Descartes

SPINOZA, Benedictus de. Renati Des Cartes Principiorum Philosophiae Pars I et II, More Geometrico Demonstratae. Acesserunt Cogitata Metaphysica. Amsterdam: Jan Rieuwertsz, 1663.

1. Ao despertar para a filosofia, o jovem Bento de Espinosa encontra no cartesianismo a grande referência que dominava o panorama das letras e das ciências.

2. Embora francês de nascimento, Descartes viveu na Holanda os anos de sua atividade filosófica mais intensa, ali publicando a maior parte de suas obras e difundindo um pensamento que constituiu um acontecimento intelectual de primeira grandeza, capaz de revirar o saber estabelecido e de abrir perspectivas excepcionais para uma cultura em plena transformação.

3. Espinosa descobriu muito cedo essa doutrina viva e aderiu a ela com rara paixão, vendo no cartesianismo um marco incontornável para quem pretendesse pensar modernamente em meados do século XVII, como atestam o prefácio das Obras póstumas e o biógrafo Colerus, segundo os quais, sem preceptores nem filiação a qualquer filósofo, encontrou nos escritos de Descartes o grande auxílio e a fonte do que sabia em filosofia.

4. A relação de Espinosa com o cartesianismo foi primordialmente de aprendizado, pois, sem jamais ter sido um seguidor de Descartes e divergindo dele em pontos importantes, nunca se empenhou em refutá-lo encarniçadamente, tomando-o como auxílio, guia e mestre, inspiração constante e ponto de partida, o que lhe permitiu mais tarde divergir com a serenidade de quem o havia bem assimilado.

5. Um diálogo duradouro, arguto e respeitoso com o legado cartesiano atravessa toda a obra espinosana, da juventude à maturidade, alcançando sua maior profundidade ao voltar-se para o elemento de base da revolução cartesiana, o método e a introdução da geometria como modelo do filosofar, questão crucial tanto no Tratado da emenda do intelecto, meditação prolongada sobre o Discurso do método, quanto na Ética, que vê no descuido com a correta ordem do filosofar a causa dos maiores erros.

6. O momento mais importante desse diálogo ocorre em 1663, quando Espinosa, aos 31 anos, publica sua primeira obra, os Princípios da filosofia de René Descartes demonstrados à maneira geométrica, acompanhados dos Pensamentos metafísicos.

7. A obra nasceu de um curso de física cartesiana ministrado ao jovem Johannes Caseário com base na segunda parte dos Princípios da filosofia e, por insistência dos amigos, foi completada com uma exposição da metafísica cartesiana e um longo apêndice sobre temas escolásticos à luz de Descartes, sendo revista e editada em Amsterdã por Luís Meyer e publicada com seu prefácio, uma poesia-dedicatória, duas partes completas, uma terceira incompleta e os Pensamentos metafísicos.

8. O prefácio de Meyer, chancelado por Espinosa, mede a importância do cartesianismo na renovação filosófica moderna e constitui o melhor documento sobre as relações entre espinosismo e cartesianismo, ao narrar que Descartes, o astro mais esplêndido do século, deu à filosofia fundamentos inabaláveis com ordem e certeza matemáticas, mas sem seguir a via dos Elementos de Euclides, razão pela qual Espinosa se propõe expor geometricamente uma filosofia geométrica na origem mas carente do devido rigor, demarcando-se claramente do francês por uma via diferente da aberta por ele.

9. Para Descartes, uma obra é geométrica quando procede com ordem, o que pode realizar-se pela análise, que mostra a via da descoberta, ou pela síntese, que demonstra por definições, axiomas e teoremas, e embora considerasse ideal começar pela análise e demonstrar depois sinteticamente, sempre preferiu a análise, alegando a obscuridade dos princípios da metafísica, mas na verdade porque a síntese exigiria partir de Deus como causa e princípio de inteligibilidade de tudo, o que é impossível num sistema que concebe a divindade como transcendente e inapreensível ao intelecto finito, daí seu percurso invariável da dúvida ao cogito e só então a Deus.

10. Ao demonstrar sinteticamente o cartesianismo nos PPC, Espinosa, fiel ao preceito de não criticar nem corrigir Descartes, reproduz suas teses quase literalmente, mas a nova disposição reduz a importância da dúvida, despe o cogito de seu caráter experiencial e converte a primeira parte numa longa investigação sobre o ser divino, como se desmontasse e remontasse a máquina conceitual cartesiana com as mesmas peças para produzir um funcionamento diferente, resultado alcançado pelo cumprimento rigoroso das próprias exigências metódicas do cartesianismo, levado a um radicalismo talvez excessivo para Descartes, mas ainda cartesiano.

11. Os PPC representam ao mesmo tempo um acerto de contas com o passado e um treino para o futuro, pois em 1663 Espinosa já estava convicto de que as dificuldades cartesianas só seriam superadas por uma via diversa, fiel à mais rigorosa ordem geométrica e livre de compromissos com um Deus transcendente, mas igualmente certo de que todo novo empreendimento filosófico deveria partir do ideal geométrico cartesiano, como confirmará a Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, de modo que o cartesianismo assimilado e fecundado constituiu etapa fundamental na qual o discípulo se fez espinosano e, portanto, mestre.