CASTORIADIS, Cornelius. L'institution imaginaire de la société. Paris: Éditions du Seuil, 1975.
3 A instituição e o imaginário: uma primeira abordagem
I. A instituição do ponto de vista econômico-funcional
1. A alienação não é inerente à história nem à existência das instituições, mas constitui uma modalidade da relação com a instituição e, por seu intermédio, com a própria história, cuja compreensão exige esclarecer a natureza das instituições.
2. A alienação ultrapassa a divisão em classes e a dominação de uma minoria, pois também pode existir em sociedades sem classes e atingir os próprios dominantes, manifestando-se fundamentalmente como autonomização das instituições perante a sociedade que as produz.
3. A perspectiva econômico-funcional explica a existência e as características das instituições por sua correspondência às necessidades reais da sociedade, subordinando sua constituição e sua permanência a um encadeamento contínuo de meios e fins ou de causas e efeitos.
4. O reconhecimento de que as instituições desempenham funções indispensáveis à existência social não autoriza reduzi-las a essas funções nem considerar que seu papel funcional explique integralmente sua natureza.
5. A existência de funções socialmente necessárias que permanecem sem atendimento, embora pudessem ser realizadas nas condições históricas disponíveis, constitui uma dificuldade decisiva para a interpretação funcionalista.
6. A perspectiva funcionalista não consegue estabelecer um critério suficiente para definir as necessidades reais da sociedade, porque a vida humana ultrapassa as funções biológicas e cria historicamente tanto novas necessidades quanto novas maneiras de satisfazê-las.
7. A compreensão das instituições deve partir do simbólico, que constitui o modo de ser pelo qual elas se apresentam na experiência social.
II. A instituição e o simbólico
1. Os atos e os produtos materiais da vida histórico-social não se reduzem a símbolos, mas somente podem existir e adquirir sua configuração humana no interior de uma rede simbólica.
2. As instituições constituem redes simbólicas socialmente sancionadas que vinculam significantes a significados e tornam essas relações obrigatórias, organizando práticas econômicas, jurídicas, políticas e religiosas cujos efeitos materiais permanecem inseparáveis dessa mediação.
3. Toda interpretação funcionalista precisa reconhecer a participação do simbolismo na vida social.
4. O funcionalismo restringe indevidamente a importância do simbólico quando o trata como revestimento neutro de relações preexistentes ou como instrumento subordinado a uma substância real-racional que determinaria integralmente sua forma.
5. A minuciosa regulamentação do ritual religioso, exemplificada pela religião mosaica, coloca o problema da determinação de seus detalhes e da atribuição de igual importância a todos eles enquanto mandamentos divinos.
6. Os detalhes rituais podem receber explicações parciais por suas referências materiais, suas relações simbólicas e suas consequências lógico-racionais, mas essas determinações se entrelaçam sem estabelecer uma correspondência estritamente funcional.
7. Nenhuma combinação de explicações funcionais e simbólicas esgota um ritual, porque a escolha dos símbolos não é necessária nem inteiramente arbitrária e porque os limites de sua incidência sobre formas, matérias e práticas permanecem variáveis e indeterminados.
8. A ausência de uma hierarquia entre elementos essenciais e secundários revela o caráter não racional do conteúdo ritual, no qual tudo aquilo de que o sagrado se apropria adquire igual sacralidade.
9. O direito oferece um campo decisivo para examinar a autonomia do simbolismo perante a funcionalidade, por regular relações concretas de propriedade, contratos e transações que parecem diretamente vinculadas à organização econômica.
10. A interpretação funcionalista do direito romano apresenta seu desenvolvimento como constituição progressiva de um sistema racional de regras destinado a garantir a propriedade e a regular as transações exigidas pela expansão econômica.
11. A evolução efetiva do direito romano evidencia a independência inicial do formalismo perante as finalidades práticas e sua conquista lenta e incompleta pela funcionalidade, pois os efeitos jurídicos dependeram durante séculos mais dos ritos prescritos do que da vontade dos contratantes.
