I. ABORDAGENS FENOMENOLÓGICAS
A. Em sua forma mais evidente, a ação
— implica um devir
— provém de um agente
— afeta um paciente
B. Nela se revelam graus que podem ser agrupados em duas grandes categorias:
1. Ação transitiva: ocorre uma passagem entre um agente e um paciente claramente distintos.
a) primeiro grau: o agente alcança apenas superficialmente um efeito pouco duradouro. O agente é, então, a causa do devir e do termo da ação que induz.
b) segundo grau: indução mais radical (in genus, gerar). O agente é, então, causa do devir, mas não, como tal, do termo existente; ele apenas transmite, dá origem, assegura o início (responsável pelo que acontece, não pelo que é).
2. Ação imanente: a ação que emana do agente não sai dele. A imanência, no entanto, também tem seus graus.
— o devir é interno, mas ora o ponto de partida, ora o termo, estão no exterior (ex.: alimentar-se, assoar o nariz, reproduzir-se por geração).
— a ação torna-se cada vez mais recuada: sensação, percepção, imaginação. Distinção que se afirma entre o Ereignis (evento) e o Erlebnis (experiência, o vivido): o Ereignis é transitivo, e o Erlebnis, imanente.
— casos em que o vivenciado se torna muito secreto: concepção de uma ideia (que não se conta a ninguém), inclinação amorosa (que se esconde): operações estritamente interiores e, como tais, que não se expressam necessariamente. Permanece, no entanto, esse paradoxo: que a ação se refere a outra coisa, ou seja, se relaciona com uma realidade coexistente.
C. A linha da ação se prolonga, se a seguirmos em traço pontilhado, a partir e além do que podemos observar em nós mesmos da psique mais imanente.
— no nível de sua abordagem material, a ação
a) envolve um devir
b) remete a um agente
c) implica um paciente
— no nível da psique mais secreta, a imanência é tal que, quando
o ser é-agenciante * a) não há devir detectável 1)
— no nível de um agente cuja ação poderia ser concebida prolongando ao extremo essa linha de imanência crescente, o ato seria aquele, vertiginoso, de um ser vivo (de uma psique, se assim se pode dizer) ultra-imanente: na verdade, nem imanente nem transitivo, mas absoluto. Esse evento (Ereignis), sendo “absolutamente vivido” (Erlebnis), apresenta-se, portanto, à mente da seguinte forma;
AGENCIANTE
N. B. O ato de conceber ou amar ocorre, portanto, de maneira bastante diferente — em termos de rigor existencial — se se tratar de um ser vivo cuja ação é, em si mesma, relativa ao outro e essencialmente relacionada a alguém que não seja ele mesmo; ou se se tratar de um Ser Vivo Absoluto, tal como se pode concebê-lo — sem ainda se pronunciar sobre sua existência —, ligado a nada além de Si Mesmo. O evento, então idêntico à experiência, coincide rigorosamente, no Agente, com a Ação e com seu Desfecho; mesmo em perfeita imanência, a ação não seria menos abrangente em relação a todas as transações (transitivas) que, para nós, recuam os limites de uma influência, pois ela é sem fronteiras. Um tal Agente — concebemo-lo necessariamente — conhece e ama todo o ser sem precisar se ligar, se relacionar intencionalmente a um outro ser. Portanto, devemos pensar que Deus — no dia em que identificarmos esse Nome — conhece e ama de uma maneira muito mais profunda do que nós. Seu conhecimento tem a profundidade de Seu Ser e não precisa, por assim dizer, inclinar-se sobre os seres. Em contato consigo mesmo, Ele está em contato com tudo. Um Ato Absoluto ao qual daremos vários nomes — com razão, aliás —, tomando emprestado de nossos diversos modos de agir (intelectualmente, amorosamente) que nele se encontram, e de acordo com a medida que nele se manifesta, a partir de nossas formas de pensar.
II. CONDIÇÕES DE EXERCÍCIO: CONVENIÊNCIA E CONSONÂNCIA
a) o devir: trama da ação
b) o contato (relação), sem o qual nada acontece
c) a potência satisfatória (do lado agente), adequada a uma potência suficiente (do lado paciente); potência ativa e potência passiva.
d) a “adequação” horizontal de uma potência ao seu ato (considerado isoladamente).
e) a “consonância” vertical de tal ato com a totalização orquestral da ação do ser (no fato de viver).
