ELLUL, Jacques. A Técnica e o Desafio do Século. Tr. Roland Corbisier. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968
1. Publicado em 1955, o livro de Jacques Ellul sobre A técnica e o desafio do século, cuja tradução brasileira é agora editada pela Paz e Terra, longe de tornar-se obsoleto, adquiriu, ao contrário, nos últimos dez anos, surpreendente atualidade.
2. A leitura da obra só ocorreu em 1966, motivada por observações de Henri Lefebvre em Métaphilosophie e pela leitura prévia de Tecnologia e Civilização, de Lewis Mumford, reconhecendo-se que, até então, prevalecia a visão convencional de que o problema da técnica seria puramente instrumental, sem conotação ética, política, religiosa ou estética.
3. Mesmo a leitura anterior de Spengler, Berdiaeff e Ortega y Gasset sobre a técnica não havia modificado essa visão convencional, e o próprio impacto das bombas de Nagasaki e Hiroshima, apesar do trauma inicial, não conduziu a uma consciência clara do que havia ocorrido, prevalecendo a crença de que o poder destrutivo atômico garantiria racionalmente sua não utilização.
4. As teses de Mumford e de outros autores como Ducassé e Toynbee só foram postas em questão a partir da leitura de Ellul, que contestou tanto a identificação entre técnica e máquina quanto a divisão da história técnica em fases correspondentes aos materiais e energias predominantes, além do prognóstico de passagem da era mecânica para a era orgânica.
5. Sem ser filósofo, mas jurista e sociólogo, Ellul percebeu com clareza tanto o que há de essencial no fenômeno técnico em si quanto o que há de inédito na técnica contemporânea, rompendo com a visão tradicional e apresentando uma perspectiva original que desaloja o leitor de seus preconceitos habituais.
6. Contestando Mumford, Ellul nega a identificação entre técnica e máquina, observando que, embora a máquina seja a técnica em estado puro, é ela que atualmente depende inteiramente da técnica, a qual abrange progressivamente esferas da atividade humana sem relação direta com o maquinário, como a pedagogia, a psicologia, a política e os esportes.
7. Contrariamente à tese de que a técnica seria mera aplicação da ciência, Ellul demonstra que historicamente a técnica antecede a ciência, sendo a magia primitiva já uma forma de técnica, enquanto no mundo contemporâneo é a ciência que se torna instrumento subordinado ao progresso tecnológico.
8. Ao comentar a tese de Mumford e Toynbee sobre a organização como característica da época atual, Ellul observa que organizar equivale a racionalizar, e racionalizar equivale a tecnificar, de modo que a era da organização representa não uma superação, mas uma ampliação da influência da técnica sobre todos os setores da atividade humana.
9. Criticando as definições propostas por Vincent, Fourastié e Friedmann, Ellul estabelece a distinção entre operação técnica, presente em qualquer trabalho por mais primitivo que seja, e fenômeno técnico, que surge quando a consciência e a razão fazem passar para o domínio das ideias claras e voluntárias o que era experimental e espontâneo.
10. Concordando parcialmente com Hegel e Marx quanto à primazia da atividade técnica, Ellul sustenta que a técnica não passa da magia laicizada, operando-se a ruptura definitiva quando preces e ritos são substituídos pela invenção de instrumentos aos quais se transfere a eficácia antes atribuída aos procedimentos mágicos.
11. Contrariando o estereótipo que opõe um Oriente passivo a um Ocidente ativo e voltado à técnica, Ellul demonstra que a técnica é essencialmente oriental, tendo a Grécia considerado a pesquisa técnica indigna da inteligência contemplativa, e Roma elaborado apenas uma técnica jurídica, não material.
12. A tese segundo a qual o Cristianismo teria impulsionado o progresso técnico ocidental é invalidada pela história, pois foi o contato com o Oriente, através de judeus, venezianos e das Cruzadas, que desencadeou o movimento técnico, tendo o Ocidente cristão medieval produzido apenas a técnica intelectual da escolástica.
13. Cinco fatores contribuíram decisivamente para a eclosão do surto técnico a partir do século dezoito: o acúmulo de uma longa experiência técnica anterior, o crescimento demográfico, a estabilidade e mobilidade do meio econômico, a plasticidade do meio social e o surgimento de uma clara consciência técnica.
14. A questão central do livro, desenvolvida no capítulo sobre a caracterologia da técnica, indaga se a diferença entre a tecnologia contemporânea e as anteriores é apenas quantitativa ou verdadeiramente qualitativa, considerando-se esse capítulo o núcleo mais original da obra.
15. Ellul propõe que se considerem não os caracteres intrínsecos da técnica, que permanecem constantes, mas seus caracteres extrínsecos, isto é, sua relação com o contexto social, observando que nas civilizações anteriores a técnica era apenas um momento subordinado a valores não técnicos, religiosos, estéticos ou políticos, enquanto na civilização contemporânea ela se torna a força configuradora da própria totalidade social.
16. Os caracteres específicos da tecnologia contemporânea identificados por Ellul são cinco: automatismo, autoacréscimo, indivisibilidade, universalismo e autonomia.