12. A concepção do simbolismo como expressão perfeitamente neutra ou inteiramente adequada ao funcionamento dos processos reais é insustentável e carece de sentido rigoroso.
13. O simbolismo social constitui-se com materiais naturais e históricos preexistentes, cujas conexões fazem os significantes ultrapassarem qualquer significado estritamente delimitado e produzirem consequências que escapam à intenção de quem os utiliza.
14. A criação bolchevique do Conselho dos Comissários do Povo evidencia que a inovação dos nomes pode conservar formas institucionais herdadas, pois a linguagem revolucionária encobriu a reprodução de um governo separado das massas organizadas.
15. Os significantes institucionais não permanecem inteiramente subordinados aos conteúdos que deveriam transmitir, porque integram estruturas próprias cujas relações de coerência ou incoerência geram consequências independentemente de terem sido previstas ou desejadas.
16. A suposição de que uma sociedade domina antecipadamente todas as implicações simbólicas e racionais das instituições que cria equivale a postular uma inteligência absoluta capaz de garantir a compatibilidade de cada regra com todas as demais e com os fins pretendidos.
17. A racionalização das instituições e a compreensão de sua lógica são processos históricos contingentes, de modo que tanto o conhecimento quanto o desconhecimento de suas implicações interferem na evolução social sem poderem ser explicados apenas pela funcionalidade.
18. As consequências racionais não previstas de um sistema institucional podem favorecer suas funções ou contrariá-las, provocando tanto colapsos imediatos quanto conflitos cumulativos que somente se manifestam após certo tempo.
19. Regras institucionais e suas consequências lógicas podem ser funcionalmente indiferentes e, ainda assim, orientar a vida social em direções que a funcionalidade não determina, chegando a produzir efeitos que se voltam sobre ela.
20. Não é possível estabelecer antecipadamente o grau geral de simbolização de uma cultura nem os fatores que determinam a intensidade do investimento simbólico em cada domínio de sua vida.
21. A ideia de um simbolismo institucional que apenas expressaria uma substância social previamente constituída é incoerente, porque as próprias relações sociais, inclusive as relações de produção, somente existem como práticas instituídas, simbolizadas e sancionadas.
22. A oposição marxista entre infraestrutura e superestrutura permanece ambígua enquanto não reconhece que a economia e as relações de produção já são instituições, cuja existência não depende de uma formalização jurídica autônoma nem pode ser compreendida como matéria anterior à forma.
23. A relação entre simbolismo institucional e conteúdo da vida social possui uma especificidade que se perde quando é reduzida à causalidade, à conexão puramente semântica, à liberdade absoluta ou à determinação integral.
24. A sociedade constitui seu simbolismo sob condicionamentos naturais, históricos e racionais que geram conexões imprevistas, mas essa constituição também conserva interstícios e graus de liberdade que impedem transformá-lo em senhor absoluto da vida social.
25. A natureza simbólica das instituições não torna inevitável sua dominação sobre a sociedade, porque um uso lúcido e reflexivo dos símbolos permite questioná-los e transformá-los, embora nenhuma construção institucional possa garantir mecanicamente a autonomia coletiva.
26. A autonomização duradoura das instituições depende de algo que ultrapassa o próprio simbólico e lhe fornece o suplemento de sentido capaz de determiná-lo e especificá-lo.
III. O simbólico e o imaginário
1. Todo símbolo comporta um componente imaginário, entendido inicialmente como invenção ou deslocamento de significação pelo qual algo distinto do real é constituído, podendo ou não pretender substituí-lo.
2. O imaginário precisa do simbólico para existir efetivamente, enquanto o simbolismo pressupõe a capacidade imaginária de ver uma coisa como outra, tendo ambos como raiz o imaginário radical, que permite apresentar coisas e relações ausentes da percepção.