A sabedoria (metafísica) consiste em situar a ação nessas coordenadas, ao mesmo tempo horizontais e verticais, que representam sua forma existencial.
III. AÇÃO OU PRESSÃO
— Actio est in passo: o que acontece, acontece no paciente, no operado.
— Actiones sunt suppositorum: a ação pressupõe um agente (vínculo estabelecido no nível do paciente e da própria operação, em seu resultado), ou “responsabilidade”, ou colocação em “causa”.
— Actio absoluta: nem “paciente” em que se encontre, nem agente “do qual” ela seja. A ação absoluta se identificaria a si mesma (nem sujeito nem paciente). Ela seria in se e a se.
IV. A ALIENAÇÃO AMEAÇADORA
A. FENOMENOLOGIA DO MAL EM AÇÃO (sofrido ou cometido).
a) na ação transitiva, o resultado está no exterior. O agente se expressa, se expatria, se exterioriza daquilo mesmo que emana de sua ação. Daí a ambiguidade:
— exteriorização que permite ao homem assegurar seu domínio sobre o mundo por meio do trabalho transformador
— esgotamento do homem que nisso dedica suas energias e se desgasta na tarefa.
— acrescentemos: o caráter social do produto manufaturado, que o retira do poder do indivíduo, politicamente submetido a um poder mais forte que a sociedade.
b) o mal se impõe ao observador — fenomenologicamente — sem qualquer conotação moral, como uma realidade cujos três aspectos são os seguintes:
— o caráter penoso da ação para um agente
— o caráter maléfico da ação (suas vítimas, seus culpados)
— o caráter adverso da paixão (fracassos sofridos, etc.).
c) o mal — indesejável — na metafísica. Investigava-se ali o ser; e eis que surge, como uma ferida do ser, uma contrariedade do ser, uma ofensa ao ser, uma negação. Daí as tentações de eludir o problema: o estoicismo, que o nega (fingindo que a paixão não existe); o existencialismo vulgar, que o negligencia (como se agir mal ou ter agido mal não tivesse importância); soluções puramente racionais e teóricas: decide-se não levar o mal em conta. Mas não se suprime aquilo que se estuda mal: então, como dar conta disso?
d) reconhecer o mal e não distorcê-lo, — saber que, ao considerá-lo para defini-lo, não o exorcizamos por isso mesmo, mas evitamos nos enganar com as falsas esperanças dos profetismos e das teorias dos charlatões.
— detectar, além dos sintomas, a causa, delimitar assim sua extensão, avaliá-la de forma realista (mesmo que a salvação pareça impossível e o seja!).
— o mal de agir é mais grave do que o mal de não ter. Reside no fato de que a conveniência ou a harmonia não são respeitadas, nem garantidas.
— o mal analisado não permite que nos iludamos com falsos remédios, que não correspondem nem às suas causas nem à sua extensão (sintomas localizados).
B. O TRABALHO
• A mística do trabalho como uma competição excessiva (não respaldada por uma análise do agir e do sofrer; alienação enganosa).
• O sentido do trabalho tal como emerge da análise fenomenológica:
— o aspecto exaustivo do trabalho não o caracteriza em si mesmo, não prejudica seu valor (o fato de o trabalhador gostar ou não de seu trabalho não determina o valor ou a falta de valor desse trabalho).
— a orientação espontânea do trabalho, no sentido de uma libertação em relação às restrições materiais, que depende do que se possui (equipamento); depois, de uma qualificação técnica (qualitas), em primeiro lugar; e, em seguida, de uma qualificação científica ou teórica.
— esse é o eixo do trabalho: dominar, em última instância, o mundo, possuí-lo em uma Weltanschauung que se identifica com a ambição metafísica da sabedoria (explicando por que se trabalha mesmo no degrau mais baixo da escala e do esforço). Homo faber, homo sapiens; o trabalho não tem outro sentido senão permitir ao homem uma ascensão — uma promoção cujo critério é fornecido no seio da própria ação pelo sentido progressivo da imanência —, integrando o destino pessoal.
