1.C.33 Ponto de partida no "cogito"

A introdução à metafísica, Florent Gaboriau. Em busca do “ponto de partida” (o “Cogito” cartesiano)

1. Embora toda a vida do conhecimento, da técnica à ciência, parta da experiência, justamente por tudo provir dela a experiência não pode ser o ponto de partida específico da metafísica.

2. Como a metafísica deve assegurar fundamento aos demais saberes, ela precisa controlar-se com rigor, e por isso a filosofia se define como a busca do que é primeiro, podendo ser chamada de protologia ou arquelogia.

3. O primeiro pode ser um intemporal de prioridade ontológica ou lógica, isto é, um princípio, ou um temporal de prioridade cronológica, isto é, um começo, de modo que a filosofia se apresenta ora como ciência das origens primeiras, ora como ciência do começo, no sentido platônico do espanto que gera a reflexão.

4. Entre a ciência do caminho e do método e a ciência da Origem Principal há identidade, tal como entre o começo e o acabamento de um mesmo processo.

5. A palavra princípio encerra uma confusão entre o enraizamento originário da filosofia como certeza inicial e tarefa de busca e o fundamento último como certeza final e filosofia acabada, de onde se pode retornar deduzindo o que se havia induzido na subida.

6. O princípio metodológico de subida nada explica, ao passo que o princípio autêntico tudo acaba, mas, cabendo à mesma ciência começar e acabar, a questão filosófica do começo torna-se o próprio começo da interrogação filosófica e exige um exame aprofundado.

O ponto de partida é necessário?

1. O rigor parece exigir que a filosofia encontre um começo bem definido e uma base para seu edifício, embora fenomenólogos e existencialistas sustentem que não há ponto de partida absoluto, pois todo começo remete a outra coisa que o justifique.

2. Contudo, não se parte jamais do nada, e a pretensão de uma filosofia sem pressupostos resulta apenas na inconsciência daquilo de que se parte, constituindo uma forma de charlatanismo filosófico.

O ponto de partida é uma experiência?

1. Toda filosofia deve partir de uma experiência imediata, mas essa experiência varia conforme os homens e nada autoriza conferir ao imediato, como faz Bergson, um valor de realidade que o mediato não teria.

2. Os chamados dados imediatos designam antes um ponto de chegada do que um ponto de partida temporal, como a duração bergsoniana, essência das coisas alcançada apenas por uma intuição que exige penosa ascese.

3. Importa não confundir as experiências, mesmo imediatas, que se estudam com a experiência que seria efetivamente o ponto de onde se parte.

O ponto de partida é a evidência?

1. Declarar que se parte de uma evidência exige precisar qual seja ela, universalmente válida e indiscutível, pois o metafísico não pode conceder-se de início princípios contestáveis, e mesmo os princípios do terceiro excluído e da identidade devem ser postos em questão se tudo deve sê-lo.

2. Nem todas as experiências possuem o caráter de evidência inicial, e sua variedade não pode constituir o ponto de partida, de modo que a fórmula de partir do fundo de tudo só vale se precisar que o ponto de partida é, em todas as coisas, a interrogação que a elas se refere.

3. O pano de fundo de evidências vagas que cada um traz consigo deve ser ultrapassado pelo filósofo em busca de um apoio firme, já que esse fundo pesa sobre todo discurso filosófico desde Aristóteles até Bergson.

O ponto de partida é um fato?

1. Coloca-se a hipótese de um fato primitivo que, uma vez descoberto, tornaria claro todo o resto.

2. Maine de Biran, Schopenhauer, Nietzsche e Fichte sustentaram a unicidade de um fato primitivo, pois a pluralidade de princípios comprometeria o valor da filosofia e a unidade do conhecimento, restando porém saber o que é um fato.

3. Para Fichte, fato é aquilo que não necessita de nenhum raciocínio para ser tido como verdadeiro.

4. Para Maine de Biran, fato é o que se experimenta dentro ou fora de si e envolve necessariamente a relação entre um sujeito que percebe e um objeto percebido, o que relança a questão em novas vicissitudes.

