Marilena de Souza Chaui
Apresentação à Ética de Espinoza
Fomos acostumados a ler os filósofos do passado com duas atitudes opostas: ou como inteiramente determinados por sua época e, portanto, irremediavelmente ultrapassados, ou como gênios intemporais, como se não houvesse qualquer diferença entre sua época e a nossa. Esses dois hábitos interpretativos rivais são gêmeos, pois ambos esquecem o que são um clássico e uma obra de pensamento.
Um clássico, escreveu certa vez Merleau-Ponty, é aquele que sempre terá alguma coisa a nos dizer porque, ao pensar, nos deu a pensar e, no modo como enfrentou as questões de seu tempo e a elas ofereceu respostas, nos ensina a interrogar nosso próprio tempo. Sua obra é fecunda porque cria, por sua própria força, um campo novo de ideias no qual aprendemos a ouvir uma interrogação que abre caminho para a nossa.
Uma obra de pensamento é um trabalho de interrogação sobre o presente como um não-saber à procura de seu próprio sentido e abertura de um campo de racionalidade novo que não cessará de ser retomado pelas obras de seus leitores. Com frequência, o trabalho do leitor pode nascer de um primeiro encontro com a obra, de uma relação muito imediata e ingênua que mantém com ela, mas que inquieta e provoca indagações. No desejo de encontrar respostas para elas, o leitor inicia um lento trabalho de reflexão que o faz sentir-se quase situado no interior do discurso de um outro que, embora à distância, tem algo a lhe dizer. Pouco a pouco, porém, a diferença histórica reabre um percurso que nos faz compreender que as questões e respostas do filósofo já não se confundem com as de quem o lê. Todavia, justamente quando a distância é reaberta, o discurso lido ganha uma força inesperada, tornando-se capaz de suscitar de maneira nova questões que são nossas. Nesse momento, o leitor se sente interpelado pela obra passada.