3. A relação simbólica somente mantém significante e significado simultaneamente unidos e distintos mediante um domínio racional desenvolvido, pois sua configuração originária tende a vinculá-los rigidamente por identificação, participação ou causalidade imaginária.
4. O simbolismo não se reduz ao imaginário efetivo, porque também comporta um componente real-racional indispensável à representação e à ação, embora esse componente permaneça inseparavelmente entrelaçado ao imaginário.
5. A condenação à morte de um homem que trabalhara no sábado exemplifica a intervenção de uma autoridade divina imaginária na determinação de uma sanção que a lei ainda não havia estabelecido.
6. A desproporção entre a transgressão e o apedrejamento evidencia que o imaginário religioso ultrapassa sua eventual utilidade social, instituindo significações originais cujas particularidades e consequências históricas não se deixam deduzir de necessidades funcionais.
7. A religião mosaica depende de um imaginário secundário que desenvolve seu núcleo central, como ocorre quando a narrativa da criação em sete dias fundamenta a santificação da semana e produz consequências sociais muito além de sua origem.
8. Os ritos de passagem combinam funções reconhecíveis de integração dos adolescentes à vida adulta com uma proliferação de prescrições mágicas e cerimoniais cuja relação com esse núcleo funcional se torna progressivamente tênue.
9. A interpretação dos ritos encontra seu limite na constituição imaginária de seus símbolos e na significação indivisível das totalidades sociais que eles compõem, a qual não pode ser reduzida às funções de seus elementos.
10. Nas culturas fortemente integradas, os símbolos elementares e o sentido global do mundo se articulam por um imaginário central, presente tanto no totemismo e na religião grega quanto no capitalismo ocidental e em sua organização pseudorracional.
11. Além do imaginário central, um imaginário periférico desenvolve sucessivas sedimentações de significação sobre os símbolos, conferindo-lhes poderes e valores que ultrapassam suas funções iniciais.
12. A redução moderna das instituições à funcionalidade ou ao simbolismo racional projeta sobre a história inteira um ideal parcial de organização próprio do mundo capitalista ocidental.
13. As concepções antigas da origem divina das instituições reconheciam, sob forma mítica, sua procedência de uma fonte que ultrapassa a consciência legisladora, correspondente ao imaginário social que articula o simbólico e o funcional e lhes confere especificidade e orientação.
IV. A alienação e o imaginário
1. A instituição é uma rede simbólica socialmente sancionada que combina componentes funcionais e imaginários, surgindo a alienação quando o momento imaginário se autonomiza e a sociedade deixa de reconhecer suas instituições como produtos próprios.
2. O reconhecimento marxiano do fetichismo da mercadoria, da força das tradições e da eficácia das ilusões sociais evidencia que o funcionamento das sociedades depende de significações imaginárias efetivamente operantes.
3. A concepção madura de Marx restringe o imaginário a um papel funcional decorrente da impotência material da humanidade, fazendo da escassez a condição necessária e suficiente da alienação.
4. A alienação não pode ser deduzida da escassez, porque nenhum nível técnico garante seu desaparecimento, a abundância pode ser socialmente bloqueada e as próprias necessidades são históricas, enquanto o imaginário constitui tanto uma fonte de alienação quanto de criação.
5. A criação histórica pressupõe a capacidade imaginária de constituir o novo, como a democracia ou a Comuna, cuja existência transforma as próprias circunstâncias de seu surgimento e não corresponde à descoberta ou à verificação de uma realidade previamente dada.
6. Os problemas considerados reais por uma sociedade somente se constituem como tarefas determinadas em relação ao imaginário que orienta sua existência, o qual também participa da criação das respostas possíveis.
7. Na história individual, um acontecimento adquire caráter traumático pela significação singular que recebe, de modo que a ação do imaginário não pode ser explicada apenas pela presença de repressões ou de fatos exteriores.