O ponto de partida é o fato de um sujeito?

1. Sendo o fato particular e contingente e o princípio racional geral e necessário, cabe perguntar se existe um ponto de contato em que facticidade e racionalidade coincidam.

2. Para Fichte, o fato, ou antes o ato, que constitui o princípio da filosofia identifica-se com o princípio de sua inteligibilidade como realidade puramente inteligível, ao passo que para Lavelle o fato primitivo indubitável é a própria inserção do eu no mundo.

3. Para Schelling, a liberdade posta como fundamento remete a um fundo sem fundo ainda mais radical, a indiferença, sobre a qual um marxista pergunta se deve ser posta como matéria ontológica.

O ponto de partida é uma “verdade fundamental”?

1. Segundo Gilson, o ponto de partida indemonstrável da metafísica é uma verdade apreendida desde o princípio e como que no interior da razão.

2. Toda metafísica pressupõe uma noção de ser dada à meditação do metafísico.

3. Trata-se da noção propriamente tomista do esse, entendido não como o ente que tem ser, mas como o ato de ser que, compondo-se com a essência, constitui o ente.

4. Nessa noção de ser encontra-se dada e tomada como princípio a distinção, no ens, entre o esse e a essentia.

5. A composição de essência e ser nos entes é sugerida por muitas razões, mas nenhuma a demonstra rigorosamente, devendo ser tida como verdade de simples visão justificada pela excelência do intelecto sobre os princípios que ele próprio põe.

6. Disso decorre que não há ciência da causa da ciência e que as grandes metafísicas evitam confrontar-se nos princípios por partilharem o mesmo princípio entendido de modos diversos, tese inaceitável porque tal verdade não pode ser adotada sem discussão, porque excluiria uma filosofia das ciências e porque recusar o confronto dos princípios equivale a abandonar a partida e minimizar o desacordo.

O ponto de partida é o “Cogito” (sujeito pensante e dúvida metódica).

1. Esse é o conhecido pensamento de Descartes.

2. Para descobrir a verdade em metafísica e encontrar um primeiro princípio perfeitamente evidente sobre o qual edificar a ciência, o espírito precisa começar por desenraizar todos os erros que nele se infiltraram, o que constitui o objeto da dúvida metódica.

3. Essa dúvida não é universal, pois Descartes dela subtrai a prática moral, as verdades da fé e as ideias enquanto ideias, que deveriam ter sido submetidas a uma crítica mais rigorosa.

4. A dúvida propõe-se um fim preciso, a exclusão da própria dúvida e a busca da rocha firme contra a areia movediça, o que supõe de certo modo um preconceito quanto ao resultado.

5. A dúvida funciona como apelo à prudência e à desconfiança intelectual diante das opiniões correntes, chegando à hipótese de um gênio maligno, à maneira de uma introdução moral à metafísica análoga à via purgativa dos místicos.

Sentido do “Cogito”

1. O método cartesiano constitui-se para estabelecer a metafísica e enraizar solidamente a árvore da ciência universal, cujos frutos, porém, se colhem nas extremidades dos ramos que se aprendem por último.

2. O físico termina pela metafísica e nela toma como ponto de partida o próprio pensamento, supondo já Deus como seu autor, de modo que pelo Cogito se julga tocar a realidade e possuir o primeiro princípio buscado.

3. Essa primeira verdade, conhecimento intuitivo de uma natureza simples, o eu como sujeito pensante, satisfaz a regra da evidência, que por meio do Cogito se converte em princípio real de verdade.

4. Nos próprios textos de Descartes, a proposição penso, logo existo, embora primeira e mais certa, não dispensa saber antes o que são pensamento, certeza e existência, e que para pensar é preciso ser.

5. Ao fingir que tudo o que lhe entrara no espírito era tão falso quanto os sonhos, Descartes percebe que ele próprio, enquanto pensava, devia necessariamente ser algo, e acolhe essa verdade inabalável como o primeiro princípio da filosofia.

