O livro das ilusões. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2014.
O livro das ilusões é a segunda obra de Emil Cioran. Escrita originalmente em romeno, e publicada pela editora Cugetarea, de Bucareste em 1936, ela nos apresenta um autor de 25 anos “ainda não petrificado no niilismo”[1], como diz Dominique Fernandez.
Visivelmente “menos acabado” do que seus minuciosamente bem construídos livros franceses, O livro das ilusões deixa transparecer uma experiência interior densa e dolorosa, temperada por elãs líricos e transes místicos. Um caminhar fragmentário e extático, que se exprime em ensaio, prosa poética e orações desesperadas, revela um jovem leitor de Nietzsche (Cioran o estudava na “muralha verdejante” de Sibiu) fascinado ora por Barrès, ora por Gide.
Podemos distinguir, no Livro das ilusões, duas questões fundamentais que repercutirão em suas obras posteriores: a da música e a da santidade. Nesse livro Cioran vê a experiência musical como possibilidade de abolição do mundo exterior e a identifica com um tipo de vivência mística sonora e ascensional.
A questão da santidade, por sua vez, é aquela “que se encontra no centro do pensamento de Cioran”[2], como aponta o poeta e ensaísta belga Eugène Van Itterbeek (1934-2012). Anunciada neste O livro das ilusões, ela retornará “quase exclusivamente” em Lacrimi şi Sfinti [Lágrimas e santos], de 1937, e prosseguirá no Breviário de decomposição e em toda a sua obra francesa. Cioran pode ter dado “adeus à filosofia”, lembra bem Itterbeek, “mas não à santidade”[3]. Os santos atraem esse pensador exaltado por manifestarem uma “fisiologia transfigurada”, uma ascese através da dor.
As sensações musicais (e seus êxtases) e a experiência mística dos santos (e sua ascese de lágrimas) povoam essa obra juvenil, que mostra um Cioran habitado pelos seus grandes temas, um ano antes do exílio definitivo na França.
JOSÉ THOMAZ BRUM Rio de Janeiro, outubro de 2013.