8. Não existe um problema universal e invariável da sociedade cuja solução material eliminaria suas formações imaginárias, porque os seres humanos constituem historicamente seus desejos, seus objetos e suas próprias definições.
9. A redução do imaginário à incapacidade de resolver um problema real pressupõe indevidamente um conhecimento definitivo da essência da humanidade e dos fins que ela perseguiria em todos os tempos.
10. A resposta marxista sobre o que constitui a humanidade oscila contraditoriamente entre a determinação por uma necessidade material e a aspiração a uma liberdade sem objeto previamente determinado.
11. A humanidade é definida, em uma dessas respostas, como aquilo que tem fome.
12. A humanidade é definida, na outra resposta, como aquilo que busca a liberdade enquanto tal, para além da libertação da fome e sem um objeto universalmente determinado.
13. A diversidade histórica dos desejos humanos e a persistência da heteronomia em sociedades materialmente satisfeitas demonstram que nenhuma necessidade particular contém a definição da humanidade ou explica a multiplicidade de suas aspirações.
14. O ser humano constitui e ultrapassa continuamente suas próprias definições de necessidades e objetos, produzindo-se historicamente por uma atividade criadora que nenhuma determinação natural, racional ou histórica consegue encerrar de modo definitivo.
V. As significações imaginárias sociais
1. As instituições e a vida social não podem ser compreendidas como um sistema puramente funcional, porque suas funções se subordinam a finalidades e orientações de sentido que a própria funcionalidade não consegue fundamentar.
2. As instituições também não se esgotam em redes simbólicas, pois sua compreensão exige esclarecer a escolha dos símbolos, as significações que transmitem e as razões de sua autonomização.
3. A compreensão da escolha social de um simbolismo exige ultrapassar sua organização formal e estrutural, investigando por que determinados elementos e oposições são selecionados e quais conteúdos tornam essa seleção significativa para uma coletividade.
4. As significações institucionais dependem de estruturas significantes sem se reduzirem a elas, porque a criação e o uso dos símbolos envolvem sentidos que orientam sua seleção e transformação em uma relação marcada pela indeterminação, pela multiplicidade de significados e pela pluralidade de expressões possíveis.
5. A redução estruturalista do sentido a uma combinação de signos elimina a eficácia propriamente instituinte das significações, como a proibição do incesto, que organiza condutas, cria valores e transforma o campo das relações humanas possíveis.
6. A autonomização das instituições não decorre necessariamente da natureza do simbolismo, pois os símbolos somente adquirem sua força social por incorporarem significações capazes de investir novos objetos e constituir novos campos de experiência.
7. O discurso permanece envolvido no simbolismo sem ficar inteiramente submetido a ele, e sua distinção em relação ao delírio depende da relação entre o sentido enunciado, as significações compartilhadas e um núcleo que não se reduz à própria simbolização.
8. As significações possuem relativa independência perante seus significantes e participam de sua escolha e organização, podendo referir-se ao percebido, ao racional ou ao imaginário sem que a proximidade entre esses domínios suprima suas diferenças.
9. Deus constitui uma significação imaginária central que ultrapassa seus nomes e suas imagens e torna possível organizar, unificar e transformar o conjunto de símbolos religiosos de uma sociedade.
10. A reificação constitui uma criação imaginária operante que organiza relações e condutas ao assimilar categorias humanas a animais ou coisas, sem poder ser explicada como simples erro perceptivo, equívoco lógico ou deslocamento linguístico.
11. A dificuldade de distinguir o simbólico do imaginário decorre sobretudo de que a significação imaginária não possui um referente diretamente apresentável, podendo ser apreendida apenas por suas manifestações e consequências sem jamais se oferecer como objeto percebido.
12. A fantasia fundamental do sujeito constitui uma organização imaginária originária que distribui posições, distingue interior e exterior e orienta investimentos e significações posteriores, procedendo do imaginário radical sem representar simplesmente outra coisa.
