Ernst Cassirer (1874–1945)
Filósofo alemão de origem judaica, professor titular e reitor da Universidade de Hamburgo e posteriormente docente em Oxford, Gotemburgo e na Universidade Columbia (Columbia University), Ernst Cassirer foi o mais ilustre e original continuador da Escola Neokantiana de Marburgo (fundada por Hermann Cohen e Paul Natorp). Notabilizou-se pela ampliação do criticismo kantiano: partindo da crítica da razão pura centrada nas condições de possibilidade da ciência exata da natureza, Cassirer elaborou uma crítica abrangente da cultura sob a forma de uma monumental “Filosofia das Formas Simbólicas”. Sua arquitetura conceitual redefiniu o ser humano não apenas como animal rationale, mas primordialmente como animal symbolicum, isto é, um ser que acede à realidade unicamente através da mediação formadora e criadora de sistemas de signos — o mito, a linguagem, a religião, a arte, a história e a ciência. Célebre pelo histórico debate filosófico com Martin Heidegger em Davos (1929), representou a defesa intransigente do iluminismo crítico, da racionalidade ética e da liberdade humana contra o irracionalismo e o fatalismo ontológico que culminaram na ascensão do totalitarismo no século XX.
1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais
CASSIRER, Ernst.
Leibniz' System in seinen wissenschaftlichen Grundlagen. Marburg: N. G. Elwert, 1902.
Foco: Tese de habilitação orientada por Hermann Cohen; demonstra que o sistema metafísico e monadológico de Gottfried Wilhelm
Leibniz assenta-se diretamente em suas descobertas nas ciências exatas e no cálculo infinitesimal, estabelecendo o primado da função relacional sobre a substância estática.
CASSIRER, Ernst. Das Erkenntnisproblem in der Philosophie und Wissenschaft der neueren Zeit. 4 Bde. Berlin: Bruno Cassirer, 1906, 1907, 1920; Bd. 4 (Das Erkenntnisproblem in der Philosophie und Wissenschaft der neueren Zeit: Von Hegels Tod bis zur Gegenwart). Stuttgart: Kohlhammer, 1957.
Foco: Monumental tratado de história da teoria do conhecimento moderno e do método científico; reconstroi a gênese do pensamento moderno desde Nicolau de Cusa e a Renascença, passando pelo cartesianismo, o empirismo e o criticismo kantiano, até as crises epistemológicas da física e biologia do final do século XIX.
CASSIRER, Ernst. Substanzbegriff und Funktionsbegriff: Untersuchungen über die Grundfragen der Erkenntniskritik. Berlin: Bruno Cassirer, 1910.
CASSIRER, Ernst. Kants Leben und Lehre. Berlin: Bruno Cassirer, 1918.
Foco: Obra de síntese biográfica e sistemática que serviu de volume complementar à edição histórica das Obras Completas de Immanuel
Kant organizada por Cassirer; articula a unidade orgânica indissolúvel entre as três Críticas kantianas e os escritos pré-críticos.
CASSIRER, Ernst. Philosophie der symbolischen Formen. 3 Bde. (Bd. 1: Die Sprache, 1923; Bd. 2: Das mythische Denken, 1925; Bd. 3: Phänomenologie der Erkenntnis, 1929). Berlin: Bruno Cassirer, 1923–1929.
Foco: Obra magna e ápice de seu sistema filosófico; substituição da ontologia da substância pela fenomenologia da configuração cultural. O tomo 1 analisa a linguagem como passagem da pura expressão afetiva à representação e à significação lógica; o tomo 2 investiga a estrutura perceptiva e a eficácia concreta do pensamento mítico-religioso; o tomo 3 examina a dialética dos modos constitutivos de simbolização (expressão, representação e significação pura na matemática e na física teórica).
CASSIRER, Ernst. Individuum und Kosmos in der Philosophie der Renaissance. Leipzig: Teubner, 1927.
Foco: Estudo histórico-filosófico vinculado à Biblioteca Warburg de Hamburgo; investiga como Nicolau de Cusa, Marsilio
Ficino, Giovanni
Pico della Mirandola e Giordano Bruno operaram a transição da cosmologia fechada medieval para o universo infinito e a autonomia criadora do sujeito moderno.
CASSIRER, Ernst. Die Philosophie der Aufklärung. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1932.
Foco: Reavaliação sistemática do Iluminismo do século XVIII (Montesquieu,
Voltaire, Diderot,
Rousseau, Lessing e
Kant); resgate do espírito analítico e emancipatório das Luzes contra a difamação romântica e historicista oitocentista.
CASSIRER, Ernst. Zur Logik der Kulturwissenschaften: Fünf Studien. Göteborg: Elanders, 1942.
Foco: Investigações metodológicas sobre a especificidade das ciências do espírito (Geisteswissenschaften); diferenciação sistemática entre conceitos de coisas e conceitos de formas nas ciências da cultura, superando as querelas de método entre Wilhelm
Dilthey, Heinrich Rickert e Wilhelm Windelband.
CASSIRER, Ernst. An Essay on Man: An Introduction to a Philosophy of Human Culture. New Haven: Yale University Press, 1944.
