FERRARIS, Maurizio. Storia dell’ermeneutica. Milano: RCS Libri, 2008.
NÃO POSSO FAZER DE OUTRO MODO
1. Publicado exatamente vinte anos antes e agora em segunda edição, o livro foi amplamente resenhado, traduzido, reimpresso, adotado em cursos e lido por jovens que nem sabiam ler quando saiu, o que causa ao mesmo tempo prazer e certa impressão, pois algumas ideias mudaram e esse estranho filho de vinte anos às vezes contradiz as ideias atuais com as ideias de então, num confronto difícil com a própria obra, semelhante ao retrato de Dorian Gray, já que as pessoas envelhecem mais que os livros.
2. O que está em jogo é uma estação filosófica inteira, a começar pelo início dos anos oitenta, quando, após o pós-estruturalismo francês, a hermenêutica parecia o caminho certo e talvez o único para a filosofia, numa época de crise da razão em que haviam fracassado os projetos de exame objetivo da realidade e de fundação última, e o filósofo devia tornar-se um misto de etnólogo e psicanalista, cuidando da própria pertença, do próprio trabalho e da própria tradição, diante de uma filosofia vista como algo violento a ser superado, aposentado e condenado, como um velho louco à beira da morte.
3. A hermenêutica respondia perfeitamente a essas exigências, pois Rorty afirmara em 1979 que a epistemologia devia dissolver-se na hermenêutica, Gadamer sustentara vinte anos antes, em Verdade e método, o mesmo quanto à estética, e Vattimo falava da hermenêutica como koiné da filosofia contemporânea, marcada pelo primado das interpretações sobre os fatos, num ar de família cujo pressuposto era que o mundo de objetos sólidos, duros e desagradáveis devia fluidificar-se e assumir um aspecto mais terno, dominado pela arte, pela solidariedade e pela liberdade.
4. Essa versão militante da hermenêutica, mínima na longa história narrada no livro, carregava um ideal político poderoso, o de substituir todo conflito pela negociação, como na tese de Odo Marquard de que a hermenêutica pôs fim às guerras de religião na Alemanha, otimismo maior que o de Pangloss e Cândido somados, muito distante de Pascal, que, nascido na época da Guerra dos Trinta Anos, sustentava a necessidade de unir justiça e força, e certamente não pensava que uma tranquila teoria da interpretação pudesse deter aqueles séculos de ferro mandando todos para casa ler e discutir por correspondência.
5. O desfecho niilista da hermenêutica não era nem é obrigatório, como mostra a reconstrução histórica, na qual a hermenêutica, em sua longa trajetória secular, não manifestou ambição hegemônica nem pulsão niilista ou relativista, ocupando a hermenêutica niilista uma parte modesta diante das relações com a fenomenologia e a epistemologia e do problema da validade da interpretação, ponto sublinhado por Remo Bodei em sua resenha de 1989, que via no livro a única história completa da hermenêutica, livre do tradicionalismo e da suspeita em relação às ciências, e apontava a revisão da distinção entre ciências da natureza e ciências do espírito como necessidade essencial, à qual pretendem contribuir os trabalhos posteriores sobre ontologia social e sobre a distinção entre ontologia e epistemologia.
6. Hoje cabe afirmar com mais força que não é verdade que nada exista fora do texto, mas já então, por lição de Foucault e Derrida, estava claro que os textos não são uma zona cinzenta e infinitamente interpretável, e sim coisas em que se decidem questões de vida ou morte, como sabem os sem-papéis, e a hermenêutica niilista não era a única abordagem, já que Eco distinguia entre interpretação respeitosa do texto e uso, que é abuso, mas a koiné não podia apoiar sua ambição hegemônica nessa versão moderada, pois só se não há fatos, apenas interpretações, a hermenêutica pode tornar-se filosofia universal, pressuposto que guiava também o esboço histórico de Gadamer.