13. A fantasia fundamental somente pode ser reconstruída a partir de suas manifestações, como condição da unidade singular pela qual uma realidade e uma história se constituem para determinado sujeito.
14. As significações imaginárias sociais não são imagens individuais nem sua soma, mas esquemas coletivos de organização que tornam a experiência representável, selecionam seus elementos e conferem unidade à sociedade sem possuírem um lugar delimitado ou um referente diretamente designável.
15. O imaginário social não pode ser reduzido ao inconsciente individual, porque as fantasias privadas somente adquirem eficácia institucional mediante significantes coletivos e condições histórico-sociais que já pressupõem uma sociedade instituída.
16. Toda derivação integral das significações sociais a partir da psique individual fracassa diante da impossibilidade de separar essa psique de um contínuo social previamente instituído, no qual os significados coletivos possuem um modo de existência próprio.
17. O imaginário de uma sociedade fornece a orientação originária de seu sistema institucional, organiza a relevância e o valor dos objetos e confere sentido às relações que a funcionalidade e o simbolismo não conseguem determinar por si mesmos.
18. A organização da produção e da reprodução social não é inteiramente ditada pela natureza ou pela razão, pois cada sociedade institui uma apreensão prática, afetiva e intelectual do mundo que distingue valores e orienta as condutas.
19. A corporeidade e as necessidades biológicas oferecem um apoio universal à estruturação da experiência, mas não explicam a diversidade nem a transformação histórica das formas de vida social.
VI. O papel das significações imaginárias
1. A história pressupõe a imaginação criadora ou o imaginário radical, pelo qual o fazer humano institui significações e possibilidades que não são reflexos da percepção, prolongamentos das tendências animais ou desenvolvimentos estritamente racionais do dado.
2. Cada mundo social se articula por significações imaginárias que orientam seu simbolismo e suas funções, cuja produção, embora condicionada pelo real, pela razão e pela história anterior, não pode ser integralmente deduzida desses fatores.
3. As significações imaginárias constituem as respostas pelas quais uma sociedade define sua identidade, sua organização, seu mundo, suas necessidades e seus desejos, tornando possível uma existência coletiva distinta do caos indiferenciado.
4. Essas respostas não resultam necessariamente de perguntas formuladas de maneira explícita, pois a sociedade as produz em sua própria atividade como sentidos incorporados que tornam inteligível seu fazer coletivo.
5. A vida e o trabalho humanos não podem ser compreendidos independentemente dos sentidos que instituem, porque definem necessidades, relações e maneiras de apreender o mundo muito antes de a filosofia transformar essas determinações em questões explícitas.
6. O papel das significações imaginárias sociais pode ser reconhecido na constituição da identidade coletiva, da imagem do mundo, das necessidades e da articulação interna da sociedade.
7. A identidade coletiva se constitui por nomes e símbolos que não apenas designam um grupo, mas lhe atribuem qualidades e uma maneira imaginária de ser, tornando o pertencimento inseparável de uma significação compartilhada.
8. A instituição materializa a continuidade da coletividade para além de seus membros perecíveis, relacionando sua existência e sua identidade a símbolos que a vinculam a outra realidade.
9. A nação produz identificação coletiva por uma referência imaginária a uma história supostamente comum, cuja eficácia política e afetiva demonstra que a denúncia do nacionalismo como mistificação não explica sua força histórica nem seus efeitos materiais.
10. Toda sociedade constitui uma imagem significativa do universo e de seu próprio lugar nele, organizando os elementos racionais da experiência segundo significações imaginárias que também permanecem presentes no racionalismo moderno.
11. A imagem do mundo e a imagem que a sociedade forma de si mesma se articulam à definição de suas necessidades, mediante a escolha de objetos e atividades cuja existência é considerada condição de uma vida dotada de valor.
12. As necessidades somente se tornam sociais por uma elaboração cultural que impede explicar definitivamente a história pelo funcionalismo ou deduzir alimentação, vestuário e habitação de critérios estritamente utilitários e racionais.