CASSIRER, Ernst. The Myth of the State. New Haven: Yale University Press, 1946.
Foco: Testamento ético e filosófico-político póstumo; análise genealógica da ressurgência do pensamento mítico na política contemporânea, demonstrando como o totalitarismo nacional-socialista industrializou e manipulou deliberadamente os mitos arcaicos e o ódio irracional como armas técnicas de destruição do Estado de direito.
2. O Encontro de Davos e Ensaios sobre a Teoria da Relatividade e a Arte
CASSIRER, Ernst. Zur Einsteinschen Relativitätstheorie: Erkenntnistheoretische Betrachtungen. Berlin: Bruno Cassirer, 1921.
Foco: Exame das implicações filosóficas da teoria da relatividade restrita e geral de Albert Einstein; demonstração de que a relatividade não valida o relativismo cético subjetivista, mas representa a vitória definitiva do conceito funcional e da invariância matemático-geométrica sobre o espaço e tempo absolutos substantivados de Newton.
CASSIRER, Ernst;
HEIDEGGER, Martin. Davos-Disputation: Arbeitsgemeinschaft Cassirer–
Heidegger. Davos, 1929. (Publicado nos anexos de
Kant e o Problema da Metafísica de
Heidegger e em edições críticas de Cassirer).
Foco: Histórico debate filosófico realizado nos Cursos Universitários Internacionais de Davos sobre a interpretação do esquematismo da Crítica da Razão Pura de
Kant; confronto polar entre a fidelidade iluminista de Cassirer à universalidade transcendental da razão ética e a leitura ontológico-existencial de
Heidegger centrada na finitude radical, na temporalidade abissal e na angústia do Dasein.
CASSIRER, Ernst. Eidos und Eidolon: Das Problem des Schönen und der Kunst in Platons Dialogen. Vorträge der Bibliothek Warburg, 1924.
3. Principais Edições e Traduções em Língua Portuguesa
CASSIRER, Ernst. A filosofia das formas simbólicas. 3 vols. (Vol. 1: A linguagem; Vol. 2: O pensamento mítico; Vol. 3: Fenomenologia do conhecimento). Tradução de Eurides Avance de Souza. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 2004, 2011.
Foco: Edição brasileira integral da obra magna de Cassirer; texto de referência incontornável para os estudos de teoria da cultura, semiótica, epistemologia e filosofia da mente no espaço acadêmico lusófono.
CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem: Introdução a uma filosofia da cultura humana. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
CASSIRER, Ernst. O mito do Estado. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.
CASSIRER, Ernst. A filosofia do Iluminismo. Tradução de Álvaro Cabral. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
CASSIRER, Ernst. Indivíduo e cosmos na filosofia do Renascimento. Tradução de Elisabete Nunes Henriques. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e mito. Tradução de J. Guinsburg e Miriam Schnaiderman. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.
CASSIRER, Ernst. Substância e função. Tradução de Paulo Cézar Duque-Estrada. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica
A Passagem do Conceito de Substância ao Conceito de Função: O ponto de partida epistemológico de Cassirer reside na superação do realismo ingênuo e do substancialismo ontológico. A ciência e o conhecimento não operam abstraindo propriedades comuns de coisas estáticas pré-dadas no mundo. O conhecimento moderno organiza o real por meio de relações funcionais matemáticas (leis, séries e sistemas de coordenadas). A realidade não é uma substância cósmica compacta que a mente reflete passivamente; o objeto é constituído através da síntese relacional e funcional dos atos intelectuais.
O Homem como Animal Simbólico e a Crítica da Cultura: Expandindo o criticismo kantiano, Cassirer postula que o sujeito humano não tem acesso imediato à “coisa-em-si” (Ding an sich), nem apreende a verdade através de uma visão mística pura desprovida de mediação. O ser humano habita uma nova dimensão ontológica: o “universo simbólico”. A linguagem, o mito, a religião, a arte e a ciência não são véus ou ilusões que obscurecem o ser, mas os únicos órgãos constitutivos e criadores pelos quais a própria realidade adquire sentido e visibilidade humana. Cada forma simbólica possui sua própria gramática de sentido irredutível: o mito opera pela condensação e pela presença imediata do sagrado; a arte articula a visão formal das aparências; a ciência estabelece a determinação funcional abstrata.
Os Três Graus da Consciência Simbólica: Na fenomenologia do conhecimento exposta no terceiro tomo de sua obra capital, Cassirer estrutura a gênese das formas simbólicas em três estratos contínuos: (1) a função expressiva (Ausdrucksfunktion), em que o mundo é vivenciado de maneira imediata como forças afetivas, fisionômicas e ameaçadoras (núcleo da experiência mítica e da afecção corpórea); (2) a função representativa (Darstellungsfunktion), na qual a consciência se distancia da afetação imediata e fixa coisas, objetos estáveis e fatos empíricos no espaço e no tempo através de nomes linguísticos e imagens duradouras; e (3) a função de significação pura (Bedeutungsfunktion), patamar mais elevado no qual o pensamento se liberta de todo suporte sensível figurativo para operar em sistemas relacionais inteiramente abstratos e operatórios, tais como a matemática pura, a lógica relacional e a física teórica moderna.