— esse é o sentido último do trabalho; vencer uma resistência, em primeiro lugar, com o objetivo de garantir a existência no âmbito da vida mundana e de suas empreitadas; e, por fim, saber por quê — a aquisição de uma visão global na qual tal ocupação se insere. Papel normalmente libertador dos intelectuais.
— mas o trabalho da inteligência também pode tornar-se cúmplice da escravidão, ao se enganar quanto à realidade (a extensão, as causas, etc.) das servidões. Escravidão, no nível do habitus; por falta de bens, de equipamentos, de moradia, de vestuário, etc. Escravidão no nível dos valores qualitativos e da ação; impossibilidade de adquirir tal ou tal qualificação, seja profissional, ética ou intelectual; pressões e opressões sofridas no âmbito da propaganda ou da teoria; condicionamento (com efeito não apenas psicológico, mas filosófico).
C. O LAZER (e o domínio)
— espontaneamente desejado como complemento, como resultado e, portanto, como “fim” do trabalho: libertação, relaxamento.
— libertação que exige um julgamento sobre o que nela pode haver de autêntico ou de ilusório: sobre o que constrange injustamente, ou sobre o que constrange com razão. Julgamento sobre a hierarquia das ações, — já que o lazer também está repleto delas. O que faremos com nosso lazer?
— fazer, isso é, mais uma vez, ocupar-se — de forma transitiva (fazer pequenos trabalhos, movimentar-se, etc.) ou de forma imanente (ler, ouvir, observar, etc.) — e, portanto, adotar orientações que são, ou não, conformes a uma filosofia, a uma visão de mundo endossada ou não pela ciência adequada (“sabedoria-ciência”).
— em seu ápice mais libertador, o lazer se distingue da festa, embora esta possa ser perfeitamente sensata. Fenomenologicamente:
a) a festa se destaca da rotina diária; o lazer pode ser cotidiano.
b) a festa permite a explosão de forças acumuladas: ela as coloca em ação. O lazer é calmo: visa se prolongar, enquanto a festa só pode ser momentânea.
c) a festa ocupa; o lazer liberta. A pessoa é tomada pela festa; dispõe do lazer. Consequência à qual voltaremos: a festa impede o pensamento, o lazer conduz a ele ao questionar as próprias celebrações. Ele se questiona a respeito delas, assim como faz em relação ao trabalho. O lazer é, portanto, um vetor de reflexão.
d) a festa fortalece o laço social — o que o lazer não faz necessariamente, pois pode ser praticado à parte.
e) a festa libera os desejos reprimidos, contidos no dia a dia pela disciplina coletiva ou pela necessidade do trabalho. Banquetes, danças, mascaradas, corridas, jogos esportivos, concursos de beleza ou competições diversas, justas burlescas etc. colocarão em confronto as corporações — as “equipes” — que são ao mesmo tempo aliadas e concorrentes. Brigas e orgias eventualmente encerram a festa — o que não acontece com o lazer. Em resumo, a festa pressupõe o lazer, mas este não se esgota em festejar, não se limita a esse tipo de ocupação que, no limite, o nega.
f) o lazer permite refletir a salvo de influências e a ele aspira, quando a festa termina:
“Como conciliar a necessidade de exaltação, ao mesmo tempo individual e coletiva, de uma vida intensa e plena por algumas horas, com a inquietação e o medo? Os homens sabem que ainda são tão fracos diante da natureza. Como suportar essa contradição? A festa é um risco, uma aposta no futuro. O que se corre o risco de perder ou de ganhar?”H. Lefebvre, Crítica da vida cotidiana, L’Arche, 1958, p. 216.
É para resolver essas questões, ou pelo menos examiná-las, que a liberdade do lazer conduz o homem. Na festa, os membros da comunidade vão, por assim dizer, além de si mesmos e extraem da natureza, da comida, do corpo social e de seu próprio corpo individual “todas as energias, todos os prazeres, todas as possibilidades » (H. Lefebvre, op. cit., p. 216). Mas, se é verdade que, nesse momento, “é o dia da desmedida” e que “tudo é permitido”, se é verdade que se devora, em poucas horas, todo um capital acumulado de provisões, nota-se também que “essa exuberância, esse banquete, essa bebedeira enormes não vêm sem uma profunda inquietação” (ib.). “A comunidade lamentará esse dia de grande folia, no qual devorou sua própria essência e negou suas próprias condições” (ib.).