13. A necessidade humana se constitui pelo investimento de objetos com valores que ultrapassam suas propriedades naturais, de modo que as escolhas, hierarquias e carências sociais exprimem uma orientação imaginária que cria a própria escassez enquanto fenômeno social.
14. A articulação da sociedade se define correlativamente à organização de seus objetos e atividades, podendo estruturar-se por clãs vinculados a elementos naturais ou por castas fundamentadas em funções sociais diferenciadas.
15. A divisão antagônica da sociedade em classes constitui um acontecimento decisivo para a formação das sociedades históricas, embora sua origem permaneça profundamente obscura.
16. A primeira explicação marxista da origem das classes vincula a exploração a uma fase de escassez relativa na qual a produtividade já permite produzir um excedente, mas ainda não assegura a abundância que supostamente eliminaria sua razão de existir.
17. A possibilidade material de um excedente não explica a necessidade da exploração, pois não esclarece por que ele seria apropriado por uma classe em vez de ampliar o bem-estar coletivo e ainda projeta sobre o passado uma imagem competitiva própria do capitalismo.
18. A segunda explicação marxista procura derivar formas determinadas de divisão social de estágios técnicos específicos, mas a coexistência de técnicas semelhantes com relações sociais muito diferentes impede fundamentar as classes diretamente na tecnologia.
19. As interpretações históricas concretas somente explicam a divisão social recorrendo à totalidade de situações já constituídas, encontrando como limite a emergência de novas significações cuja origem não pode ser deduzida de condições anteriores.
20. É possível compreender os mecanismos de perpetuação das classes, mas sua origem permanece problemática porque as explicações disponíveis já pressupõem sociedades nas quais a própria significação da divisão em classes está instituída.
21. A formação da burguesia e o desenvolvimento posterior da burocracia ocorreram em um mundo previamente estruturado por propriedade, hierarquia e distinções de classe, que condicionou a posição assumida pelas novas categorias sociais.
22. A passagem das aldeias neolíticas às primeiras cidades sumérias apresenta uma organização social já dividida em funções e posições desiguais, sem que se conheçam os processos que produziram essa transformação.
23. A instituição da escravidão constitui a criação histórica de uma significação pela qual seres humanos passam a tratar outros como objetos apropriáveis, estabelecendo uma organização antagônica e assimétrica cuja emergência não pode ser reproduzida como dedução racional.
24. A significação da divisão social mantém relações estreitas com outras significações imaginárias fundamentais, especialmente a definição das necessidades e a imagem do mundo.
25. A impossibilidade de esclarecer integralmente a origem das classes não impede contestar sua existência atual, pois a ação pode revelar a contingência e a pobreza das significações que sustentam a divisão entre dominantes e dominados.
26. A luta de classes introduz uma contestação interna pela qual a sociedade começa a relativizar suas próprias instituições, abrindo uma primeira ruptura no imaginário instituído e uma possibilidade inicial de autonomia.
27. A luta dos oprimidos permanece ambígua enquanto busca apenas inverter posições de dominação, mas já pode negar o imaginário opressivo em nome de uma igualdade essencial, como na evocação camponesa de Adão e Eva para contestar a nobreza hereditária.
28. O surgimento do proletariado moderno confere uma nova dimensão ao questionamento do imaginário social.
VII. O imaginário no mundo moderno
1. O mundo moderno permanece tão dependente do imaginário quanto as sociedades anteriores, apesar de apresentar sua racionalização como fundamento de superioridade perante suas crenças e seus costumes.
2. A racionalidade moderna se torna pseudorracional quando autonomiza conexões formais e meios técnicos sem justificar seus fins, transformando a racionalização em finalidade imaginária e o desenvolvimento tecnológico descontrolado em uma ameaça coletiva.
3. A economia moderna manifesta de maneira particularmente intensa a dominação do imaginário justamente porque reivindica uma racionalidade integral.