17. O automatismo consiste na impossibilidade de recusar a solução tecnicamente mais eficaz, deixando o homem de ser sujeito da escolha, o que levaria à destruição do capitalismo por sua incapacidade de absorver o progresso técnico e à consequente superioridade do socialismo nesse aspecto.
18. O autoacréscimo caracteriza-se pela exclusão crescente da intervenção humana, engendrando-se as soluções técnicas umas às outras num processo automático que explica as descobertas simultâneas em diferentes países, tornando-se a própria técnica, e não mais o homem, a causa motriz de seu desenvolvimento.
19. A indivisibilidade ou unicidade da técnica impede distinguir entre a técnica e seu uso, sendo este sempre o único uso possível e não julgável por critérios estranhos ao domínio técnico, revelando incompreensão do problema quem pretende submeter a técnica a padrões éticos ou estéticos externos.
20. O universalismo apresenta duplo momento, geográfico e qualitativo, tendo a técnica conquistado progressivamente todos os povos, de modo que a reivindicação do terceiro mundo por desenvolvimento constitui, na prática, uma exigência de tecnificação.
21. A autonomia representa a última característica, desvinculando-se a técnica de todos os poderes tradicionais para desenvolver-se segundo leis próprias, situando-se além do bem e do mal e tornando-se valor supremo a partir do qual todos os demais valores passam a ser aferidos.
22. Seria inútil assumir posição romântica ou reacionária diante da técnica, sendo o processo irreversível e destinado a invadir progressivamente todos os setores da existência humana ainda livres de sua interferência, tema desenvolvido nos capítulos subsequentes do livro dedicados à economia, política, psicologia, pedagogia, trabalho e propaganda.
23. Reconhecendo parcialmente a validade da tese marxista, Ellul afirma que a técnica constitui o fundamento da economia, tendo o capitalismo inicialmente impulsionado o progresso técnico por corresponder às expectativas burguesas de lucro, tornando-se posteriormente obstáculo a esse mesmo progresso ao restringir a racionalização apenas ao momento da produção.
24. A incapacidade estrutural do capitalismo para empregar corretamente as técnicas conduz necessariamente ao planejamento econômico, não como reivindicação ideológica do socialismo, mas como decisão objetiva imposta pelos próprios fatos, superando-se assim o liberalismo por sua recusa em utilizar plenamente a técnica.
25. A racionalização progressiva da economia exige crescente intervenção do Estado, apagando as fronteiras entre o econômico e o político e reduzindo ambos à dimensão técnica, sendo essa conjunção entre técnica e Estado considerada por Ellul o fenômeno político e humano mais importante da história.
26. Somente com Lênin surgem os primeiros elementos de uma verdadeira técnica política, distinta do empirismo que caracterizara a política até então, pois apenas o socialismo científico, por seu caráter científico, poderia fundamentar uma ação política racional.
27. A conjunção entre técnica e Estado não é fortuita, exemplificando-se pela bomba atômica, cujo custo e implicações de segurança excluem necessariamente sua apropriação privada, constituindo o progresso técnico, segundo Ellul, a principal ameaça ao individualismo capitalista.
28. Por ser imperialista e universalista por definição, a técnica exige planejamento global e compulsório, tornando acadêmicas as discussões abstratas sobre a excelência dos regimes políticos, pois o melhor regime será sempre aquele que melhor souber utilizar a técnica.
29. No último capítulo, dedicado às técnicas do homem, Ellul examina as modificações produzidas pela técnica na vida cotidiana, incluindo a transformação do sentimento de espaço e tempo, a automatização do trabalho, a padronização dos lazeres e a massificação promovida pelos novos meios de comunicação a serviço da propaganda.
30. Ao afirmar que a técnica constitui uma civilização inteira, dotada de ideologia própria, Ellul sugere implicitamente que ela converte meios em fins, transformando valores relativos como saúde e velocidade em valores absolutos autojustificados, o que permite falar propriamente em civilização tecnológica.
31. Ellul conclui dramaticamente que seria vão pretender frear, controlar ou orientar essa evolução, sendo o processo tecnológico irreversível e incontrolável, e podendo-se inferir, do princípio de que só a técnica pode contrapor-se à técnica, que ela é fundamentalmente indestrutível.
32. Permanece em aberto a questão sobre que tipo de homem está sendo gerado nesse universo tecnológico racionalizado, se ainda o homem tradicional ou um ser qualitativamente diferente, interiormente vazio, esgotado na dimensão do cotidiano produtivo e consumista.
33. Reconhece-se a impossibilidade de resistir a essa força universal e totalizante, estando o destino humano tornado inseparável do destino da técnica, força hoje não apenas terrestre mas cósmica, à qual se atribuem os milagres antes esperados da providência divina.
34. Permanece por fim a interrogação final sobre a própria natureza da técnica contemporânea, questionando-se se, sendo a história desvelamento do homem e a técnica o segredo desse desvelamento, não seria ela mesma o instrumento propiciatório da revelação humana.