BRASSIER, Ray. Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.
A virtude do transcendental consiste em tornar o realismo assombroso, pois o apresenta como aparentemente impensável e, ainda assim, verdadeiro, fazendo dele um problema filosófico eminente. — Quentin Meillassoux
3.1 O arquifóssil — Quentin Meillassoux
1. O arquifóssil fornece vestígios materiais de acontecimentos anteriores ao surgimento da vida e permite formular enunciados cujo sentido literal, assim como o das previsões sobre acontecimentos posteriores à extinção da vida, põe em questão as condições de inteligibilidade estabelecidas pela filosofia pós-kantiana.
2. O correlacionismo atribui primazia à relação entre pensamento e ser, ou a formas pré-teóricas dessa relação como a vida e o Dasein (ser-aí), de modo que até a independência do mundo só se torna inteligível nos termos de sua manifestação para nós.
3. O arquifóssil põe em dificuldade a tese correlacionista porque indica uma realidade cognoscível anterior à possibilidade da experiência e, portanto, exterior à cadeia de fenômenos cuja objetividade Kant funda na correlação entre sujeito e objeto transcendentais.
4. Para Kant, a realidade de um acontecimento passado depende da possibilidade de remontar, a partir da percepção presente e segundo leis empíricas, à série de condições temporais que o inscrevem na unidade de uma experiência possível.
5. A série de percepções possíveis pode remontar do vestígio atual às condições de sua formação apenas até o ponto em que existam as condições materiais da percepção, ao passo que o tempo geológico indicado pelo arquifóssil precede o surgimento dos sistemas nervosos.
6. Os enunciados científicos sobre acontecimentos anteriores à vida ou posteriores à sua extinção inscrevem a própria vida e o pensamento no espaço-tempo, pondo em questão sua pretensão de funcionar como condições transcendentais de toda manifestação espaço-temporal.
3.2 A resposta correlacionista
1. A resposta correlacionista procura reduzir a ancestralidade a um caso de manifestação lacunar e, em seguida, atribui ao argumento do arquifóssil uma confusão entre as condições transcendentais da experiência e os acontecimentos empíricos que nelas se manifestam.
3.2.1 A lacuna da manifestação
1. A primeira objeção correlacionista equipara o acontecimento ancestral a um fenômeno distante ou despercebido e invoca a possibilidade contrafactual de uma testemunha para sustentar que a ausência de percepção efetiva deixa intactas as condições transcendentais da manifestação.
2. A ancestralidade designa uma anterioridade irredutível à antiguidade, pois remete ao tempo em que surgiram as próprias condições que permitem relacionar passado, presente e futuro, instaurando uma diacronia que nenhuma distância interna à manifestação pode medir.
3. A hipótese de uma testemunha reintegra o acontecimento ancestral à correlação apenas ao trocar uma lacuna da própria manifestação por uma lacuna no interior dela, pois o arquifóssil aponta para um tempo em que ainda faltavam as condições de qualquer testemunho.
3.2.2 A instanciação do transcendental
1. A segunda objeção correlacionista distingue o sujeito transcendental, que estabelece as condições da objetividade, dos organismos empíricos que nascem e perecem no espaço-tempo, sustentando que datar o surgimento destes deixa intacta a função constitutiva daquele.
2. Embora o sujeito transcendental se defina por uma função distinta das propriedades de um organismo, seu exercício requer um corpo situado e finito, de modo que as condições materiais de sua instanciação surgem e desaparecem em um tempo que excede a temporalidade da correlação.
3.2.3 Ancestralidade e cronologia
1. A força do argumento da ancestralidade depende de distinguir a independência ontológica dos fenômenos em relação ao pensamento da mera precedência cronológica da matéria sobre a vida consciente, pois a segunda, por si só, deixa aberta a hipótese de que o pensamento já esteja implicado na realidade material.
2. A autonomia em relação ao pensamento caracteriza igualmente processos ancestrais e contemporâneos, como a formação da Terra, a tectônica de placas e a expansão galáctica, de modo que tomar o arquifóssil como paradigma exclusivo da realidade independente concede ao correlacionismo uma primazia indevida sobre o presente.
