Espinoza

Baruch d’Espinoza, dito Benedictus de (1632-1677)

J. Russ, N. Baraquin, J. Laffitte. Dictionnaire des philosophes.

O pensamento de Spinoza ocupa lugar singular na história da filosofia por conjugar a crítica radical das ilusões metafísicas, morais e religiosas com uma das concepções mais exigentes da vida filosófica.

O método

O método deve ser entendido antes de tudo em sentido ético — a “reforma” do entendimento designa uma purificação ou ascese, não um procedimento intelectual para atingir o verdadeiro, como em Descartes, mas uma conversão ao verdadeiro bem.

Não pode haver método no sentido intelectual do termo, pois não existe caminho que conduza o entendimento a um conhecimento verdadeiro do qual ele estaria de início afastado.

Da definição do verdadeiro decorrem os imperativos do método: a ideia verdadeira serve de modelo para dirigir-se a outras verdades, daí a necessidade de aceder rapidamente à ideia mais elevada — a do Ser perfeito, ou Deus.

O que é conhecer? Os diferentes gêneros de conhecimento

A teoria dos três gêneros de conhecimento distingue, no primeiro gênero, o sistema das ideias inadequadas, que se inicia pelas sensações ou afecções do corpo.

O segundo gênero de conhecimento é um conhecimento demonstrativo, necessário e universal que, apoiando-se na dedução matemática, forma ideias claras e distintas.

O terceiro gênero de conhecimento conhece pela só essência ou pela causa próxima — é uma ciência intuitiva que exclui toda negação e toda privação.

A definição do erro não passa, como em Descartes, pelo dualismo entendimento/vontade, que Spinoza recusa.

Deus, isto é, a natureza: um imanentismo radical

A filosofia, para Spinoza, começa necessariamente por Deus — a ideia verdadeira por excelência, que não precisa de nenhuma outra para ser conhecida e da qual decorrem todas as demais, é a do ser mais perfeito.

Uma antropologia racional do desejo: crítica do moralismo

A ontologia funda em Spinoza uma antropologia racional do desejo numa perspectiva estritamente determinista — cada modo finito é uma manifestação particular da potência divina.

A ética spinozista: uma libertação pelo conhecimento

A dificuldade central consiste em compreender como uma ética é possível numa ontologia imanentista e inteiramente determinista.

A filosofia política de Spinoza

A filosofia política de Spinoza decorre necessariamente de sua ontologia naturalista e de sua antropologia — é indissociável da ética filosófica, da qual deve permitir realizar a finalidade última: o pensamento livre e a vida verdadeira.

O direito de natureza e o estado de natureza se fundam no vínculo ontológico que une a potência de Deus e a dos conatus — o direito de cada indivíduo é igual à parte de potência que lhe é conferida pela potência da natureza.

O pacto social, engendrado pela necessidade passional de pôr fim à insegurança e ao temor suscitados pelo confronto dos desejos, designa a promessa pela qual cada um se compromete a transferir todos os seus direitos naturais a uma autoridade soberana.