Ernst Cassirer (1874-1945)
Manfred Kuehn
Alemão. Nascido em 28 de julho de 1874, em Breslau; falecido em 13 de abril de 1945, em Nova York. Classificação: neokantiano (Escola de Marburgo); historiador da filosofia; epistemólogo. Interesses: Cultura. Formação: Berlim, Leipzig, Munique, Heidelberg e Marburgo. Influências: Hermann Cohen, Edmund Husserl e Paul Natorp. Cargos: Professor na Universidade de Marburg e, posteriormente, na Universidade de Hamburgo (Reitor de 1930 a 1933); Professor na Universidade de Columbia, em Nova York; também lecionou em Oxford (1933–1935), Gotemburgo, na Suécia (1935–1941) e Yale (1941–1944).
Cassirer foi o mais importante discípulo de Hermann Cohen e sua obra é frequentemente considerada o testamento final da Escola de Marburgo — embora existam diferenças importantes entre ele e os primeiros neo-kantianos de Marburgo.
Além de dedicar-se ao estudo crítico e histórico do problema do conhecimento e da lógica das ciências, interessou-se pelo problema da cultura em geral.
Concebendo os seres humanos como “animais simbólicos”, argumentou que toda cultura se funda na capacidade conceitual que nos permite inventar e usar signos e símbolos artificiais.
Cassirer retoma e desenvolve também as ideias da Escola de Baden — ou Escola do Sudoeste —, exemplificadas nas obras de Wilhelm Windelband e Heinrich Rickert.
Como eles, sentiu a necessidade de passar de uma “crítica da razão” a uma “crítica da cultura”.
Seus numerosos estudos históricos não estavam apenas a serviço de tal crítica — pretendiam também contribuir para o avanço da cultura, pois acreditava que “para possuir o mundo da cultura, devemos reconquistá-lo incessantemente pela recordação histórica”.
Como Kant e os neo-kantianos em geral, Cassirer argumentou que nossos conceitos determinam a maneira como experienciamos o mundo — a experiência não espelha um mundo objetivamente existente, mas o mundo é ativamente construído por nós em conformidade com nosso arcabouço conceitual.
Os filósofos devem concentrar-se no arcabouço conceitual que nos permite experienciar o mundo como o experienciamos — em termos técnicos, é preciso empregar um método transcendental para mostrar como esses conceitos tornam possível nossa experiência.
Ao contrário de
Kant — mas como alguns de seus predecessores neo-kantianos —, Cassirer rejeitou a ideia de que os conceitos e princípios que tornam possível nossa experiência são o mobiliário estático e eternamente fixo da mente humana: esses conceitos e princípios se desenvolvem constantemente.
Embora se possa falar de um “simbolismo natural” que caracteriza toda consciência humana, ele pode assumir muitas formas diferentes.
Sua filosofia partia do pressuposto de que, se existe uma definição da natureza ou “essência” dos seres humanos, ela só pode ser funcional — não substancial.
Cassirer também considerava a concepção kantiana original da filosofia crítica excessivamente estreita — a investigação transcendental deve ser estendida às humanidades e mesmo a formas de representação frequentemente chamadas de primitivas, como as mitologias, que também constituem sistemas conceituais dignos de análise.
“O artista é tanto um descobridor das formas da natureza quanto o cientista é um descobridor de fatos ou leis naturais.”
Essa filosofia da cultura tinha, para Cassirer, claras consequências éticas — “a cultura humana tomada como um todo pode ser descrita como o progresso da progressiva autolibertação do homem; linguagem, arte, religião e ciências são várias fases desse processo; em todas elas o homem descobre e prova um novo poder — o poder de construir um mundo próprio, um mundo 'ideal'”.
Igualmente oposto ao empirismo, ao naturalismo, ao positivismo e à Lebensphilosophie — que incluía, em seu entender, o pensamento existencial defendido por Martin
Heidegger —, Cassirer argumentou em favor de um novo idealismo e humanismo, caracterizando sua filosofia também como uma “filosofia humanista da cultura”.
Era ao mesmo tempo bastante pessimista quanto à influência da filosofia sobre a política: “o papel do pensador individual é muito modesto; como indivíduo, o filósofo há muito abandonou toda esperança de reformar o mundo político.”
Acreditava que tudo o que a filosofia podia fazer era desmascarar os mitos políticos — “a todos nós ficou claro que subestimamos grandemente a força dos mitos políticos; não devemos repetir esse erro.”
Cassirer teve alguns seguidores nos Estados Unidos nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial, entre historiadores da filosofia e críticos filosóficos — a mais conhecida foi talvez Susanne Langer.
Seu pensamento foi então quase completamente ignorado na Alemanha; no final do século XX, porém, desenvolveu-se na Alemanha um interesse real por sua filosofia, com alguns de seus ensaios tardios escritos em inglês sendo recentemente traduzidos para o alemão — e fala-se até mesmo do “início de um renascimento” de seu pensamento.