3.3 Os dois regimes de sentido
1. O correlacionismo pode admitir que o enunciado ancestral designe literalmente uma realidade anterior ao pensamento e, ao mesmo tempo, subordinar esse sentido literal a um regime de sentido considerado mais fundamental, no qual a ancestralidade só é inteligível em sua relação com o pensamento presente.
2. A subordinação do sentido literal pressupõe que as entidades postuladas pela ciência sejam meros instrumentos de cálculo ou ficções heurísticas, estendendo assim, sem justificação, as condições da experiência humana às realidades que a teoria científica permite conhecer.
3. A exclusão do sentido literal dos enunciados ancestrais preserva a coerência do correlacionismo ao preço de tornar filosoficamente ininteligível uma realidade independente da relação cognitiva que permite conhecê-la.
4. A dificuldade de admitir uma realidade em si põe em questão os critérios pós-kantianos de inteligibilidade, pois a ciência situa as supostas condições transcendentais da manifestação entre os acontecimentos empíricos periféricos e efêmeros que elas deveriam tornar possíveis.
5. A distribuição kantiana entre o empírico e o transcendental torna-se problemática quando a ciência descreve o surgimento e o desaparecimento das condições materiais do conhecimento, exigindo que se reexamine a origem da autoridade filosófica atribuída à correlação.
3.4 O princípio de factualidade
1. A virada copernicana de Kant converte a pergunta metafísica pelo que as coisas são na investigação transcendental das condições sob as quais se tornam acessíveis, fazendo do problema do conhecimento uma questão sobre a relação entre o pensamento e aquilo que ele conhece.
2. O correlacionismo fraco admite pensar as coisas em si embora restrinja o conhecimento aos fenômenos, enquanto o correlacionismo forte estende a interdição ao próprio pensamento do em si e recusa a possibilidade de conferir validade absoluta às categorias que estruturam a experiência.
3. Contra a absolutização hegeliana da correlação, o correlacionismo forte insiste em sua facticidade, pois o acesso do pensamento ao ser depende de condições cuja existência o conceito é incapaz de deduzir ou justificar como necessária.
4. Para negar que a correlação seja necessária, o correlacionismo forte precisa admitir como absoluta sua facticidade, abrindo assim acesso a algo independente da própria correlação, a contingência como tal.
5. A facticidade caracteriza a ausência de fundamento necessário das coisas e da correlação, ao passo que a factualidade designa a necessidade dessa ausência de fundamento, pela qual a própria contingência se torna o único absoluto.
6. A necessidade da contingência admite que todas as coisas possam transformar-se sem razão, mas também que permaneçam como estão, de modo que até o devir perpétuo perde a condição de necessidade que lhe atribuem as metafísicas do fluxo.
7. A crítica racionalista da crítica da razão procura recuperar o acesso ao real em si e retirar o privilégio concedido à fé ou à intuição mística, pois é a própria razão que estabelece a ausência de fundamento necessário para tudo o que existe.
3.5 As três figuras da factualidade
1. A necessidade da contingência implica a impossibilidade de entes contraditórios, a existência necessária de entes contingentes e a contingência das próprias leis da natureza.
3.5.1 A impossibilidade da contradição
1. Um ente contraditório seria incapaz de mudar ou desaparecer, pois já possuiria os predicados incompatíveis com seu estado presente, de modo que sua existência necessária contrariaria a contingência absoluta.
2. A necessidade da contingência exclui tanto a incorporação hegeliana da contingência a um absoluto necessário quanto a elevação do fluxo perpétuo à condição de lei, pois o poder de transformação também admite a permanência.
3. O princípio de ausência de razão impõe limites à especulação ao excluir a existência de um ente contraditório, sem converter o tempo absoluto em divindade, totalidade vital ou fundamento religioso da finitude.
3.5.2 A existência necessária da contingência
1. A interpretação fraca, segundo a qual tudo o que porventura exista é contingente, acaba por afirmar em um nível superior a necessidade da facticidade que procura restringir, pois cada nova tentativa de tornar a contingência contingente repõe a mesma necessidade e ameaça produzir uma regressão infinita.
2. A possibilidade de cada ente deixar de existir só se mantém se a contingência continuar efetivamente instanciada, de modo que a inexistência de qualquer ente determinado é compatível com a necessidade de que sempre exista algo contingente.
3. A pergunta de Leibniz sobre por que há algo em vez de nada perde seu caráter de mistério quando a existência de entes contingentes decorre da necessidade da contingência e dispensa o recurso a uma causa primeira.