4. A produção moderna de necessidades revela o caráter histórico e não natural do consumo, promovendo a aquisição e a substituição de objetos por valores de novidade e distinção que podem se sobrepor à satisfação de necessidades básicas.
5. A fabricação capitalista de necessidades não se explica apenas como compensação de carências ou manipulação dos dominantes, porque estes também se submetem ao imaginário que torna a expansão econômica dependente da satisfação das necessidades que ela própria produz.
6. A organização produtiva moderna realiza uma redução imaginária do ser humano a propriedades parciais e mecanismos calculáveis, convertendo a metáfora do autômato em prática social efetiva que determina a existência de trabalhadores e dirigentes.
7. O imaginário burocrático transforma pessoas em posições hierárquicas e a realidade em registros formalizados, autonomizando uma racionalidade parcial que ignora fundamentos e finalidades e subordina a vida social a um universo de símbolos pretensamente autossuficiente.
8. A autonomização burocrática e a alienação dos próprios dirigentes alcançaram manifestações extremas nas economias do Leste Europeu, embora características essenciais do mesmo processo também estejam presentes nas economias ocidentais.
9. O caráter imaginário da economia moderna se manifesta inclusive em seu funcionamento eficiente, quando critérios parciais de crescimento e desempenho são elevados a fins soberanos sem esclarecer para quem, a que custo e com que finalidade a produção se expande.
10. A dependência do imaginário moderno em relação a uma racionalidade parcial convertida em pseudorracionalidade torna-o vulnerável à crise e abre a possibilidade histórica de transformar o papel desempenhado pelo imaginário na sociedade.
VIII. O imaginário e o racional
1. A história somente pode ser compreendida mediante o imaginário, que institui sentidos unificadores, determina finalidades e orienta estruturas simbólicas sem se reduzir à realidade percebida, à racionalidade ou a um progresso linear da razão.
2. O imaginário não constitui um elemento inicialmente subordinado que depois se autonomiza, mas uma dimensão originária da história, de modo que o problema decisivo passa a ser a emergência do racional como momento relativamente autônomo.
3. A distinção entre significações imaginárias e racionais exige esclarecer os critérios de realidade e de ação empregados, sob pena de transformar uma racionalidade historicamente particular em medida universal da razão.
4. As significações imaginárias participam da própria constituição da realidade natural e social de cada cultura, organizando percepções, relações e condutas que não poderiam existir independentemente delas.
5. Não se pode interpretar o imaginário de uma sociedade como desvio de uma racionalidade absoluta que ela já possuiria, porque a comparação com o delírio individual pressupõe normas compartilhadas que não estão disponíveis fora da cultura considerada.
6. O reconhecimento da especificidade de outras culturas exige enfrentar a projeção retrospectiva de categorias próprias, pois nelas o imaginário e o racional podem permanecer indissociáveis como princípios de organização do mundo e condições de existência coletiva.
7. O conhecimento histórico e etnológico enfrenta a antinomia de compreender outras sociedades segundo seus próprios sentidos e, simultaneamente, explicá-las por categorias atuais, cuja estrutura imaginária impede tratá-las como códigos inteiramente equivalentes.
8. O projeto especulativo de uma história total fracassa porque o sentido vivido por uma sociedade não pode ser convertido sem perdas em sentido para outra, embora a investigação histórica deva preservar a exigência de compreender a singularidade das possibilidades humanas.
9. A antinomia do conhecimento histórico muda de sentido quando a elucidação se articula à ação autônoma, pois compreender outras formas de humanidade também relativiza as próprias categorias e participa da criação lúcida de um futuro ainda inexistente.
10. A elucidação das formas passadas de existência adquire pleno sentido como parte da compreensão e da transformação da vida presente, tornando inevitável reinterpretar o passado a partir de uma atividade histórica cuja alternativa é agir com lucidez ou sofrer seus processos na confusão.