Vazio

DUQUE, Félix. El mundo por de dentro: ontotecnología de la vida cotidiana. Barcelona: Ed. del Serbal, 1995.

1. A época atual é a da técnica absoluta, ou seja, da técnica revelada, onde a essência da técnica, compreendida verbalmente como um desdobramento histórico da articulação do Mundo, se manifesta na correspondência entre as maneiras de ser homem e as maneiras de se dar o ser.

2. A ideia moderna de uma “Humanidade” como denominador comum abstrato e autorreferencial é uma petição de princípio que pressupõe a coincidência entre saber e realidade, e a história como um processo teleológico de identificação de “fatos” com “produtos”, um “solar” (o Homem) que se autoconstrói.

A ÉPOCA DA REVELAÇÃO DA TÉCNICA

3. A “História Universal” moderna, seja na versão otimista de Hegel ou na versão pessimista de Nietzsche, é um “conto” onde Alguém (o Autor) sabe de antemão o desfecho, e onde a natureza é vista como material de construção para a autoprodução do homem, uma ficção (a técnica) que permite ao homem moderno escapar da morte e gozar da vida, fazendo de conta que está em trance de morte.

QUANDO A MODERNIDADE SE PÕE A CONTAR CONTOS

4. A “Lenda” de Hölderlin, ao contrário do “Conto” moderno, não narra uma História, mas um “acontecer” que é um passo, não um passado, e que se nega a fechar-se em Acontecimento, tornando-se uma “contravoz” que quebranta toda palavra com a qual se “fazem coisas”.

5. A “vez” (Mal, vicis) não é um número inteiro, mas a volta que permite o passo sem passar nunca, e a Lenda fundamental, “Era uma vez Deus”, é mal recitada por “Hegel” e “Nietzsche” como uma narração supra-histórica, pois Deus não é um ser que foi e já não é, mas “está morto” (Gott ist tot), ou seja, sua “estância” entre nós se dá como a de um morto, que ainda “obra” através de seus “restos”.

6. A identidade pessoal é sempre pressuposta e oculta por trás de suas manifestações (os “restos” da atividade), e só porque vemos esses restos como apontando para “alguém” é que há linguagem e vida em comum, sendo a diferença entre vida e morte apenas gradual: a vida é uma morte imperfeita, e a morte, uma vida perfeita.

7. O Deus que está morto é a “vez” absurda e atópica que “dá a vez” para que haja lugares, e sua essência é a Morte, que é imortal porque só se dá no mortal, como a Infinitude se dá na finitude, constituindo o homem como o “coração vibrante” do Deus-Morte.

UMA LENDA À BEIRA DAS RUÍNAS

8. Ninguém pode se gabar de ter percebido uma “coisa” em sua presença plena; o que se encontra são escorços, perspectivas que dependem de um “antecipo volitivo de identificação” (projeto) e de um “fundo de provisão” (envio), cujo encontro em cruz é “considerado” como presente, mas não é lícito dizer que “é” o presente, pois seria necessário que um Eu estivesse também presente.

DA IMPERCEPTIBILIDADE DA COISA

9. A “coisa” e o “Eu” nascem de uma ficção (a “transição fácil” de Hume), onde a repetição do cumprimento das expectativas transforma a ansiedade em contemplação e o fundo de procedência em normalidade, e o presente, o Eu e o espaço-tempo surgem como esquemas de referência abstratos, onde o sujeito é, ao mesmo tempo, um fundo sustentador de diferenças e uma pontualidade idêntica a si mesma.

A FORJA DA PRESENÇA

10. A contradição entre o Uno e o Infinito, que se nadificam um no outro, forja o “eu” como uma fronteira vibrátil, um limite que não é propriedade de ninguém, mas o lugar de cruzamento onde a escuridão do Uno se quebra no múltiplo e a diafaneidade do Infinito se adensa como Uno, uma “enérgeia ateles” que espaça e dá tempo.

11. A “salvação” (redenção) recai sobre as “coisas” do mundo, pois, embora nada se entregue em sua presença plena, a operação moderna de converter sucessos/eventos em “coisas” (através da projeção de um Eu) é desfeita pela compreensão do “yo” como o borde móvel que não é substância nem sujeito, mas o limen por onde Uno e Infinito já passaram um ao outro, aniquilando-se mutuamente.