6. Antes do penso, logo existo, Descartes formula como indubitável a proposição sou alguma coisa, não duvidando de sua existência nem de sua essência pensante, e quanto mais define o cogito, menos ele se mostra aceitável como fato primeiro que se impõe.

7. A passagem em que Descartes conclui ser uma substância cuja essência é apenas pensar, independente de lugar e de matéria e inteiramente distinta do corpo, revela uma longa operação de raciocínio e de silogismos inconscientes sob a aparência de intuição.

8. Da constatação de que nada garante a verdade do penso, logo existo senão a clareza de que para pensar é preciso ser, Descartes extrai a regra geral de que as coisas concebidas clara e distintamente são sempre verdadeiras.

9. Por mais que o gênio maligno engane, jamais fará com que o eu nada seja enquanto pensa ser algo, de modo que a proposição sou, existo é necessariamente verdadeira sempre que pronunciada ou concebida.

10. Restando saber o que é esse eu certo de existir, Descartes recusa a definição de animal racional, que o lançaria numa infinidade de questões, e prefere considerar os pensamentos que nasciam naturalmente em seu espírito.

11. Admitindo apenas o necessariamente verdadeiro, o eu se reconhece unicamente como coisa que pensa, isto é, espírito, entendimento ou razão, coisa que duvida, entende, concebe, afirma, nega, quer, não quer, imagina e sente.

12. Tal é o pacote de certezas que Descartes oferece como evidências simples a aceitar sem contestação no ponto de partida, em dose que leva a hesitar.

13. Para Paul Valéry, o Cogito ergo sum possui grande valor justamente por não ter sentido, já que ninguém precisa dizer eu sou, salvo se tomado por morto, caso em que diria antes eu estou vivo.

14. Descartes, retomando essas palavras com certo embaraço, nega que procedam de um silogismo e afirma-as conhecidas por simples intuição, mas trata-se antes de um ato reflexo, de um golpe de força pelo qual um egotismo lúcido se expõe no teatro do próprio pensamento ousando o Eu.

15. O Cogito é um golpe de força e uma tomada de poder por um pensamento que varre as oposições do objeto e se impõe como essência, sendo esse eu impessoal e universal, idêntico em todos, a razão de seu habitual bom acolhimento.

16. Para Sartre, o ponto de partida deve ser a subjetividade do indivíduo por razões estritamente filosóficas, pois a única verdade absoluta inicial é o penso, logo existo, fora do qual todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de probabilidades sem verdade desaba no nada.

17. A subjetividade assim alcançada não é rigorosamente individual, pois no cogito descobre-se, além de si mesmo, também o outro, tão certo quanto o próprio eu, contrariamente às filosofias de Descartes e de Kant.

18. Resta saber se o existencialismo, mantendo seu ponto de partida fixado no Cogito, consegue escapar ao perigo que Husserl teve a lucidez de reconhecer.

19. Husserl admite que o eu, primeiro objeto dessa ciência, parece ser também seu objeto único, o que ameaça condená-la ao solipsismo.

20. Uma ciência que toma por objeto o eu e a consideração do próprio ser parece fadada a fazer do princípio um centro e, por fim, um recinto intransponível do qual se tenta em vão sair.

21. O pensamento pós-cartesiano segue duas orientações, seja reduzindo o cogito a um fenômeno da experiência natural interpretado em sentido materialista ou subjetivista, seja, com Husserl, ultrapassando essa atitude grosseira por meio de uma epoché que vai além da dúvida cartesiana e a prolonga.

22. Husserl pergunta qual é o eu autorizado a pôr questões transcendentais e observa que não pode ser o homem natural, pois este já se apreende situado no espaço diante de um mundo exterior.

23. Por meio de uma análise reflexiva ou redução transcendental, busca-se ultrapassar o eu empírico rumo a um sujeito transcendental, restando perguntar se esse Eu, princípio de inteligibilidade, é também princípio de realidade e de existência.