Não cabe, portanto, ao homem, em sua generosidade ou desejo, ultrapassar um certo limite e conduzir suas celebrações à anarquia (prolongada). Pois uma preocupação com a arca o habita ininterruptamente. Passada a festa, esvaída a exaltação, dispersada a reunião, ele “se vê” diante de uma tarefa — a vida humana — cuja existência e realidade foram suspensas, e não “pensadas” ou ponderadas. A festa surge como um mito, uma fuga mais ou menos descontrolada. Portanto, ela só deve subsistir desmistificada. Seja uma participação no entusiasmo dionisíaco ou um simples parêntese no esforço (descanso!), a festa não dispensa o lazer inteligente e ativo, que consiste em olhar, perceber, observar o que é, no registro mais amplo que existe; em outras palavras, ter uma visão da totalidade, ou seja, filosofar.
g) é nessa perspectiva que a mais elevada libertação humana pode coincidir com uma espécie de retiro, de lazer e de festa. O estado último da ação, além mesmo do que se pode descobrir, consistiria aparentemente em não se agitar mais para ver ainda; mas pati divina — acolher a paixão de Deus, expor-se, em estado de descanso, ao seu influenciar.
Assim, as distinções comuns são superadas: pois ação = lazer e lazer = retiro; mas retiro = contemplação e contemplação = ação; mas ação = paixão; e paixão, alegria — lazer de agir e de se comprometer, com o coração em festa todos os dias.
Seria essa a perspectiva última do engajamento humano na felicidade de agir? Voltaremos a esse assunto ao abordarmos o problema colocado ao homem pelo que é “verdadeiro e bom” (última seção de N.I.P. III, sobre os “transcendentais”).
V. A PAIXÃO E A LOUCURA.
Uma das formas de ser: encontrar-se em processo de sofrimento. Alcance considerável e importância filosófica dessa situação patológica: a ser examinada em uma espécie de metapatologia, que revela seu logos, até mesmo no estado em que aparentemente ele tem menos chances de existir: a loucura. Haveria uma sabedoria da loucura: uma lição filosófica a ser tirada da paixão nesse extremo.
a) o duplo quadro lógico das paixões: por atração (do bem), por repulsa (do mal).
b) a paixão no registro sensível (ou psicossomático) e a paixão do tipo noético (paixão racional em si mesma).
c) o medo (de se enganar), princípio da sabedoria (ciência e filosofia).
d) perspectivas na filosofia da religião: loucura, paixão e sacrifício. Paixão suprema = Ação suprema = Loucura ou Razão?
e) significado (inspiração?) da loucura.
os fatos da loucura e o problema de ambiguidade que eles levantam; significando uma desgraça suprema, mas também — por meio das obras que dela emanam repetidas vezes — convidando a razão a pressentir que no irracional poderia haver uma sabedoria suprema. Uma loucura que estivesse livre das impurezas e das humilhações sob as quais atualmente se curva. Uma paixão suprema, que seria ação suprema, sabedoria culminante.
VI. INSTRUMENTOS E MEDIAÇÕES.
No que diz respeito às ferramentas, aos utensílios propriamente ditos, cf., supra, o habitus em sua relação com o ser (ter). O que nos interessa aqui é a ação: as mediações que ela utiliza para simplesmente ser; examina-se, então, a ação não mais como conveniência, mas como intervenção ou empreendimento, no que ela inclui de meio em ação.
Do lado do termo da ação; medium in quo (o que também se denomina objeto formal e objeto material da ação).
Do lado do agente da operação; medium quo. Meios de que ele dispõe; desde o instrumento, o órgão, o sentido, a razão.
Aplicação na filosofia da religião: meios da fé e meio da fé. A fórmula: Extra Ecclesiam nulla salus, tal como um filósofo pode compreendê-la e necessariamente matizá-la.
Aplicação, por outro lado, à metafísica da sexualidade.