7. A reflexão histórica permitiu relativizar os desfechos niilistas da hermenêutica, mais danosos que benéficos, e mostrar que, para declará-la universal, é preciso fazer afirmações obviamente falsas, como revelou a pergunta surgida após uma conferência de Gadamer em Nápoles, se o ser que pode ser compreendido é linguagem e se então o Vesúvio é linguagem ou não existe, intuição reforçada pela polêmica de 1992 e 1993 em torno da tradução de A vontade de potência, que demonstrou que os trechos cruéis não foram acrescentados pela irmã e pelo discípulo de Nietzsche, mas eram dele mesmo, contra uma vulgata do pós-guerra que fazia dele quase um pensador de esquerda, o que levou a perguntar se é por acaso que quem despreza a objetividade exalta a violência, que Heidegger aderiu ao nazismo e que defensores de um robusto senso da realidade como Russell foram democratas e pacifistas.
8. Assim como a adesão à hermenêutica foi ditada por razões morais, também por razões morais se impôs o distanciamento de seus desfechos niilistas, cujas diretrizes, levadas a um tribunal, produzem resultados preocupantes, pois o diálogo, o consenso e a fusão de horizontes, ideais da interpretação, chamam-se ali acordo judicial, recurso de um culpado encurralado ou de partes exaustas, de modo que causa estranheza que o que na prática é um paliativo seja na teoria um ideal.
9. Transposto ao tribunal, o princípio niilista do primado da solidariedade sobre a objetividade revela-se teorizado também por Roland Freisler, presidente do tribunal do povo hitleriano, e a ironia diante da verdade, adesão distanciada às próprias afirmações, equivale à de uma testemunha que se recusa a dizer toda a verdade, prática frequente mas não um ideal, punida como falso testemunho ou reticência.
10. O princípio de que não há fatos, apenas interpretações, agrada mais ao culpado que ao inocente, e mesmo sem problemas desse tipo as interpretações sozinhas não libertam, sendo duvidoso o princípio niilista que inverte a décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach, segundo o qual os filósofos, depois de tentar mudar o mundo, deveriam interpretá-lo, na suposição de que a interpretação traria a mudança, sem esclarecer mudança de quê, se não há fatos, nem como distinguir entre transformar o mundo e apenas pensar, crer ou sonhar transformá-lo.
11. Era necessário algo sólido capaz de escapar à fuga inconclusiva do tudo é interpretação, um ponto de apoio para interpretar o mundo onde é possível e não interpretá-lo onde não é, encontrado na antítese exata do niilismo, o mundo sensível, pois mesmo admitindo que linguagem, tradição, livros e fábulas infantis interferem no olhar sobre o mundo social, não se compreendia como poderiam interferir na simples percepção de uma lagartixa subindo um muro, intuição que deu origem à longa empreitada de Estética racional, livro de quase setecentas páginas publicado em 1997.
12. O núcleo desse livro estava na revalorização da experiência sensível, recalque absoluto não só da hermenêutica niilista, mas da filosofia da segunda metade do século XX, que combatia o espiritualismo e o idealismo enquanto se ocupava do que há de mais próximo do espírito, a linguagem, o que causava certo espanto em Derrida, fiel à tradição de Hyppolite, Lévi-Strauss e Foucault, pois o holismo linguístico ou conceitual do século XX, compartilhado por amigos e inimigos da ciência, reservava à ciência a percepção e o mundo físico, fazendo parecer quase tão bizarro repensar a estética a partir da aisthesis quanto curar uma doença lendo Descartes e Schopenhauer.
13. Não era possível agir de outro modo diante da dissociação insuportável entre slogans filosóficos e vida ordinária, já que se nega a existência da verdade e se procuram os melhores médicos, se detesta a técnica e se reservam voos em classe executiva, se afirma que os pensamentos condicionam as percepções e se reclama da massa passada ou salgada demais, razão pela qual um pequeno livro sobre hermenêutica, publicado em 1998, tomou distância de todos os projetos de niilismo hermenêutico, e na década seguinte se elaboraram duas distinções conceituais que permitem recuperar a hermenêutica e sua necessidade em muitos campos sem cair em afirmações obviamente falsas.