4. Resolver a questão da existência significa reconhecer a ausência permanente de uma razão primeira e retirar da pergunta o prestígio que ela conserva quando é declarada insolúvel.
3.5.3 A inconstância da natureza
1. O problema de Hume adquire um alcance ontológico quando se pergunta se as leis que regem as sucessões observadas poderiam mudar sem razão, mesmo que tenham permanecido estáveis durante toda a experiência disponível.
2. A análise humeana da causalidade distingue a sucessão observada da conexão necessária, pois constatar repetidamente que um acontecimento sucede a outro é insuficiente para demonstrar que a sucessão decorre de uma lei universal.
3. A indução é incapaz de verificar conclusivamente uma lei universal, pois qualquer conjunto finito de observações permanece compatível com resultados futuros diferentes daqueles que a regularidade passada leva a esperar.
4. A diferença entre o que se pode conceber e o que de fato se observa torna-se patente na colisão entre bolas de bilhar, pois a experiência revela um único desfecho onde o raciocínio admite vários resultados igualmente concebíveis.
5. A observação de uma bola de bilhar aproximando-se de outra permite imaginar que ambas parem ou que uma delas mude de direção, sem que o raciocínio a priori forneça fundamento para privilegiar o desfecho habitual.
6. A crença na causalidade atribui uma necessidade aparente ao resultado reiteradamente observado, embora essa preferência resulte do costume e deixe intacta a possibilidade lógica de outros desfechos.
7. Ao fundar a expectativa de uniformidade no hábito e na associação, Hume explica a crença na regularidade sem demonstrar sua necessidade, preservando a uniformidade como traço da realidade fenomênica acessível aos sentidos.
8. Kant sustenta que a representação de um mundo objetivo exige regularidade, pois uma variação inteiramente desordenada das aparências inviabilizaria até a síntese necessária para reconhecer objetos e acontecimentos.
9. O conceito de causa reúne os fenômenos sucessivos segundo uma regra a priori, sem a qual as representações permaneceriam um jogo cego, incapaz de constituir a unidade de uma experiência objetiva.
10. A solução kantiana para o problema da indução faz da causalidade uma condição prévia da representação dos casos particulares, de modo que sua validade para a experiência prescinde de uma generalização extraída desses casos.
11. A necessidade da uniformidade para representar cientificamente a natureza deixa em aberto a necessidade das leis naturais em si mesmas, pois sua estabilidade observada é compatível com a possibilidade de que mudem.
12. O argumento frequencialista infere a necessidade das leis a partir da suposta improbabilidade de uma regularidade duradoura, imaginando que, se todas as sucessões concebíveis pudessem ocorrer, a estabilidade observada seria estatisticamente desprezível.
13. A inferência frequencialista pressupõe que todos os desfechos possíveis formem uma totalidade e que as probabilidades aplicáveis aos acontecimentos regidos por leis possam estender-se à existência e à estabilidade dessas próprias leis.
14. A impossibilidade cantoriana de totalizar as multiplicidades fornece uma razão para recusar um conjunto completo de mundos possíveis sobre o qual calcular probabilidades, enquanto a distinção entre acaso e contingência impede que se usem frequências internas a um mundo para avaliar a estabilidade de suas leis.
15. A refutação do frequencialismo mostra que a estabilidade das leis é compatível com sua contingência, mas deixa em aberto a questão ontológica de por que se deve considerar essa estabilidade efetivamente contingente.
16. A distinção entre o alcance da crítica ao frequencialismo e a tese positiva da contingência real das leis conduz ao problema de como o pensamento pode conhecer a relação entre a realidade e as possibilidades que concebe.
3.6 A diacronia entre pensamento e ser
1. A reintrodução da intuição intelectual procura dar acesso direto à contingência do ser e contornar a questão de como uma representação pode alcançar uma realidade que subsiste independentemente dela.
2. A intuição intelectual apreende nas próprias coisas sua contingência ilimitada, acessível ao pensamento mesmo quando a percepção encontra apenas continuidades fenomênicas.
3. A intuição intelectual contorna a distinção kantiana entre fenômenos cognoscíveis e coisas em si incognoscíveis ao pretender apreender a contingência do real independentemente das condições sob as quais ele se apresenta à sensibilidade.
