Este seminário realizado em Montreal em homenagem a Jacques Derrida foi concebido com pouca previsibilidade, buscando abrir, através da convergência de três vozes, um espaço de surpresa e acolhimento a uma palavra dada e sobretudo doadora, orientada pela questão “Dizer o acontecimento, é possível?”, que deveria funcionar como a própria lei do seminário e possibilitar uma fala comum advinda de si mesma.
Essa questão funcionava como signo de acolhimento ao mesmo tempo que submetia cada participante à tradução de sua dimensão difícil e desconhecida; os dois textos de abertura da coletânea, “Do acontecimento desde a noite” e “Palavra sem voz”, percorrem por sua própria forma o espaço dessa questão, fazendo dela não um objeto de teoria geral, mas um dizer que brota do possível — havendo acontecimento não a partir do tempo, mas a partir da tensão do próprio possível.
Essa tensão revelada pela questão recusa dissociá-la imediatamente do dizer em proveito do tempo, exigindo que se demarque rigorosamente o acontecimento da história e de toda cronologia que esgotaria sua representação; sendo singularidade irrepresentável e unicidade que desvia o tempo de seu horizonte, o acontecimento constitui um signo do tempo perdido, cuja irrupção, sempre única e inatingível, escapa à história e se impõe como a preeminência daquilo que vem e daquilo que ocorre no próprio enunciado aporético da questão.
Diante dessa aporia, “Palavra sem voz” propõe um dizer não apenas vindo, mas sobretudo vindouro — póstumo, fraturando o plano cronológico e retraindo-se de sua própria voz —, cuja avocalidade póstuma escava um espaço indefinido da língua diante do acontecimento e salvaguarda a possibilidade de uma fala excepcional no próprio instante do acontecimento; nessa perda da voz atenta ao “além-tardar”, que é o lampejo do acontecimento, algo terá tido lugar, vindo ao poema, sendo esse vir ou revir, segundo palavras do próprio Jacques Derrida, uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento.
Jacques Derrida terá respondido a isso retomando o tempo espectral que opera no acontecimento — tempo de uma passagem do espectro que inverte o possível no impossível, sendo o próprio instante da passagem ao ato aquele em que o que chega desfaz a atualidade no próprio lugar de seu surgimento, situando o espectro entre vida e morte como algo que chega sem chegar; essa oposição, que desafia a lógica e se inscreve desde a “manhã do dizer”, faz do acontecimento algo que só chega por ser impossível, permitindo ao pensamento do impossível vigiar o possível e revelando, num ritmo singular e intraduzível — um rosto, uma pulsação, um olhar — a unicidade absoluta que nenhum tempo ou espaço consegue plenamente figurar.