14. A primeira distinção, entre ontologia e epistemologia, tematizada em O mundo externo, mostra que a hermenêutica, ao dizer que os fatos estão carregados de teorias, confunde o que existe, como um copo de água, com o que se sabe, como que a água é H2O, pois para saber isso são necessários teorias, esquemas conceituais e linguagem, mas não para beber água, notar que molha ou que é transparente, confusão de níveis que autoriza o slogan de que não há fatos, apenas interpretações, e que remonta a Kant, que a iniciou por razões opostas, para combater o ceticismo, com princípios como o de que intuições sem conceitos são cegas.
15. A segunda distinção decorre de que a tese kantiana das intuições cegas sem conceitos explica muito bem a relação com o mundo social, no qual sem categorias pouco se avança, como mostra a estranheza diante de ideogramas indecifráveis nas ruas de Tóquio ou o que seriam um casamento, uma formatura, um funeral ou uma aposta para alguém de cultura radicalmente diversa ou para um castor, que no entanto compartilham o mesmo mundo físico, de modo que a tese se aplica mal justamente ao mundo físico para o qual foi cunhada e muito bem aos objetos sociais, cuja existência Kant nem suspeitava e que só se tornou consciente com Hegel e a grande hermenêutica do século XIX.
16. Nesse quadro nasceram os objetos sociais, as novas positividades de que falava Foucault, e o debate entre ciências da natureza e do espírito, entre hermenêutica e epistemologia, e o surgimento da semiótica refletem a exigência de dar conta do mundo humano, com o mérito enorme de reconhecer o mundo social e dois defeitos maiores, o de confundi-lo com projeção da subjetividade, quando um objeto criado por um sujeito pode depender dele quanto à criação mas não quanto à existência, e o de confundir, na hermenêutica niilista, objetos sociais e físicos, pretendendo que também estes sejam socialmente construídos, de modo que, reconhecida a distinção essencial entre objetos sociais e naturais, a hermenêutica pode e deve ser praticada, sendo tão tolo dizer que tropeçar numa pedra é interpretar quanto supor que um jantar, uma conferência, um museu ou um laboratório dispensam a interpretação.
17. Embora o percurso de vinte anos pareça pouco, talvez uma viagem ao redor do próprio quarto, a atenção às distinções entre ontologia e epistemologia e entre objetos naturais e sociais teria poupado aos grandes filósofos dos esquemas conceituais muitas afirmações incríveis e esforços inúteis, verdadeiros trabalhos de amor perdidos, e reconhecer a necessidade da interpretação na ciência e nos objetos sociais não implica a falácia da interpretação infinita, pois a interpretação deve visar alguma objetividade, sem a qual não se distingue entre interpretar e crer interpretar, entre transformar o mundo e sonhar transformá-lo, já que cedo ou tarde se encontra algo lá fora e é preciso suspender o jogo e concluir que isto é isto, que isto é o que se deve fazer ou o que se fez.
18. Nem as interpretações nem as introduções podem ser infinitas, e julgar-se ao longo dos anos é difícil como no último Davi e Golias de Caravaggio, em que Davi é o pintor jovem e a cabeça de Golias o pintor maduro, além de que rever as próprias posições pode romper laços com amigos e mestres, como na resposta a Vattimo sobre o distanciamento do niilismo hermenêutico, não posso fazer de outro modo, palavras de Lutero na Dieta de Worms em 1521, conhecidas porém por um verso dos Ditirambos de Dioniso de Nietzsche, justamente quem afirmava que não há fatos, apenas interpretações, percurso que permitiu recuperar o que há de útil e importante na hermenêutica e que se espera possa ainda ser aprendido pelos leitores.
19. O livro deve sua existência a Umberto Eco, que numa reunião da revista Alfabeta propôs a redação de um breve manual de hermenêutica e recebeu com paciência sucessivas versões de um texto que se tornara transbordante, e a Mario Andreose, que acolheu sem hesitar e publicou as quinhentas páginas de um desconhecido, numa época em que os livros ainda eram manuscritos a redatilografar, recompor e corrigir com uma paciência e um custo hoje esquecidos.