Ellul

Jacques Ellul (1912-1994)

JACQUES ELLUL ET BERNARD CHARBONNEAU. DIRECTIVES POUR UN MANIFESTE PERSONNALISTE (1935)

Naissance de la conscience révolutionnaire — Nascimento da consciência revolucionária

Um mundo se organizou sem a participação dos homens que nele vivem, obedecendo a leis profundas desconhecidas e caracterizado pelo anonimato — ninguém era responsável e ninguém buscava controlá-lo.

O fatalismo social impunha a cada indivíduo seu lugar nessa ordem, deixando-o desarmado diante das forças que o governavam.

Apesar dessa impotência, sentia-se a necessidade de proclamar certas valores e encarnar certas forças — mas o mundo oferecia para elas um lugar inútil, onde podiam se esgotar esterilmente sem efeito algum.

O problema geral consistia em saber se o valor do homem reside no valor de um homem tomado ao acaso numa sociedade ou no valor da sociedade em que vive.

O problema pessoal consistia em saber se era possível encarnar efetivamente a necessidade interior que cada um carregava — ter uma presa real nessa sociedade em nome dos valores que faziam agir.

A consciência de que esses valores deviam se realizar e eram mais necessários do que todos os outros conduziu ao confronto com o princípio geral vigente — de que o pensamento vale por si mesmo e o mundo é um organismo puramente material.

A cisão do homem em duas partes estanques — “uma voltada para o céu, outra voltada para a Terra” — consagrava a impotência do homem na sociedade.

O materialismo, por sua negação de uma doutrina ou pensamento prévio à vida e à ação, condenava o homem a viver apenas a curto prazo, entregando o resto ao acaso ou ao Estado — a não mais compreender a evolução do mundo em que vivia e a nunca estar só, por estar tomado pela necessidade da matéria, idêntica para todos.

O idealismo, por sua negação do papel das condições materiais e pela entrega à onipotência da ideia, condenava o homem a não mais viver de modo algum — entregando a ação à perseguição de um ideal fictício e contentando-se com uma vida interior cuidadosamente escondida.

De um lado a falsa utilidade, do outro a inutilidade — levando o homem ora a viver ao dia sem se preocupar com mais nada, ora a não agir no mundo porque a ação seria sem importância e a natureza humana, imutável.

Essa constatação levou à luta contra essa divisão e, como ela é fundamental na sociedade atual, contra a própria sociedade — ela impede a realização de toda vocação e, por isso, era inimiga; assim o problema geral e o problema particular se uniam, empurrando para o combate contra a sociedade atual.

Notre définition de la société — Nossa definição da sociedade

Essa definição não é dogmática e não pode se resumir — é mais um conhecimento do que uma definição, resultado de uma exegese dos lugares-comuns da sociedade.

Essa sociedade se caracteriza pelas fatalidades e pelo gigantismo.

As concentrações são também produto das fatalidades — e as fatalidades são produto da concentração: quando o homem se resigna a não ser mais a medida de seu mundo, despoja-se de toda medida.

O movimento de concentração percorreu toda a história como evolução em direção à ordem, mas nunca chegou a um resultado — e não é porque a corrente sempre apontou para a concentração que esta deve ser considerada justa.

O meio de realização da concentração é a técnica — não procedimento industrial, mas procedimento geral.

Por efeito da técnica, a potência criadora se transformou em receitas de aplicação — levada ao extremo, todo sábio e todo artista poderia se converter em uma mecânica que se limitaria a aplicar receitas técnicas e a combinar fórmulas indiferentes e esterilizadas.

A concentração se une às fatalidades no momento em que o homem cessa de ser a medida de tudo — ao aceitar a morte de suas faculdades criadoras, ele dá livre curso à fatalidade; as fatalidades como leis sociológicas nascem da demissão do homem.

A fatalidade empurra atualmente para a concentração — porque é uma corrente histórica que não se pode mais remontar e porque é uma via de facilidade: o anonimato para todos; é mais fácil estar morto do que vivo.

Preuves — Provas

A Técnica domina o homem e todas as suas reações — contra ela, a política é impotente e o homem não pode governar porque está submetido a forças irreais, embora muito materiais, em todas as sociedades políticas atuais.

No Estado capitalista, o homem é oprimido menos por potências financeiras — que devem ser combatidas, mas que são apenas agentes das fatalidades econômicas — do que por um ideal burguês de segurança, conforto e seguro.

No Estado fascista, o homem recebe como ideal final apenas a grandeza do Estado e o sacrifício a ele — tudo deve concorrer para a prosperidade do deus político que reclama todos os sacrifícios porque detém todos os meios de vida.

No Estado comunista, o homem recebe como ideal apenas a produção econômica e seu crescimento — toda liberdade individual é suprimida em favor da produção social.

Nesses três Estados constata-se uma hipocrisia decrescente de um para outro, mas uma igual perversão — exigir o sacrifício completo da vida do homem para um fim desumano e não sobre-humano.

Os três tipos de sociedade igualmente fracassam porque estão atingidos dos mesmos vícios — a concentração acaba, pela complicação que acarreta, por desalinhar a produção; o crédito, por sua abstração, torna irreais os problemas financeiros; o homem, tendo em toda parte apenas uma pequena tarefa determinada a cumprir, é em toda parte substituído na direção pelas fatalidades — ele é proletarizado.

Conséquences — Consequências

Nessa sociedade, o tipo do homem que age conscientemente desaparece — o homem se resigna a não ser mais do que uma máquina que não pode mudar de tarefa, agindo sempre sob as diretrizes de uma abstração.

Ao se abandonar assim, o homem comete o pecado social — o pecado que consiste em recusar ser uma pessoa consciente de seus deveres, de sua força, de sua vocação, para aceitar as influências do exterior.

Cometido o pecado social, todo outro pecado se torna impossível — pois não é mais um homem que peca em pensamento ou em ato, mas o que não é mais um homem: um indivíduo, um fragmento da ordem social estabelecida.

Para um cristão, esse pecado não impede obviamente Deus de agir sobre o homem que o cometeu — mas não se trata daqueles que o cometeram e que o cristão não tem poder de salvar; trata-se do cristão que tomou consciência desse pecado e que, a partir daí, não pode ter outro objetivo, outra vocação humana, senão impedir a existência das condições que tornaram esse pecado possível.

Para um não cristão, o fato de o homem estar desligado de toda vida real para ser submetido a forças abstratas sobre as quais nada pode representa o fato de o homem se tornar em tudo proletário.

A necessidade revolucionária é anterior a nossas pessoas — católicos, protestantes e ateus que creem em forças espirituais necessárias devem colocar em primeiro plano essa revolução, que pode ser a única a justificar as demais.