O tantrismo trai em sua própria estrutura o paradoxo da realidade última e o da condição humana, esforçando-se por ancorar-se no concreto mais fisiológico apenas para em seguida transsubstancializá-lo e redescobrir nele os próprios princípios da Vida Cósmica.
O tantrismo recorre à presença feminina, concreta ou ideal, unicamente para redescobrir a identidade fundamental entre o princípio feminino e o masculino; Shiva diz à Deusa no Mahanirvana Tantra: “Tu, ó Devi, és meu verdadeiro eu mesmo! Não há diferença entre Ti e Mim”.
A doutrina última e mais secreta do tantrismo é a identidade dos contrários: identidade entre Shiva e Shakti, entre Krishna e Radha, entre Buda e a Deusa, em uma palavra a identidade entre o aspecto negativo, não manifesto, da realidade e seu aspecto manifesto.
A libertação e a beatitude consistem na realização dessa unidade de princípios polares no próprio ser; mas, ao contrário das outras “filosofias” indianas, o tantrismo afirma que o homem decaído do Kali-yuga não pode mais obter essa identificação dos contrários apenas pela via gnóstica, metafísica, pela contemplação e pela sabedoria.
O homem do Kali-yuga só pode ser salvo a partir de sua própria condição existencial, que é antes de tudo uma condição carnal, dada a incapacidade de aproximar-se diretamente pelo espírito da realidade última.
A identificação dos contrários realiza-se no tantrismo sob a forma da androginia; o despertar da Kundalini, prática mais secreta e perigosa do tantrismo, significa a união da deusa Shakti com o deus Shiva no interior do corpo humano; esse despertar e essa união obtêm-se por uma prática ioguica extremamente difícil, cujo primeiro resultado é a beatitude permanente e a libertação da dor da existência.
O despertar da Kundalini torna possível uma prática ainda mais complexa pela qual o homem abole a duração temporal e realiza a imortalidade aqui na Terra; tais práticas tendem a unificar, no interior do corpo humano, todas as correntes polares, sejam ritmos cardíacos, respiratórios ou sanguíneos, seja os fenômenos fisiológicos de assimilação e desintegração; em certo momento da prática, o corpo torna-se completamente unificado, como um vaso fechado, símbolo de um Cosmos perfeito e sereno; quem alcança esse êxtase é um jivan-mukta, um “libertado em vida”.