A SALVAÇÃO PELO ANIQUILAMENTO

12. A morte de Deus não é um evento histórico, mas a afirmação de que a essência de Deus é a Morte, e o homem, ao ser o “lugar de passagem” entre o Uno (Ansia) e o Infinito (Fondo), só existe como mortal, e o “Mundo” é o acontecer desse tráfego entre sucessos (potencialidades) e eventos (possibilidades), onde as coisas vêm à “salvação” como coisas.

13. O Mundo não é um “lugar” nem uma “coisa”, mas a Abertura, o Espaçamento que dá lugar às coisas através do homem, e esse “mundo” é o “Vacio” como kénosis (esvaziamento do Uno no Infinito) que é, ao mesmo tempo, plenificação (pléroma) das coisas; a Técnica são as maneiras de dizer e fazer esse Mundo.

ALVORADA DO VAZIO

14. A maneira mais “à mão” de interpretar algo é esquecer o intérprete e a própria doação, como no trabalho circunspecto (umsichtiges Besorgen) dentro do mundo público; porém, frustrações e falhas levam a uma “inspeção de conjunto” (Übersicht) que transforma o mundo em cosmos, um todo de coisas “ante a mão” (vorhanden), regido pela lógica da produção.

15. A metafísica, como uma Técnica ignorante de suas próprias raízes, é desmascarada por Heidegger, e na era atual da técnica planetária, o subjetivismo atinge seu auge e, ao mesmo tempo, seu fim, pois a fusão de praxis e teoria em um entramado global de reprodutibilidade dissolve a distinção entre sujeito e objeto, e a técnica se revela como tecnologia, onde a própria natureza se torna um fundo de provisão e os “restos” são reciclados.

A TÉCNICA COMO METAFÍSICA CABAL (E ACABADA)

16. A técnica moderna não pode ser entendida como uma aplicação neutra de meios a fins, pois os fins não são arbitrários, mas revelam uma necessidade enraizada na tradição e na concessão de eventos; o instrumento não é algo externo, mas a fronteira móvel entre homem e mundo, e a tecnologia atual, baseada na informática, integra simbolicamente máquinas (algoritmos), abrindo o Mundo em sua integridade como um “conjunto” (Gefüge) de redes.

17. A técnica é um “envio” (Geschick) do ser, ao qual o homem “ouve” e corresponde, mas não como um ser passivo; ao contrário, essa correspondência é a condição da liberdade, que não é arbitrio nem adesão a uma ordem racional, mas a copertença de homem e ser no “mistério” (Geheimnis) do Vazio, onde a tradição (o “uso” e a “necessidade”) é o “ar de família” que permite toda comunicação.

18. A técnica planetária, como “organização de recursos escassos” (Organisation des Mangels), faz surgir o vazio do mundo (o Mundo como Vazio) e, ao mesmo tempo, a necessidade de “preencher” esse vazio para evitar a angustia e o aborrecimento, que são a negação da morte; porém, afrontar o Mundo como Vazio significa guardar o mistério da própria mortalidade, a consciência de que o ser se retrai em cada doação.

HEIDEGGER, OU A HABILIDADE PARA ESTOURAR BALÕES

19. A técnica é a abertura de uma região da verdade (Entbergung), mas também é a região da “errância” (Irre), pois o “fracasso” humano e o “dissimulo” do ente levam a tomar o ente como algo disponível, esquecendo o “olvido” do ser; a técnica é, portanto, o “perigo supremo”, o perigo de esquecer o olvido que é o ser.

20. O ser “é” o sacrifício de si mesmo, a retração que doa entes, e os homens devem corresponder “pre-cursando” sua própria morte para manter aberto o Mistério da redenção; a Abertura de Mundo como Vazio se manifesta em quatro modulações fundamentais da era tecnológica: o automóvel, a casa, o jarro e o herói (engenheiro ou poeta), dependendo todas de uma opacidade primordial, a “tierra”, que é a contramanera que finaliza a ontotecnologia da vida cotidiana.