4. A revolução copernicana da ciência descentra o pensamento ao situá-lo em uma realidade que o precede e pode sobreviver-lhe, enquanto a filosofia correlacionista efetua uma contrarrevolução ptolomaica ao tornar a inteligibilidade do ser dependente da relação com o pensamento.
3.7 O paradoxo da contingência absoluta
1. A reintrodução da intuição intelectual ameaça comprometer a assimetria entre pensamento e ser, cuja preservação exige distinguir a realidade do fenômeno ancestral da idealidade do enunciado matemático que o descreve.
2. Os enunciados matemáticos designam propriedades efetivas de acontecimentos ancestrais, como data, duração e extensão, embora os próprios enunciados sejam contemporâneos de quem os formula.
3. A distinção entre o acontecimento ancestral e seu enunciado preserva a diacronia entre o passado e o presente da correlação, mas introduz uma segunda disjunção, entre real e ideal, que atravessa tanto o ser quanto o pensamento.
4. A disjunção entre real e ideal perde sua independência quando é fundada na idealização matemática do fenômeno ancestral, pois nesse caso ela volta a depender dos procedimentos de justificação inscritos no círculo correlacionista.
5. Se a intuição intelectual garante a diferença entre a realidade do fenômeno e a idealidade do enunciado, ambos os termos acabam compreendidos no polo do pensamento, tornando difícil preservar a disjunção primária entre pensamento e ser.
6. A hipótese de um ser matematizável, mas independente da matemática, exige explicar como ele pode ser acessível à intuição intelectual sem se tornar seu correlato, dificuldade que a modelização científica da cognição aprofunda ao incluir o próprio pensamento na realidade que ele permite conhecer.
7. A aplicação do princípio de factualidade a si mesmo exige distinguir a existência contingente do pensamento de sua verdade, pois a autorreferência ameaça produzir contradição, a isenção do princípio ameaça restaurar o círculo correlacionista e a separação radical entre sua verdade e a realidade reabre a possibilidade de uma divergência entre pensamento e ser.
8. O materialismo especulativo enfrenta um dilema entre incluir o pensamento no ser, expondo o princípio de factualidade ao paradoxo da autorreferência, e conceder ao pensamento um estatuto excepcional, comprometendo a diacronia ao fazer a inteligibilidade do real depender da coerência ideal do princípio.
9. A necessidade da contingência procura satisfazer a exigência racionalista de que a realidade seja inteiramente inteligível e a exigência materialista de que o ser, embora inteligível, permaneça irredutível ao pensamento.
10. O ser pode ser pensado sem resto enquanto desprovido de razão, mas excede o pensamento porque pode produzi-lo e destruí-lo como a qualquer outro ente, de modo que seu excesso designa a ausência de fundamento e dispensa o recurso a um mistério inacessível à inteligência.
11. A objeção de autorreferência pode ser contornada distinguindo a existência factual e perecível do princípio da necessidade de seu referente, pois é a necessidade da facticidade que garante a contingência de todo ato que a pensa.
12. O princípio pode ser pensado ou enunciado contingentemente em qualquer tempo e lugar, ao passo que a facticidade necessária a que se refere garante sua verdade sempre que ele é formulado e seu domínio permanece restrito aos entes em seu ser.
13. A distinção entre a existência contingente do pensamento e a necessidade de seu referente depende de explicar como a intuição intelectual da contingência absoluta pode assegurar, ao mesmo tempo, o acesso ao real e a separação entre o real e o pensamento.
14. A intuição intelectual requerida pelo materialismo especulativo teria de apreender um referente necessário sem produzi-lo como faria o intelecto arquetípico kantiano e sem reconduzi-lo à representação ou à correlação intencional, deixando em aberto como se estabelece a separação entre a intensão contingentemente formulada e a extensão tida por necessária.
15. Se o referente «contingência absoluta» só pode ser determinado pelo sentido do enunciado que o designa, a objetividade que deveria garantir a verdade do princípio fica subordinada à estipulação conceitual, contrariando a exigência materialista de que o ser seja irredutível ao pensamento.
16. A superação do correlacionismo exige pensar a disjunção diacrônica entre real e ideal sem reinstalar uma divisão transcendental entre pensamento e ser, problema para o qual as obras de Alain Badiou e François Laruelle oferecem recursos conceituais.