e sim interno, pois somos nós que nos atacamos ao fazer dos artefatos uma imagem falsa e anímica.

45. Desde sempre o ser humano concebe o próprio pensar como algo vindo de fora, concedido por deuses, por Deus ou por extraterrestres, como em 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Prometheus, e esse longo hábito histórico-cultural facilita imaginar processos de pensamento em sistemas não vivos, superstição a ser superada, pois atribuir inteligência a um smartphone e não a um polvo ou a um pombo é um erro de consequências morais fatais para os seres humanos, os outros seres vivos e o meio ambiente, sendo urgente restaurar um contato realista, não extraviado pela ficção científica, com o sentido humano, demasiado humano, do pensar.